Gillian Anderson quer brilhar bem longe dos ETs

Gillian Anderson caiu no túnel do tempo e foi sair lá no começo do século 20. Pior ainda, sem sua arma e sem a insígnia, os terninhos e os tailleurs da agente especial do FBI Dana Scully, que ela usa tão confortavelmente toda semana nos episódios de Arquivo X. Na Nova York ainda belle époque ela se chama Lily Bart e vive uma história que envolve amor e dinheiro que lembra A Época da Inocência, outro filme igualmente baseado em romance de Edith Wharton. The House of the Mirth, dirigido por Terence Davies, acaba de estrear nos EUA e ainda não tem data prevista para lançamento por aqui. É mais uma tentativa de fazer a carreira cinematográfica de Gillian brilhar tanto quanto a da telinha pequena. Pelo menos, em termos gerais, há muitas semelhanças entre o filme e o seriado estrelados por ela. Em ambos há forças poderosas e incontroláveis e as coisas nunca parecem ser o que são. Tudo aparência - Gillian Anderson comentou, numa entrevista, que "o filme não poderia ser mais diferente de Arquivo X, mas há uma ligação: em ambos os mundos tudo é apenas uma aparência. Basicamente todos vivem uma mentira", diz Gillian sobre os personagens do filme da Sony . Ecoando a ironia da escritora Edith Wharton, os homens e mulheres da vida de Lily parecem ser bem- nascidos e bem educados, mas por baixo dessas máscaras, são manipuladores, cruéis e traidores. Sem contar Arquivo X - o Filme, de 1998, The House of the Mirth é o primeiro longa estrelado por Gillian, que debutou no cinema em Destruídos pelo Ódio, de 1992. Ela nasceu Gillian Leigh Anderson, em Chicago, a 9 de agosto de 1968. Passou a infância e a adolescência entre a Inglaterra e os EUA. Apaixonada por teatro, formou-se em arte dramática na Universidade de Chicago e, em 1991, já estreou profissionalmente no palco. Fenômeno cult - Em 1992, fez um dos episódios de Arquivo X e firmou-se então como a agente Dana Scully, a parceira cética do crédulo agente Fox Mulder, vivido por David Duchovny. O slogan da série, "a verdade está lá fora" mostra o que jaz por trás das histórias: há segredos, fatos estranhos que só poderiam ser explicados pela presença de extra-terrestres ou seus artefatos em nosso mundo. Mulder crê nisso (inclusive porque sua irmã foi seqüestrada por ETs, um fato que o assombra) e Scully acha uma bobagem, que tudo é explicável. Desse conflito nasce boa parte da atração da dupla junto aos fãs, que transformaram a série num fenômeno cult. Os fãs torcem para que os dois se apaixonem e, ao longo do tempo, há indícios de alguma coisa acontecendo entre eles. Gillian conseguiu fazer de Scully uma curiosa mistura entre a garota que é "um dos rapazes", perita em tiro e em medicina legal, e uma mulher sedutora e muito feminina, apesar das suas roupas quase sempre bem conservadoras. Seu desempenho perfeito como a agente do FBI, que lhe rendeu prêmios Globo de Ouro e Emmy, já não a satisfaz. Ela quer provar que pode ser uma atriz da telona. Sua carreira ainda pequena inclui um papel secundário, mas marcante em Sempre Amigos, um filme estrelado por Sharon Stone, no qual ela é uma alcoólatra. Além do filme em que voltou a ser Scully (ganhando US$ 3 milhões), ela trabalhou em Corações Apaixonados, ao lado de Sean Connery, Ellen Burnstyn, Angelina Jolie e outros. Era Meredith, uma mulher que não acredita nos homens e rejeita as cantadas do charmoso Trent (Jon Adams) . Baixinha, com 1,59 m, com imensos olhos azuis e cabelos naturalmente loiros, Gillian Anderson foi considerada por seus colegas, naqueles livros de formatura, como a pessoa mais provável de ser presa em toda a classe. Não deu outra, ela foi presa porque, com uma colega, resolveu colar as fechaduras da escola. Aos 27 anos, casou-se com o diretor de arte Clyde Klotz, no dia de Ano Novo, no 17º. buraco de um campo de golfe no Havaí, numa cerimônia budista. Separaram-se dois anos depois e se divorciaram. Como a vida de Gillian é fazer seu seriado, ela encontrou novo namorado no set. Era o ator Adrian Hughes, mas tudo acabou depois da terceira vez em que o moço foi denunciado por assédio a extras de Arquivos X. Scully talvez não tivesse acreditado, mas, como diz a própria Gillian, "sou mais espontânea que meu personagem". Mas agora ela está empenhada em divulgar outro personagem, Lily Bart, pelo qual tem sido elogiada nas primeiras críticas de The House of the Mirth. A sua história: embora tenha sido criada no seio da elite rica e poderosa de Nova York, Lily Bart não tem dinheiro próprio. Apesar de suas ligações, tem uma situação social precária. Diante do fato de estar à beira dos 30 anos, Lily sabe que tem de arranjar um marido rico para confirmar seu status num mundo a que ela julga pertencer. Afinal, desde criança foi criada com esse objetivo. Pessoa melhor - Ao mesmo tempo, ela não consegue reprimir seus sentimentos verdadeiros, o tédio pela perspectiva de um casamento sem amor e seu envolvimento com Lawrence Selden (Eric Stoltz), um homem que, embora parte da alta sociedade, não tem meios para sustentá-la. Lily vai sofrendo humilhações, à medida que perde sua fortuna e acaba sendo rejeitada pela sociedade. Em troca, ela se torna uma pessoa melhor. Apesar dos corpetes e do luxuoso cenário da Nova York top de 1905, muito do que Edith Wharton, cujo romance foi lançado há várias décadas no Brasil como A Casa dos Mortos, diz sobre uma mulher tentando achar seu rumo no mundo ainda é verdadeiro hoje. O diretor Davies filmou The House of Mirth em Glasgow, na Escócia, a um custo de US$ 8,2 milhões, entre junho e julho de 1999, durante o intervalo de verão de Arquivo X. Ele diz que nunca viu o seriado e revelou que ficou interessado em Gillian para o papel ao ver uma foto dela. "Eu estava muito interessado na obra de John Singer Sargent, o grande pintor retratista da belle époque", conta. "A foto de Gillian apareceu no meu escritório e eu disse, ` é um rosto de Singer Sargent! ´ Ela tem esse jeito da época". Certamente uma surpresa para os fãs da muito anos 90 agente Scully. A tira da pesada de pé no chão, direta e sem frescuras, fazendo um papel cheio de frufrus e escondendo seus sentimentos com frases de duplo sentido ou veuzinhos no chapéu? Ao lado de Gillian, nesse papel tão inesperado, estão Dan Aykroyd, Eleanor Bron, Anthony LaPaglia, Laura Linney, Jodhi May e Elizabeth McGovern. Quem sabe, Gillian Anderson, ao lado desse elenco, descubra que sua verdade como atriz está mesmo lá fora - longe das telas de TV.

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