Giusi Merli fala de 'A Grande Beleza', que sai agora em DVD no Brasil

Atriz faz a santa do filme de Paolo Sorrentino que virou preferido de nove entre dez críticos

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

02 de agosto de 2014 | 16h00

Foi um belo encontro em Firenze, Florença. Na casa de Francesca della Monica, que faz a preparação vocal dos atores nas peças de Gabriel Villela. Francesca não só é amiga como também já preparou a voz de Giusi Merli para interpretações no teatro italiano. Giusi quem? Merli. Você pode até achar que não sabe quem é, mas sabe. A santa de A Grande Beleza, o filme de Paolo Sorrentino que virou preferido de nove entre dez críticos – no Brasil, inclusive – e que ganhou o Oscar e o Globo de Ouro, depois de passar meio em branco no Festival de Cannes do ano passado, quando o júri presidido por Steven Spielberg preferiu, irrepreensivelmente, premiar A Vida de Adèle, lançado no Brasil como Azul É A Cor Mais Quente, de Abdellatif Kechiche.

A Grande Beleza acaba de sair em DVD no País e é um bom motivo para que se fale do filme de Sorrentino com seu ator fetiche, Toni Servillo, e a extraordinária Giusi Merli. Recapitulando – Jep (Servillo) é o escritor de um só livro, mas um livro tão importante que o transformou em celebridade e agora ele atravessa todas as festas de Roma, prometendo a si mesmo escrever um livro sobre o tédio dos tempos modernos. “Mas se nem Flaubert conseguiu, conseguirei eu?”, pergunta-se, lá pelas tantas. Ao seu redor, a fauna romana, protagonista de uma nova doce vida, sem que isso signifique, necessariamente, conectar o filme de Sorrentino com o clássico de Federico Fellini que ganhou a Palma de Ouro de 1960, antecipando as mudanças comportamentais que marcariam a década.

A começar pela anã Dadina, interpretada por Giovanna Vignola e que ganhou fã-clube e seguidores no Facebook graças ao papel no filme de Sorrentino. Dadina tem momentos ótimos, mas a santa é outra coisa. Ela projeta A Grande Beleza num patamar mais alto e logo vem a cena deslumbrante dos pássaros. Você pode criticar a visão de mundo de Sorrentino, mas não a sua capacidade de criar esses momentos fulgurantes que ficam com o espectador. Como os grandes construtores de imagens do cinema – Alfred Hitchcock, Josef Von Sternberg etc –, Sorrentino já tem o filme pronto antes mesmo de ‘passar seu roteiro pela câmera’, como definia o mestre do suspense. Tem havido muita polêmica sobre A Grande Beleza. O filme versa sobre o quê? Sobre a crise de identidade e a busca pelas raízes. E, nesse processo, a santa, mesmo sendo uma personagem secundária, é quem ajuda Jep a resolver o enigma da própria vida.

Giusi Merli conta que, desde o início, seu raporto (contato) com Sorrentino foi ‘molto bello’, muito bonito. “Estava feliz de conhecê-lo, um grande artista, sem muita ansiedade de ser escolhida para o papel. Ele me pediu que dissesse o diálogo da cena do jantar, no encontro com Dadina. E me dizia que eu deveria parecer cansada, muito cansada. Cada vez mais, era esse cansaço que o atraía na santa e que queria que eu colocasse na voz, na postura. Num determinado momento, senti que ele duvidava. Me achava jovem para o papel. Gostaria de uma atriz mais velha, mas sua diretora de casting, Annamaria Sambuco, foi ‘molto brava’. O tempo todo ela me apoiou e torcia para que fosse escolhida. Paolo é muito educado. Dizia – ‘Senhora, posso lhe pedir que...’ E eu respondia sempre – ‘Tutto que vuole, tudo o que quiser.’ No final, foi uma experiência extraordinária, que creio que vai me marcar para sempre.”

E ela acrescenta uma história rara – “Foi muito espontâneo. Ele estava sentado na minha frente e eu lhe pedi que me desse as mãos. Disse-lhe que sentia que o filme seria belíssimo, e que seria ainda melhor se eu fizesse o papel. Sou budista e, como tal, apoio a vida. Me apoiando, acrescentei que a vida, em retorno, o apoiaria. Achei que ele ia pensar que eu era louca, mas Paolo, que não é budista, terminou me contratando.” Ele sabia perfeitamente a espécie de personagem que queria. “Suor Maria é fora do comum. Vive num mundo próprio e consegue dizer coisas profundas sem se dar conta, como se fossem verdades básicas.” Para a cena em que a santa está sentada, com os pés suspensos, Giusi conta que se inspirou em sua mãe, nos últimos anos de vida. Sorrentino a exortava a não falar como menina. “O aparelho que eu usava nos dentes me ajudou a criar o tom mais gutural, animal, profundo que ele queria. Era uma voz que me saía com dificuldade.”

O sucesso do filme não a surpreendeu. “Sabia que seria especial.” Ao conversar com o repórter – num almoço bem italiano de ‘pasta e vino’ –, Giusi conta que já estava se preparando para apresentar um texto de Samuel Beckett (Não eu) num festival na Sardenha. Not I constrói uma situação tipicamente beckettiana. Uma boca imensa domina o palco, enquanto uma voz monocórdica conta a experiência de mulher que foi abandonada pelos pais, após o nascimento prematuro, e cresceu muda. “O minimalismo de Beckett é intrigante. Exige muita concentração e também, como vou dizer?, que a gente encare o texto como uma página em branco. O segredo é não colocar muita expressão no que se diz, o contrário da dificuldade e cansaço de Suor Maria.” Depois disso, ela já fez uma Lice, em Livorno, com direção do brasileiro Marcelo Cordeiro, dividindo a cena com Francesca della Monica. Sobre a polêmica se A Grande Beleza é A Doce Vida de Sorrentino, ela conta. “Paolo admira Federico, mas nunca falou que estava tentando fazer uma Dolce Vita para o século 21. De minha parte, se penso nele, e no filme, em relação a Fellini, sinto que há uma proximidade maior com Satyricon.”

A GRANDE BELEZA

Direção: Paolo Sorrentino Distribuição: Paramount (141 minutos, R$ 39,90)

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