Giovanna Antonelli, a Maria no filme do padre Marcelo

Superado o choque de saber que poderia ter sido seqüestrado por homens ligados ao PCC, padre Marcelo Rossi se prepara para voltar à indústria do entretenimento como um tornado. Maria, Mãe do Filho de Deus, seu filme que entrará em circuito dia 10 de outubro, faz brilhar os olhos do sacerdote quando ele se lembra do poder que a produção tem em arrastar multidões às salas de cinema. Sua trilha sonora, lançada em CD, dá sinais de que irá repetir o sucesso de discos anteriores que chegaram a vender mais de um milhão de cópias. O padre tem exibido um trailer do longa durante as missas, mas nega usar a religião para ganhar dinheiro. Não houve resistência dos produtores quando o senhor chegou com a idéia de fazer um filme religioso? Padre Marcelo - Eu não entendo como é que nunca ninguém tentou fazer isso. Levei um amigo ateu para ver e ele achou tocante. Esse seu amigo não iria ver se não fosse seu amigo. Há uma resistência natural a temas religiosos no cinema... Quero atingir o povo em primeiro lugar. Pensa: somos 73% de católicos em 150 milhões de brasileiros. A maioria desses 73% são os "não praticantes" Tudo bem. São 30% que freqüentam a Igreja. Quantos são 30% de 150 milhões? Sua mãe é católica? É. Ela não gostaria de ver o filme? Acho que sim. Mas a pergunta é como convencer um não católico a comprar o ingresso? No boca-a-boca. Vou a todos os programas de televisão. O trailer dá muita vontade. O que eu tenho nas mãos é uma pérola. O preço do cinema é R$ 10, R$ 12, uma fortuna para uma família pobre... Mas quarta ou sexta-feira ele cai pela metade. Não, creio que só na quarta Na quarta e sexta, já conferi isso. Primeiro, vou ficar quietinho. Depois vou pensar em uma maneira... O problema é que cinema ainda é elite, não é padre? Eu vou levar pessoas ao cinema que nunca foram. Mesmo quem não gosta da história de Maria, um evangélico, vai querer saber o que o padre Marcelo fez. O senhor como padre não tinha que destinar parte da renda para obras assistenciais? Vamos destinar a renda da pré-estréia ao projeto Criança Esperança. Ai de mim se eu não faço isso. O senhor usa a religião para vender discos? Se eu ficasse com o dinheiro... Mas não é para mim. Estamos em um mundo em que as pessoas ouvem falar... É só verem as obras que fazemos. O primeiro ano da minha vida foi difícil porque eu só falava e as pessoas não tinham o que ver. Agora eu não preciso nem falar, é só verem. Que feitos seriam esses? Só no Santuário do Terço Bizantino temos uma casa que compramos para a recuperação de drogados e há as cestas básicas que doamos a várias famílias. O senhor virou uma estrela e as pessoas acreditam que tenha dinheiro. A vida melhorou? O carro que eu tenho é um Palio. Se eu poderia ter um carro melhor? Poderia. Mas não é para isso que estou aqui. Vá ao Santuário, vá ver uma missa. Veja se eu peço dinheiro. No dia 2 de novembro de 2000 eu tinha mais de 2 milhões de pessoas lá. Eu poderia ter pedido dinheiro de coleta. Se cada um desse R$ 1, quanto eu ganharia? O senhor logo vai fazer a via sacra em programas de tevê para divulgar o filme. É certo um padre ir a um programa que explora brigas de famílias e doenças para ganhar audiência? Qualquer um hoje tem um controle remoto... Bem, na hora em que eu vou as pessoas me respeitam. Se eu chegasse e me colocassem em situações como essas, lógico que eu não iria. E outra coisa: como eu vou atingir as pessoas pobres? Jesus foi acusado de comer com os pecadores. Eu tenho que ir a eles. O disco novo não traz músicas ´coreografáveis´ como as que o senhor fez e que tanto irritaram uma ala da Igreja. O senhor exagerou em algum momento? Não. A música tem a vantagem de evangelizar e as pessoas entenderem a alegria. Eu não sou cantor. O segredo é fazer com que as pessoas participem. Há padres que não gostam de barulho... O que eu tenho aqui nas mãos? É... dedos Cinco dedos. Eles não precisam ser iguais, o importante é que trabalhem em harmonia. Há irmãos sacerdotes que pensam que a Igreja Católica é uniforme, mas não é isso que penso. Estou em comunhão com o papa e em comunhão com o meu bispo. Jesus não agradou a todos, quem sou eu para ter essa pretensão? As pessoas que me criticam têm a visão uniforme. E eu as derrubo no ato. Eu digo, ´espera ai: é isso o que o papa fala?´ O senhor vai a teatros, shows? Eu não vou a festa, teatro. Nem na festa do meu sobrinho pude ir porque se vou a uma, tenho de ir a outras. O que faço de vez em quando é ir para o sítio de minha família. Ouve rádio? Gosto de CDs religiosos no carro. Algum CD de rap, reggae, rock? Não, não. Gosto muito de cinema também, mas não dá para ir. É minha consciência, não posso ir O senhor não corre o risco de ficar alienado? Distante do mundo de seus próprios fiéis? Demorei mas aprendi uma coisa na vida: eu não sou o salvador. Quem é chama-se Jesus. Eu tenho uma função, que é ensinar as pessoas a amar o Senhor. Tenho de tocá-las. Estamos em um mundo em que ninguém confia em ninguém. Você mesmo perguntou se eu ganho dinheiro com os discos....

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