Molly Riley/Reuters
Molly Riley/Reuters

George Clooney fala sobre os desafios de atuar e dirigir

Astro dirige, interpreta e é autor do roteiro de 'Tudo pelo Poder', filme sobre bastidores políticos que estreia nesta sexta

Pedro Caiado/Especial para o 'Estado'/Londres,

22 de dezembro de 2011 | 23h18

A história de Tudo pelo Poder, filme que estreia nesta sexta-feira no Brasil, é clássica. George Clooney vive Mike Morris, um carismático candidato liberal pelo partido democrático que disputa a presidência concorrendo contra o partido conservador. Ryan Gosling, ator de 30 anos que é a aposta de Hollywood no momento, vive seu jovem porta-voz de imprensa, Stephen Meyers, cuja esperança e romantismo se tornam rapidamente desilusão.

O filme é baseado na famosa peça de teatro Farragut North, escrita por Beau Willimon, um entusiasta assim como o personagem de Gosling, que trabalhou na campanha do democrata americano Howard Dean, sem sucesso, em 2004.

Em entrevista durante sua passagem por Londres para promover Tudo pelo Poder, Clooney, aos 50 anos, confessou as raízes de sua mente política e por que não tem a mínima intenção de entrar para a política.

Qual é sua atração pela política? Seria influência dos seus pais durante a infância?

Bem, meu bisavô foi prefeito, meu pai foi âncora de TV durante 40 anos e, para ser âncora em Ohio, você tinha de estar envolvido com política. Eu cresci em uma época que a maioria das pessoas tinha uma consciência política e social. Algumas das maiores mudanças no cenário político do meu país aconteceram durante aquele tempo. Eu fui criado para ser parte daquilo.

O quanto deste filme é baseado na experiência de seu pai na política?

Há certamente elementos daquela experiência. Há um momento em que estou no carro com Jennifer Ehle - aquela cena é resultado de uma conversa que tive com meu pai sobre o fato de ele ser candidato ao Congresso. Há apertos de mão que você deve fazer, mas que normalmente não faria: infelizmente, política funciona dessa maneira. Você não faz acordos, mas tem de aparecer em eventos e cumprimentar pessoas que normalmente não acharia muito interessante, somente para levantar dinheiro para a campanha - ao menos que você seja rico, o que não é o caso do meu pai.

O que foi mais complicado em interpretar um candidato?

Esse papel é difícil. Você sempre pensa que atores têm egos gigantescos - e é verdade -, mas, para posar para uma foto com o queixo para cima, por exemplo, é preciso um grande ego, algo que os políticos têm de sobra. É muito complicado quando o produto que você esta vendendo é você mesmo para todo um país. Eles pensam: "Sou melhor que todos nesta sala". Foi muito difícil incorporar o ego de um político. Eles realmente afirmam o tempo todo: "Eu sou o melhor!".

O que mais o atraiu em realizar este filme?

Eu acho que uma das questões que o filme levanta é se vale a pena. É basicamente a mesma pergunta com que nos deparamos em certos momentos da vida. Se é melhor para você, mas não necessariamente para outra pessoa, vale a pena fazer? E, às vezes, a resposta pode ser "sim". A questão que fica é até onde se pode esticar a escala moral.

 

 

Apesar da tentativa fracassada de seu pai de entrar na política, e da vontade de vê-lo como candidato à presidência dos EUA, será esse ponto o mais próximo que veremos Clooney no mundo da política?

Eu acho que você viu o que aconteceria se eu me candidatasse. Não, eu tenho uma ótima vida e uma existência confortável. Se eu quiser colocar meus dedos em questões envolvendo política, como no Sudão ou Darfur, farei com vontade - são questões que eu posso realmente ter algum envolvimento. Não tenho de realizar acordos na posição que estou, como um político faria. E eles são muito mais espertos do que eu.

O filme mostra um lado negro da política, em que você precisa vender sua alma para chegar ao topo. Seria Hollywood também assim, maquiavélica?

Quando eu morrer, vou para o inferno, sei disso. Atores não são assim. O sistema pode ser assim - há certamente um elemento agressivo. Tenho certeza de que vocês, jornalistas, já encontraram atores que gostariam de ver com a cabeça cortada, mas a maioria da classe é bem gentil com os colegas porque sabemos que somos sortudos por estar em um filme. Você é privilegiado e entende que não é somente a sua inteligência que o levou a essa posição, mas vários acidentes ao longo do caminho. Reconhecemos isso nos colegas. E também acho que há um elemento de generosidade na maioria dos atores que não vejo na classe política.

 

 

O que o faz dirigir filmes, além de atuar?

Trabalhei horas e horas na televisão como ator, antes mesmo de começar a fazer filmes. De certa maneira, sinto já ter feito centenas de filmes. Venho fazendo isso há um longo tempo e, em certo momento, surge a necessidade de tentar coisas novas para expandir a criatividade. Claro que há maneiras de se fazer isso como um ator, mas tenho a necessidade de ser criativo nessa indústria. Dirigir e escrever é um processo incrivelmente criativo. Enquanto atuar é um dos elementos de um filme, dirigir é como ser um pintor que une todos aqueles elementos - som, música e a câmera. Esse trabalho pode ser divertido e estimulante. Mas, se você falhar, pode ser extremamente desanimador, muito mais do que como um ator. Por outro lado, se fizer sucesso, torna-se algo incrivelmente excitante. Gosto do risco envolvido.

Seus filmes tratam o público como adulto. É frustrante para você lançar um filme sobre política e saber quer as pessoas estão, na realidade, obcecadas em saber com quem você estará de mãos dadas no tapete vermelho?

Bem, eu entendo os dois mundos. Cresci rodeado disso. Estou interessado em fazer filmes que lançam perguntas e não necessariamente respostas. Cresci naquela época do cinema em que um tremendo número de coisas estava acontecendo nos EUA, durante os anos 1960 e 70. Era o movimento por direitos civis, contra a guerra, pelos direitos das mulheres... E tudo aquilo foi refletido nos filmes. Acho que há muita coisa acontecendo nesse momento no meu país e no mundo, que novamente é filtrado pelo cinema. E eu gosto desse tipo de filme.

Você acha que Hollywood tem o poder de mudar o cenário político?

Hollywood não tem muito a ver com mudança política, e sim refletir o que ali acontece. São necessários dois anos entre escrever um roteiro e fazer um filme. E dinheiro é um grande fator na política agora. No atual momento dos EUA, 95% das pessoas que vencem as eleições são as mais ricas. Isso acontece com frequência. Mas acho que vai chegar um momento em que vamos começar a eleger de novo pessoas que não apenas vão salvar nossos trabalhos, mas também que farão alguma mudança de fato.

Tudo o que sabemos sobre:
George ClooneyTudo Pelo Poder

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.