Claudio Onorati/EFE
Claudio Onorati/EFE

Gianni Amelio lança luz sobre o Lido

'O Intrépido’ brilha como raio de Sol em Veneza, apesar da recepção ambígua

Luiz Zanin Oricchio - Enviado Especial a Veneza, O Estado de S. Paulo

04 Setembro 2013 | 20h39

Finalmente um raio de Sol brilhou no Lido. Mas não foi lá muito bem recebido. O Intrépido, de Gianni Amelio, cujo personagem Antonio Pane (Antonio Albanese) passa por tormentos, mas termina sua jornada com uma réstia de luz, dividiu o público. Parte aplaudiu, parte vaiou. Uma reação estranha, em particular da plateia de jornalistas (dos quais, claro, italianos são maioria) que tem se comportado este ano com inédita generosidade. Como a repetir a velha máxima de que se é sempre mais exigente com o time para o qual se torce. Ou, talvez, o retrato da Itália contemporânea apresentado por Amelio não tenha deixado satisfeita essa parte do público. Ou por julgá-lo cruel demais, ou talvez, o contrário, edulcorado em excesso. Como saber?

Em todo caso, a parte da plateia que não gostou evitou a coletiva de imprensa, que foi uma consagração para Amelio e seu elenco. Surgiu apenas uma pergunta levemente incômoda, mas sintomática: “Você fez um filme de final consolador?”. Amelio respondeu que, mesmo em suas obras mais dramáticas, no sentido preciso do termo, como Ladrões de Crianças e América, sempre evitou deixar o espectador com um travo amargo na boca. “Acho que todos precisamos de um pouco de consolo, ainda mais nos dias que correm. De modo que o desfecho de O Intrépido não é estranho à minha maneira de ver a vida”, disse.

De fato, há muito matiz, muito claro-escuro, muito tempero agridoce na história de Antonio Pane, um personagem de fábula, porém metáfora precisa da precarização do trabalho na Europa. Quem é ele? Antonio tem todos os empregos e nenhum. Vive de substituir trabalhadores que, por um motivo ou por outro, não podem comparecer aos seus empregos num determinado dia. Ele pode ser açougueiro hoje, amanhã estará numa linha de montagem, pode recolher lixo na rua, vender rosas à noite, servir pratos num restaurante fino ou mesmo descer ao inferno de uma mina de carvão. Sempre mantendo o sorriso, sem o qual, segundo ele, ninguém se levanta da cama de manhã cedo.

Antonio tem um filho, um saxofonista sem confiança em si. E conhece uma jovem num concurso que presta visando um cargo público. Essa máquina de trabalho, na verdade, tenta se comunicar com os jovens, estes que estão desesperados para valer, e não veem qualquer motivo para acreditar no futuro. São esses moços perdidos que dão o tônus ao filme. E, se Antonio pouco pode pela garota, ao menos consegue se reaproximar do filho – o que a turma do contra pode ter entendido como maneira de maquiar a realidade para que ela não apareça tão feia. Visto sem humores hepáticos, porém, O Intrépido é um belo filme político, um pouco à maneira de Milagre em Milão, de Vittorio De Sica, obra favorita de Amelio. O personagem é de corte chapliniano, mas o roteirista Davide Lantieri revelou uma inspiração inesperada: a do livro É Isso um Homem?, de Carlo Levi. Narrando sua experiência no campo de concentração, Levi fala de um homem que, do fundo de sua miséria, levanta-se todo dia e faz a barba. A dignidade dos que não têm nada: mais do que o desfecho, é essa a luz baça que ilumina o filme.

Mas quem prefere olhar apenas o lado escuro da vida não ficou órfão. Foi regiamente recompensado por Moebius, novo filme escândalo do coreano Kim Ki-Duk, vencedor do Leão de Ouro do ano passado com o radical Pietà. Em mais uma trama familiar, o diretor conta a história de uma mãe enciumada que, traída pelo marido, resolve cortar-lhe o mal pela raiz. Não conseguindo, opera sobre o filho. Os desdobramentos são tão incongruentes quanto apelativos. Trabalhando no limite do chamado filme-extremo, Kim Ki-Duk brinda o espectador com uma série de mutilações, incesto, hectolitros de sangue e cenas grotescas, tais como um pênis extirpado sendo atropelado por vários carros enquanto o dono tenta em vão resgatá-lo. Virou piada involuntária. Mas foi consagrado. Para quem gosta, é de fato um prato até a borda.

Em concurso, Errol Morris apresentou The Unknown Known, documentário-entrevista com o ex-poderoso Donald Rumsfeld, secretário de Defesa nos governos Ford e Bush, e principal artífice da invasão do Iraque. O filme é revelador, ma non troppo. Rumsfeld tenta passar imagem positiva e fica na defensiva. Bem diferente de outro filme do gênero dirigido por Morris, o ótimo Sob a Névoa da Guerra, em que Robert McNamara fazia revelações sobre a época da Guerra Fria, Cuba e o Vietnã. O próprio Morris compreende a diferença entre os dois: “No caso de McNamara tínhamos uma distância de mais de 30 anos dos fatos, enquanto que, em Rumsfeld, são coisas que aconteceram há pouco”. A explicação é boa, mas nem por isso o filme é menos decepcionante.

Venezianas

Homem feminista

Desembarcaram em Veneza sete integrantes do Femen, grupo que tornou-se famoso por seus protestos topless. A presença das moças, que chegaram vestidinhas, é o documentário Ukraine is not a Bordel (A Ucrânia Não é um Bordel), da diretora Kitty Green, uma tentativa de entender o grupo a partir do seu interior. A maior revelação do filme, fora de concurso, é que seu mentor seria um homem, Viktor Svyatskiy, ideólogo do feminismo radical.

Stefan Zweig na moda

O francês Patrice Leconte apresentou A Promessa, baseada em romance do austríaco. Ambientado na Áustria, mas falado em inglês, tem como protagonistas Richard Madden e Rebecca Hall. Um amor impossível na Europa de 1912. Quando o acusaram de ter mudado o final do livro, Leconte reagiu: “Zweig era um pessimista; se eu mantivesse o final, vocês teriam vontade de se jogar debaixo de um ônibus”. É o tal do raio de luz. Mas não precisa exagerar.

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