George Lucas diz que a saga não passará de seis episódios

Não adianta perguntar a George Lucas qual o seu episódio favorito da série Guerra nas Estrelas. Mesmo tendo dividido a saga futurística em seis capítulos, o criador dos lendários cavaleiros Jedi com suas espadas luminosas considera as duas trilogias uma obra única. "É como um livro composto de vários volumes, que pede uma avaliação do conjunto", diz o cineasta e produtor, empenhado na promoção de Star Wars: Episódio 2 _ O Ataque dos Clones. "Eu lido com temas recorrentes, como a descoberta de si mesmo, aspirações pessoais, dever e honra. Reapresento-os com outros personagens em situações diferentes, fazendo paralelos com o que já foi visto."O novo longa-metragem é ambientado dez anos depois de Episódio 1 _ A Ameaça Fantasma (2000), o primeiro título de uma série de três que antecede a ação do Guerra nas Estrelas original, lançado em 1977. "Ao contrário do que muitos podem pensar, eu concebi a história toda de uma só vez. Só me recusei a começar a contá-la do início. Preferi partir do meio, ou seja, do episódio 4", conta Lucas, lembrando que teria sido impossível levar às telas as três primeiras partes da fantasia espacial sem a tecnologia digital disponível hoje.Graças aos efeitos de última geração, o personagem Yoda já pode exibir toda a sua habilidade com os sabres de luz. "Quando Yoda apareceu pela primeira vez, em O Império Contra-Ataca, ele não passava de um boneco. Como era difícil fazê-lo se mover, ele passava quase todas as cenas sentado. Agora ele até luta com Dooku (o ator Christopher Lee)."Mesmo reconhecendo que o personagem perde sua poesia ao se transformar em herói virtual em O Ataque dos Clones, Lucas defende sua modernização. "Isso é compensado pela infinidade de coisas que Yoda já pode fazer." Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista concedida no Festival de Cannes, onde Lucas apresentou fora de competição o Episódio 2 da aventura ambientada em "alguma galáxia distante".Agência Estado - Considerando a legião mundial de fãs, você se deixa influenciar por eles quando dirige um novo episódio? Não, toda a mitologia da saga foi definida lá trás. Escrevi os três primeiros episódios há 30 anos, quando trabalhava no filme original. Reconheço que, naquele período, pensava estar perdendo tempo. Não imaginava que as histórias de apoio pudessem sair do papel por exigirem tecnologia mais avançada. Seria impossível dar vida a Jar Jar, por exemplo. Um robô de borracha gigante que pudesse se mover era um luxo demasiado na época.Foram motivos tecnológicos que o afastaram da saga, criando um hiato de 15 anos entre a primeira e a segunda trilogia? A falta de tecnologia pesou, mas não foi o único fator. Quando terminei O Retorno de Jedi, decidi que tinha de cuidar da minha família e fazer outras coisas, como estabelecer uma companhia que pudesse me dar independência no futuro e ainda produzir Os Caçadores da Arca Perdida. Como Guerra nas Estrelas é uma operação complexa, sabia que teria mais controle, mesmo no campo criativo, se respondesse também pela produção executiva. Mas eu não tinha cacife para isso naquela época.Quais as suas lembranças da filmagem de "Guerra nas Estrelas"? Eu vivia estressado. O primeiro filme foi o mais difícil de fazer, não só pelo fato de estarmos quebrando barreiras em termos de efeitos especiais, mas também porque eu acumulava várias funções e ainda sofria muita pressão do estúdio. Agora eu me divirto muito mais justamente por não precisar me preocupar com o aspecto comercial.Haverá um novo desdobramento da história, assim que for completado o terceiro filme da segunda trilogia?A saga não passará de seis episódios. Não vou escrever mais e nem deixarei que façam isso depois da minha morte. O máximo que posso permitir será a publicação de livros com novas histórias. Não sou tão fã de seqüências ou "prequels" (que voltam no tempo) como as pessoas imaginam. Só lanço mão de continuações quando é necessário. Guerra nas Estrelas precisou ser dividido em partes. Do contrário, o primeiro filme ficaria com pelo menos cinco horas.Como vê a resistência do mercado ao cinema digital?É natural. Quando os pintores passaram a usar tinta a óleo também houve uma desconfiança inicial. Mas, com o tempo, a tecnologia foi incorporada por apresentar vantagens. Até então eles não podiam mudar de idéia no meio de um trabalho porque a pintura era definitiva. A tinta a óleo mudou a visão dos pintores ao proporcionar-lhes muito mais possibilidades. O mesmo acontece com o digital.Está dizendo que o cinema também deixa de ser definitivo com o equipamento digital?Sou a favor desde que o próprio autor retoque a sua obra. Principalmente se ele acredita que pode melhorá-la com a nova tecnologia. Mas eu nunca admitiria que o estúdio contratasse outra pessoa para refazer os meus filmes, por exemplo. O DVD já representa uma forma de retocar um filme. Quando o diretor tem uma versão de três horas que o estúdio não quer lançar no cinema, esse formato é a melhor opção.Como a interpretação dos atores de "Guerra nas Estrelas" mudou diante da nova tecnologia? A atuação na saga sempre foi propositadamente teatral, inspirada na dramaturgia dos anos 30. Isso facilitou a transição para o cinema digital, já que os atores representam muitas vezes contra um fundo de tela azul, onde será posteriormente aplicada a imagem virtual. Mas é o mesmo que fazer teatro, onde os atores também precisam fingir que estão em outro lugar, muitas vezes sem poder contar com um cenário convincente.Acredita que o ator perderá espaço na era digital? Cinema digital pode ser muito útil quando um ator é demitido ou morre durante as filmagens. O computador pode duplicar sua imagem e fazer inúmeros outros truques. Mas a interpretação continuará imprescindível. Mesmo que juntássemos 5 mil expressões de um ator, não poderíamos construir uma performance. Seria apenas a caricatura de um ator. Interpretação será sempre um esforço humano.

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