Gil e Bethânia em turnê pelo Nordeste

No estúdio Geléia Geral, em Ipanema, um momento para poucos. Sem perceber a presença da reportagem, Gilberto Gil e Maria Bethânia procederam, mais do que naturalmente, musicalmente: cantarolaram, acompanhados pelo maestro e músico de Bethânia, Jayme Álem, a Balada do Lado sem Luz, de Gil. A música serviu de cumprimento entre os dois. Uma saudação espontânea, regada a melodia e poesia.Mas a união não foi tão informal. Estavam ali para pegar duro no trabalho, ensaiar para uma curta turnê juntos, chamada Encontros Ourocard, iniciada com um "aperitivo", no mês passado: um espetáculo só para convidados no Credicard Hall. Os dois baianos não dividiam o palco desde 1994, quando reviveram a proposta do show Doces Bárbaros (disco antológico lançado em 1976), ao lado de Caetano Veloso e Gal Costa, na quadra da Mangueira."Milton (Nascimento) faria comigo aquele show do Credicard Hall e não pôde, por causa de uma faringite, então eu sugeri que convidassem Bethânia, que logo aceitou", conta Gil. "Era só uma noite em São Paulo, mas a Maria Luiza Juncá (produtora cultural) tinha esse projeto de encontros "de ouro" e nos propôs a continuidade", afirma Bethânia. "Ela sempre me convida para ser madrinha de algum projeto, assim foi com o Caixa Acústica - Mulheres, em Salvador e agora com esse encontro de duplas; adorei a idéia."Para Gil, a reaproximção no palco fez com que revisitassem situações do início das carreiras e não viviam há muitos anos. "Pudemos falar, discutir música, trocar informações sobre nossos novos trabalhos", acredita. "O interessante é que a situação se repetiu, pois foi assim no nosso primeiro encontro, quando nos conhecemos no meio musical e teatral para conversar sobre arte." Os dois contam que têm poucas oportunidades para isso.Apesar de "viciada em palcos divididos", Bethânia só não havia feito isso com Gil. Nos anos 70, elaborou shows nos quais se apresentava com o irmão e com Chico Buarque. Dos quatro bárbaros, segundo Bethânia, é com Gil que possui maior semelhança. Ele também concorda. "Nós temos uma coisa parecida na maneira de exercer o nosso ofício", diz. "A gente projeta nossas dimensões carismáticas de forma parecida, na forma de transformar isso no gestual, na coisa cênica, na presença do palco", analisa Gil. "Lidamos também de forma semelhante com a solicitação do público."Bethânia exemplifica o "profundidade do elo" com Gil quando fez o show Nossos Momentos, em 1982. "Eu tive uma ruptura com o meu maestro e foi a Gil que recorri para fazer a direção musical", conta. "A direção musical de um show é diferente de qualquer outra, tudo o que faço é muito próprio, muito meu", diz ela. "Entreguei isso na mão de Gil, um autor, e ele fez a direção, ensaiou todos os dias comigo, escreveu arranjos, deu idéias, escreveu vocais, isso revela uma identificação muito profunda; a minha relação é muito mais forte com Gil do que com qualquer um dos outros (bárbaros)."Gil conta que Bethânia é sua maior influência no que diz respeito ao lado cênico, no palco. "Ela é meu espelho, por mais estranho que possa parecer, já disse isso muitas vezes a Caetano venho dizendo há muitos anos que, quando ela sobe no palco, eu aprendo coisas, ali entendo coisas", informa. "É intuitivo."Com o passar dos anos, eles observam uma "suavização" na forma de conduzir a música. "Está tudo igual, só que suave, bem mais suave", diz ela. "As dobras do tempo vão dobrando as coisas, os temperamentos; vai fazendo com que as coisas fiquem mais ondulares", completa Gil. "Tem uma música minha que diz ´com mãos bem mais sutis, nossos desejos vão tornando nossos beijos mais azuis, menos carmins´, é a mesma coisa para esse momento."Estão cantando juntos Esotérico e Fé Cega, Faca Amolada, músicas dos Doces Bárbaros, e Balada do Lado sem Luz, canção que deveria ser desse disco e Bethânia gravou depois. Eles também vão cantar músicas de Eu Tu Eles, o recente CD de Gil.Para o show, que será realizado só no Recife, em Fortaleza e Salvador, uniram as duas bandas. Os dois antecipam que não está nos planos imediatos a gravação de um CD. Gil acabou de fazer um disco com Milton, ainda inédito, e Bethânia, em fevereiro, entra em estúdio para gravar o CD comemorativo de 35 anos de carreira - deve ter alguma música de Vinícius, é só o que ela arrisca contar. "Estou trabalhando nisso e já pedi ajuda ao Gil", afirma ela. Juntos, os dois também participarão de um antigo projeto de Elba Ramalho, em homenagem à Nossa Senhora.Bethânia pergunta a ele se o novo CD ficou bom. Ele diz que sim. "Só participaram Sandy e Júnior, eles cantam uma letra do Milton que fala sobre a geração que contempla a próxima, um tema relativo à nossa biografia", conta Gil. "É impressionante como Sandy canta bem", comenta Bethânia.

Agencia Estado,

19 de setembro de 2000 | 16h27

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