Gitai será homenageado no Festival de Cinema Judaico

Amos Gitai vive um momento privilegiado de sua carreira. Acaba de regressar a Israel, vindodo Japão, onde foi homenageado. Na próxima quarta-feira, desembarca em São Paulo para nova homenagem, a do 6.º Festival de Cinema Judaico, que começa dia 5 e vai promover uma retrospectiva dos seus filmes. E no início de setembro vai a Veneza, integrando duplamente a programação da Mostra de Arte Cinematográfica:"Eden" participa da competição e "Wadi Grand Canyon" será exibido fora de concurso. A carreira vai bem - muito bem -, obrigado. Não representa pouca coisa, considerando-se que essediretor israelense situa-se na contracorrente do lobby judaico de Hollywood e é um crítico feroz das contradições da sociedade israelense.Gitai conversa pelo telefone com a reportagem. Está em Haifa, é sábado de manhã no Brasil. Conversa sobre a vinda ao País, a carreira, o filme que vai a Veneza. Fala inicialmente eminglês, mas depois a entrevista prossegue em francês. No período em que se exilou de Israel, nos anos 90, Gitai foi morar na França. Aos 50 anos (nasceu em Haifa, em 11 de outubro de 1950)talvez não represente muito para a maioria dos leitores dizer que ele é o maior diretor do cinema de Israel. É uma cinematografia ainda pouco conhecida, internacionalmente. Mas basta dizer que Gitai fez "Kadosh" e aí o leitor já vai concordar com a afirmação. Ele fez também "Kippur", que concorreu no Festival de Cannes do ano passado e é melhor ainda, um dos filmes de guerra mais extraordinários da história do cinema. "Kippur" integra a retrospectiva que o Festival doCinema Judaico dedica a Gitai."Kippur" baseia-se numa experiência pessoal dodiretor. Em 1973, ele estava convencido de que iria seguir os passos de seu pai, um arquiteto formado na Bauhaus. E aí veio a Guerra do Kippur, contra a Síria. Gitai foi para a frente decombate. Estava num helicóptero militar que foi atingido. Mesmo com o aparelho em chamas, o piloto conseguiu pousar. Gitai passou por uma fase de profunda indagação. Ele acha que viver emIsrael, na tensão permanente do Oriente Médio, coloca não apenas a questão da sobrevivência, mas outra que vai além: sobreviver para quê? O acidente mudou sua vida. Resolveu que queria fazer algo mais urgente, mais engajado do que a arquitetura. Foi fazer cinema. Não uma obra qualquer. A obra de Amos Gitai fornece umdos testemunhos mais exatos (e, talvez, o mais exato) das contradições da sociedade israelense. Pense no fanatismo religioso, na questão palestina, na militarização de uma sociedade que vive em permanente estado de mobilização. Tudoisso está nos filmes de Gitai. O fanatismo religioso atravessa as imagens de "Kadosh". O militar está presente em "Kippur".E "Eden" transpõe para a Palestina, nos anos 40, uma história ("Homeland Girl") que, originalmente, se passava em Nova York. Gitai pediu licença ao autor, o dramaturgo Arthur Miller, ex-deMarilyn Monroe, para transportá-la para a Palestina. Não só conseguiu como Miller aparece como ator e ainda fez o elogio que deixou o diretor lisonjeado: disse que sua história ficou melhor na versão de Gitai.Em "Wadi Grand Canyon" ele retorna a Haifa com suacâmera para documentar o enclave em que palestinos e judeus marginalizados dão lições de coexistência. Seu pai se chamava Munioh Waneialaib, mas quando emigrou para Israel mudou o nome para Gitai. Ele explica o significado da palavra: quer dizer aquele ou alguém que trabalha com destilaria. O repórter ensaia a observação mais óbvia: e você destila... "Sim, o meu cinemanão deixa de ser uma forma de destilar gotas da realidade." Mas destaca: por maior que seja o comprometimento político e social, é um diretor de cinema e isso lhe coloca, imediatamente, oproblema da linguagem. Seu meio de expressão precisa ser eficiente e, por isso mesmo, ele está sempre se questionando sobre forma e conteúdo. Acha que os dois devem nascer juntos e se completar.É cinéfilo. Durante a entrevista, fala em Jean-LucGodard, Samuel Fuller. O mestre americano é citado em relação a "Kippur". Gitai diz que, durante anos, quis esquecer a experiência traumática daquele acidente de helicóptero. E, entãoum dia, participava da Bienal de Veneza como artista plástico quando encontrou Fuller. Os dois passaram uma noite conversando. Fuller contou-lhe suas experiências na 2.ª Guerra, que resultaram no filme "Agonia e Glória". Ouviu sobre a experiência de Gitai, exortou-o para que fizesse "Kippur". Quando o assunto é o fanatismo religioso, o diretor cita Gláuber Rocha. Não poupa elogios a "A Idade da Terra", que cita em francês, "L´Age de la Terre", e define como "uma grande viagem poética".Embora crítico da sociedade israelense e um tantomarginalizado no país - "Kadosh" e "Kippur" foram feitos com recursos do exterior -, Gitai diz que não é uma sociedade espartana. Até pela realidade do Oriente Médio, acha que os isaraelenses têm, o tempo todo, de justificar, para eles mesmos,o sentido de sua existência coletiva. Isso aguça muito o sentimento crítico. Emite opiniões polêmicas: "Israel é um ponto de encontro de deslocados de todo o mundo, que vieram paracá criar seu lar e sua pátria; criaram, mas o problema é que deslocaram os palestinos." Está convencido de que a fadiga das partes envolvidas levará à paz no Oriente Médio. "É sempre assim, em todas as guerras." O problema é que os dois lados ainda têm energia e determinação para criar mais sofrimento e infligir mortes um ao outro.

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