George Michael rouba a cena na Berlinale

Anjelica Huston, Cate Blanchett e Bill Murray no irônico filme The Life Aquatic, de Wes Anderson, o musical pornográfico chinês The Wayward Cloud e Les Mots Bleus, de Alain Corneau e, principalmente, o cantor George Michael, que atraiu muitos fãs e destacou o Brasil no filme sobre sua vida, concentraram a atenção nesta quarta-feira no Festival de Berlim.Michael disse que está encerrando um capítulo de sua carreira de duas décadas de música pop. "Eu penso que o gênero de música que eu faço morreu", disse Michael, de 41 anos, aos jornalistas.George Michael veio mostrar o documentário A Different Story, de Southan Morris, do qual é personagem. A coletiva foi um escândalo, com as pessoas se acotovelando para entrar na sala. Michael conta tudo, o que permite que o Brasil se faça presente. Quase 20 minutos dos 100 que compõem a metragem total são dedicados ao Brasil. Quase 20 minutos dos 100 que compõem a metragem total são dedicados ao Brasil, mais exatamente ao namorado brasileiro, Anselmo, que morreu de aids e sobre quem o astro fala com a maior franqueza, dizendo que foi seu maior amor. Ele diz isso com o novo namorado sentado na platéia. Há algo de triste em George Michael: A Different Story, algo como uma nostalgia da época em que ele foi realmente grande. Hoje, Michael continua atraindo a mídia e as multidões, mas não é sombra do que era. O documentário passa isso. Talvez seja seu maior (único?) mérito.Brasileirinho é um filme no qual a música é importante. Petzold mistura Bach e Tom Zé (Mã). A música brasileira tem fornecido a trilha do festival. Brasileirinho, o novo documentário de Mika Kaurismaski, teve casa cheia em todas as sessões e uma festa com esse nome virou a madrugada com gente cantando, bem, tentando cantar e dançando ao som de chorinho. Há um personagem negro, sugestivamente chamado Pelé, que também canta MPB em The Life Aquatic with Steve Zissou, o novo Wes Anderson. Ainda sobre música - Walter Salles participou ontem de um debate sobre a importância da trilha, com Mike Figgis. Quase na mesma hora, houve outro debate, com Paloma Rocha, após a projeção da versão restaurada de Terra em Transe. Glauber (re)vive em Berlim 2005.Bomba pornográfica - Como o palestino Hany Abud Assad, que lançou com Paradise Now uma bomba política na Berlinale - e assinou o melhor filme até agora -, o diretor de Taiwan Tsai Ming-liang também lançou uma bomba, de efeito mais retardado talvez, mas The Wayward Clouds virou o filme mais comentado da competição. A maioria - críticos e jornalistas de todo o mundo - admite que simplesmente não entende, embora se sinta perturbada pelas imagens do autor.Preocupado em mostrar que o dinheiro tenta comprar tudo, Tsai sugere aqui o que ele não pode comprar - o amor. E, para isso, adota o formato de um filme pornô. The Wayward Clouds - o título vem de uma canção e refere-se a nuvens que se localizam no limite do céu - insiste no tema da possibilidade/impossibilidade de comunicação entre os homens. Parece auto-referente, na medida em que reassume elementos de O Rio e O Buraco. Há agora uma crise de água em Taiwan, substituindo a de moradia de O Buraco. A água, no limite, representa o líquido seminal. Com freqüência é poluída, ou indica uma poluição da mente, como em O Rio. E números musicais invadem a toda hora o relato, de novo como em O Buraco.Um casal habita o mesmo prédio. Ela recolhe água não importa de onde - de privadas, até. Ele trabalha como ator pornô, num filme que se roda no mesmo edifício. O suco de melancia substitui a água que falta. E uma metade de melancia, no meio das pernas de uma mulher, vira o substituto do sexo.

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