"Glamorama" fala da tirania da sociedade

Com seu primeiro romance, Abaixo de Zero, Bret Easton Ellis foi nomeado o porta-voz da nova geração - era 1985 e, com apenas 21 anos, o escritor americano se inspirava na linguagem de videoclipe para retratar os meandros dos perfumados esgotos da Califórnia. Com o tradicional exagero mercadológico, o livro foi explorado como O Apanhador do Campo de Centeio do fim do século, o que o tempo se encarregou de negar. Com o passar dos anos, que lhe trouxeram uma avalanche de críticas dos especialistas e um carinho especial do público, Ellis, agora aos 37 anos, consolidou-se como celebridade. E com Glamorama (434 páginas, sem preço definido), que a Rocco lança na próxima semana, sedimenta a mudança do autor de personagens jovens e obcecados por sexo para homens aborrecidos e criadores de clones canibalizados."Considero Glamorama meu melhor livro, pois sua narrativa é clara e melhora progressivamente", comentou Ellis, em entrevista por telefone, de seu apartamento em Nova York. "Foi também um dos poucos a receber alguma crítica favorável." A afirmação vem carregada de desdém - há muito que Ellis não se preocupa com o que escrevem os resenhistas, preferindo manter sua escrita fria e realista, que surpreende pela descrição detalhada de atos violentos, como em seu livro anterior, O Psicopata Americano, também editado pela Rocco, e que inspirou o filme homônimo de Mary Harron (Leia mais sobre o filme).Em Glamorama, é narrada a história do modelo Victor Ward, sempre rodeado de belas mulheres e gente famosa (mais de mil nomes do high society são citados), que termina envolvido em uma complexa e violenta trama terrorista. "Quando escrevia o livro, o que mais me oprimia era a tirania da perfeição física que a sociedade nos vende", comenta Ellis.Agência Estado - Victor Ward seria um compêndio de diversos tipos de homem da sua geração?Bret Easton Ellis (pensativo) - Eu não saberia dizer ao certo. Ele é o símbolo de uma civilização que se preocupa com grife e com um estilo único de vida. O processo de elaboração de Victor Ward provavelmente é mais importante para mim do que para os que lêem a história como um jogo de ficção. Amadureci muito durante esse tempo, pois deixei a fase dos 20 anos para entrar na dos 30 e esse processo de envelhecimento é perceptível no tom da narrativa, certamente a mais cristalina que já escrevi. Victor talvez seja um dos narradores nessa experiência de mudança de mentalidade.Você escreveu Glamorama em seqüência e durante um longo período, entre 1990 e 97, o que é perceptível pela importância dos nomes famosos ao longo do romance. Ben Affleck, por exemplo, só aparece no final.É verdade, mas eu não me preocupei em atualizar isso, depois que o texto ficou pronto. Muito se falou sobre a quantidade de pessoas conhecidas que são mencionadas no livro, mas, para mim, são apenas nomes, não importa quem sejam. Estão ali apenas para refletir a reação dos personagens aos seus nomes. Quando decidi que Victor seria modelo e trabalharia em uma boate famosa, seria natural citar uma grande lista de colunáveis.Há também uma enorme citação de marcas de bens de consumo, como bebidas, roupa, comida. Ao fazer isso, você estava se sentindo fascinado ou oprimido com tanta oferta?Ambos. Confesso que me incomoda a opressão com que esses bens nos são ferozmente oferecidos, o que nos faz consumir por instinto. Mas tenho a sorte de ser um tipo especial de celebridade: não sou fisicamente conhecido como um cantor de rock ou um jogador de basquete. Por isso, posso ir tranqüilamente a um restaurante sem ser importunado com um pedido de autógrafo. Mas é justamente a ânsia incontrolável de consumir que me permite fazer a união entre o mundo fashion e a ação terrorista que marca os capítulos finais do livro. Para mim ambos funcionam de forma a deixar as pessoas inseguras, o que é extremamente opressivo.Você considera fundamental chegar ao extremo da violência?Sim, mas quero antes alertar que não sou uma pessoa violenta (risos), não gosto nem de filmes com pancadaria. Mas não considero Glamorama um livro violento, como o é O Psicopata Americano, cujo personagem principal é um serial killer, o que implicava descrições detalhadas de tortura e morte. Como disse, não gosto de conviver com a violência, mas, em meu trabalho de criação, tenho de ser verdadeiro com o personagem e descrever suas ações da maneira mais detalhada possível. Em Glamorama, o que incomoda é a crueza das palavras. E, em ambos os livros, a violência vem de personagens jovens, incomodados, que não têm a real dimensão da dor. Só não aceito utilizar a violência em cenas com humor negro.Como funciona sua inspiração?O mundo me influencia. Sou um homem frustrado com os valores da cultura atual, pois as pessoas perderam muito das noções essenciais da vida, tornando-se excessivamente competitivas. Assim, crio personagens a partir da irritação que essa situação me provoca.Além da realidade, há algum escritor que o inspira?Gosto muito de ler o trabalho de Don Delillo, que me influencia muito. Se estou satisfeito com o resultado final de Glamorama, é porque li diversos de seus livros. E acho que deveria ter lido há muito mais tempo. O que me agrada é sua visão crítica da América e a maneira muito hábil com que narra uma história, de forma cinematográfica, substituindo uma câmera estática por palavras. Cito também Philip Roth, além dos minimalistas como Raymond Carver, e os clássicos Flaubert e Hemingway.É possível afirmar que Glamorama é inteiramente metafórico?Bem, é meu conceito do mundo atual, mas não o vejo como um livro essencialmente dos anos 90. Creio ter escrito uma obra que trata de assuntos universais, mas meu conceito é essencialmente literário e não jornalístico.Do que trata o livro que você está escrevendo agora?Posso afirmar que será minha obra mais difícil de concluir, pois escrevo um texto estritamente biográfico. Acho divertido quando as pessoas caçam fatos da minha vida em outros livros. Asseguro que toda a minha produção é ficcional. Mas, agora é diferente. O personagem principal é um escritor, que tem muitas das minhas características. (Faz uma pausa) Na verdade, minha grande dificuldade com a história é por se tratar também da vida do meu pai. Assim, trato com fantasmas conhecidos e o horror é a grande metáfora que rodeia a morte do meu pai.

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