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Gigante, filme uruguaio traz romantismo masculino

Longa de Adrián Biniez ganhou o Urso de Prata em Berlim e o Kikito de melhor roteiro em Gramado

Luiz Carlos Merten, de O Estado de S. Paulo,

20 de agosto de 2009 | 18h25

É no mínimo curioso que estreiem juntos dois filmes que já concorreram no Festival de Berlim, em fevereiro, e depois no de Gramado, que terminou sábado. A Teta Assustada, de Claudia Llosa, recebeu o prêmio principal, o Urso de Ouro de melhor filme e o Kikito de melhor longa da competição latina. Gigante, de Adrián Biniez, cineasta de origem argentina que fez seu filme no Uruguai, ganhou o Urso de Prata em Berlim e o Kikito de melhor roteiro em Gramado. Mas Gigante recebeu também o Kikito de melhor filme da crítica. É melhor, realmente.

 

Veja também:

link Trailer de 'Gigante'

 

Biniez está na Europa, participando de um festival na Holanda. A organização fez-lhe o favor de colocá-lo num quarto sem telefone e, por isso, ele responde por e-mail às perguntas do grupo Estado. A primeira é a básica: como surgiu essa história tão simples e, ao mesmo tempo, tão rica? É baseada somente na observação? Possui antecedentes reais? "Tenho um caderninho no qual anoto todas as ideias que tenho. Em geral, 99% delas vão para o lixo. A ideia de Gigante era uma frase que dizia - agente de segurança se enamora de empregada da limpeza num supermercado Não parecia muito, mas fiquei pensando que poderia desenvolver uma boa história. Essa ideia se reforçou quando resolvi basear o personagem de Jara (o segurança) num amigo que tem, o mesmo nome, Fabián Jara. Não pensava no aspecto psicológico, mas no físico. Para a personagem feminina, Julia, minha escolha nunca mudou. Escrevi o papel para Leonor Svarcas, que era minha mulher, na época."

 

O diretor acrescenta que, embora tenha muita ficção, o filme se baseia na observação de alguns amigos. "Numa certa timidez masculina pós adolescente. Para mim, o filme fala do romantismo masculino." O protagonista trabalha vigiando os outros, mas existem cenas nas quais ele é observado. Biniez quis fazer um comentário sobre a sociedade atual da imagem? "Quando decidi que Jara iria trabalhar nas câmeras de segurança de um supermercado, percebi que tinha um poderoso mecanismo narrativo para levar adiante o filme. Comecei a jogar com as diferentes formas do olhar - Jara olha e é olhado, ele se olha. Nunca pensei nisso como um comentário social, mas é algo que talvez surja de forma natural. Não busquei intencionalmente, mas com o filme pronto percebi que estava lá."

 

O ator e o personagem são grandes a ponto de justificar o título de Gigante, mas no diálogo de Jara com o sujeito que sai com Júlia pode-se encontrar outra explicação. Ele fala que as coisas mal resolvidas ou aquelas pelas quais temos muita expectativa vão se agigantando... "Nunca ninguém me fez uma observação dessas, mas estou gostando. É original e menos direta do que o motivo pelo qual chamei o filme de Gigante. Queria mesclar o personagem e o nome do supermercado. Me inspirei na rede francesa Géant. Vou usar sua ideia como sendo minha nas entrevistas que ainda vou dar aqui na Holanda e depois lhe envio o dinheiro dos direitos, OK? Ha-ha-ha (Biniez escreve como se estivesse rindo).

 

O relato tem um tom minimalista. Uma observação - ao microscópio - de vidas pequenas. Autores como Robert Bresson e Tsai Ming-liang representaram alguma fonte de inspiração? "Gosto dos detalhes na vida cotidiana e nos filmes. Minha sensação é de que eles tornam os filmes mais complexos. Comecei a escrever o roteiro de Gigante uma semana depois de assistir a uma retrospectiva dos filmes de Tsai Ming-liang em Montevidéu, em 2004. O que me encanta em Tsai é a atmosfera urbana de seus primeiros filmes. Bresson é um cineasta que admiro profundamente, mas, do ponto de vista visual, acho que Gigante é mais bressoniano do que tsaimiliano. Tsai gosta dos planos sequências à Antonioni, Bresson filma planos mais curtos e se liga no ritmo. É um autor que conta sempre pequenas histórias, mas seus filmes são ágeis, do ponto de vista narrativo, e ele tem uma utilização do som off screen que me deixa sempre maravilhado. Mas quero dizer que antes de começar a filmar Gigante descobri o universo de Judd Apatow. Me enamorei e acho que foi outra influência, mais no espírito, talvez, do que na forma."

 

Gigante (Uruguai-Argentina-Alemanha-Espanha/2009, 90 min.) - Drama. Dir. Adrián Biniez. 12 anos. Cotação: Ótimo

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