Gil ataca a imprensa em aula para estudantes

Em um discurso veemente nesta terça-feira, durante uma aula magna para uma platéia de cerca de 300 estudantes da Universidade São Paulo (USP), o ministro da Cultura, Gilberto Gil, queixou-se da maneira como a imprensa tem noticiado o texto de criação da Agência Nacional de Cinema e do Audiovisual, a Ancinav. Gil referiu-se, sem citar o nome do jornal, à manchete de O Estado de S.Paulo de domingo (Governo quer controlar também internet e celular) e uma entrevista com o colunista Arnaldo Jabor, publicada também pelo jornal na edição de sábado. "Um grande jornal de São Paulo publicou uma manchete na qual dizia que o MinC quer controlar a internet", disse o ministro. "Isso ofende a minha inteligência, a minha história. Sou usuário da internet e defensor do software livre. Todos sabem que fui perseguido pelo governo militar, que tive minha obra censurada. Pode o perseguido tornar-se um perseguidor? Eu, não!", afirmou.Segundo Gil, a forma de abordagem do jornal ("que publica opiniões pessoais de seus próprios colunistas e editorialistas") lembraria a estratégia do governo de George Bush nos Estados Unidos, que nutriu-se inicialmente de um "bombardeio" crítico para depois afirmar um "pensamento único". "O projeto (da Ancinav) tem sido qualificado - ou desqualificado - como stalinista", disse. "Mas, entre os tantos detratores, quantos realmente leram as mais de 100 páginas do anteprojeto?". De acordo com o ministro, a mídia estaria confundindo regulação com regulamentação e controle e o interesse do projeto seria criar "instâncias de mediação" que assegurem a defesa da sociedade de quaisquer abusos, mas sem se tornarem instrumentos de "imposição".A aula magna teve como tema a Cultura digital e Desenvolvimento, e foi uma das atividades do projeto Cidade do Conhecimento, um programa do diretor do Instituto de Estudos Avançados da USP que promove a criação e o desenvolvimento de projetos por meio de redes digitais colaborativas. Entre os apoiadores do programa, estão o Ministério da Ciência e Tecnologia, a Secretaria de Estado da Educação e o jornal O Estado de S.Paulo.Ao final do discurso, de mais de uma hora, o professor Gilson Schwartz, que dirige a Cidade do Conhecimento, brincou com Gil e o convidou a pegar um violão e assumir um palco que havia do lado de fora do auditório, ao lado de um telão onde mais estudantes assistiam a palestra, e dar uma aula de "inclusão musical". Antes mesmo do ministro terminar o discurso, uma garota na platéia já cantarolava alto: ("Vamos fugir, desse lugar, baby!!!")

Agencia Estado,

10 de agosto de 2004 | 21h30

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