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Philippe Antonello/Netflix
Philippe Antonello/Netflix

George Clooney fala sobre ‘O Céu da Meia-Noite’, em que atua e dirige

Ator e diretor faz uma incursão na ficção científica (mais ou menos) distópica

Guilherme Sobota, O Estado de S.Paulo

14 de dezembro de 2020 | 05h00

Depois de uma série de filmes nitidamente políticos – Caçadores de Obras-Primas (2014), Tudo pelo Poder (2011) –, George Clooney dirigiu um roteiro dos irmãos Coen em Suburbicon: Bem-vindos ao Paraíso (2017), centrado num subúrbio americano. Agora, o ator e diretor faz uma incursão na ficção científica (mais ou menos) distópica com O Céu da Meia-Noite, sua nova produção que já está em cinemas selecionados (em São Paulo, no Kinoplex e no Espaço Itaú de Cinema) e chega à Netflix no dia 23 de dezembro.

No filme, situado em 2049, ele também interpreta o Dr. Augustine Lofthouse, um cientista que, mais jovem, havia descoberto a possibilidade de os seres humanos sobreviverem em uma lua de Saturno. No início do filme, em meio a uma evacuação da Terra coberta de gelo após o que é chamado de “O Evento”, ele decide ficar em sua base no Ártico, tentando estabelecer contato com uma nave que está retornando ao planeta após anos de uma missão no espaço – sem comunicações, os tripulantes não têm como saber o que houve na Terra.

Na nave, Sully (Felicity Jones), Tom Adewole (David Oyelowo) e os outros tripulantes lidam de maneiras diferentes com o iminente retorno à “casa”, como se dá (quase) sempre em filmes no espaço. O fato de Felicity Jones ter engravidado na vida real logo antes das filmagens (concluídas antes da pandemia chegar à Europa, onde a produção teve lugar) acrescentou esse elemento à sua personagem, que espera dar à luz no seu planeta natal. Mitch (Kyle Chandler, o eterno “coach” Taylor de Friday Night Lights), por sua vez, sofre de saudades da esposa e dos filhos. Maya (Tiffany Boone) e Sanchez (uma atuação especial do mexicano Démian Bichir, de Os Oito Odiados) criam um laço quase familiar que também vai sofrer rupturas ao longo do filme.

“O roteiro chegou até mim”, explica Clooney ao Estadão sobre a origem do filme – quem assina o texto é Mark L. Smith, roteirista de O Regresso (2016), baseado no livro Good Morning, Midnight, de Lily Brooks-Dalton. “Muitos filmes não têm bons roteiros, então, em primeiro lugar, é ótimo ter um bom roteiro. Eu gosto da mensagem, gosto da ideia sobre a qual estou falando: se nós não olharmos para a ciência e conversarmos sobre as divisões causadas pelo ódio entre nós, se nós não levarmos essas coisas em conta, esse filme não será mais uma ficção científica.”

Embora o filme a princípio não esclareça o que foi “o evento” que causou a destruição, os sinais são claros de que se trata de uma catástrofe climática. Em uma outra entrevista em novembro, à revista americana GQ, Clooney chegou a citar nominalmente o presidente Jair Bolsonaro como motivo de apreensão. Agora, questionado se tem preocupações específicas com o Brasil, ele deu uma risadinha de George Clooney e falou: “Eu me preocupo com vários países, claro”.

No filme, o Dr. Lofthouse – aparentemente acometido por uma doença grave, já que precisa de transfusões de sangue regulares – permanece sozinho em sua base no Ártico, mas, logo no início, ele encontra uma garotinha, cuja origem é misteriosa. Ela não diz uma palavra, mas a atuação da atriz mirim irlandesa Caoilinn Springall é bastante precisa. Clooney já trabalhou com crianças no set antes, mas conta que dessa vez foi diferente. “Ela nunca havia atuado antes, mas deixou todo mundo para trás. Todas as nossas cenas fizemos em basicamente um take. David, Demian e os outros atores brincavam que ela estava fazendo todo mundo passar vergonha.” Ele conta que, na fase de orçar o filme, a equipe previu alguns dias a mais por conta da logística de trabalhar com uma criança, que não foram necessários.

O Céu da Meia-Noite foi filmado em duas partes, uma na Inglaterra, ainda em 2019, e outra na Islândia, no início de 2020: antes, portanto, dos países ocidentais entrarem em isolamento social. Para o ator e diretor, ficou claro ao longo dos últimos meses que o filme é também sobre a inabilidade de as pessoas se comunicarem. “Nossa inabilidade de ficar em casa, estar próximo das pessoas que amamos”, comenta. “Conforme fazíamos a pós-produção, constantemente retiramos diálogos para colocar apenas trilha sonora, para buscar a meditação, um silêncio, sobre essa nossa falta de habilidade para comunicar.” A trilha sonora é assinada pelo vencedor do Oscar Alexandre Desplat, de A Forma da Água (2017) e O Grande Hotel Budapeste (2014).

Também por isso, o próprio diretor não considera O Céu da Meia-Noite um filme particularmente político. “Eu o considero uma fábula, que inevitavelmente é politizada. Nós costumávamos não politizar as mudanças climáticas. Nixon, que certamente não era progressista, George H. W. Bush, Reagan... Eles nunca politizaram isso, mas o fato é que acabou se tornando uma ferramenta política, acredito que o lobby tomou conta. O filme é sobre o que os homens podem fazer aos outros homens se não forem cuidadosos e diligentes.”

Felicity Jones, também indicada ao Oscar (por A Teoria de Tudo, de 2014), conta que originalmente, o fato de sua personagem estar grávida não estava no roteiro. “Com uma semana de filmagens, a ideia era usar efeitos especiais para esconder, mas entendemos que seria algo que poderia reforçar a história dela”, conta. “Isso teve grandes consequências para o relacionamento dela com o personagem de David também, o que só mostra como George é um grande cineasta, adaptando para a ficção elementos da realidade.”

 

CRÍTICA DE LUIZ CARLOS MERTEN

Um atraente papel para George Clooney

Com estreia na Netflix anunciada para o dia 23, O Céu da Meia-Noite chega antes aos cinemas para se habilitar à temporada de prêmios nos EUA – especialmente ao Oscar. Já ocorreu este ano com Mank, de David Fincher. É o sétimo longa de George Clooney como diretor e ele trabalha com artistas gráficos e técnicos que integraram a vitoriosa equipe de Alfonso Cuarón em Gravidade, de 2014 e estrelada por ele e Sandra Bullock.

É curioso que justamente nesta semana tenha ocorrido uma conferência internacional do clima à qual o Brasil não foi convidado. Uma frase do filme – do personagem de Clooney, Augustine, diz que o homem feriu tanto a Terra que ela se tornou inabitável. Júlio César, por Shakespeare: “O problema não está nas estrelas, caro Brutus, mas nos homens”.

Além de Cuarón, Clooney já incursionou pela ficção científica com Steven Soderbergh, na versão hollywoodiana de Solaris, de Andrei Tarkovski, em 2002. Em O Céu da Meia-Noite, não foi o gênero que o atraiu, mas os personagens. Augustine está vivendo isolado no Ártico. Encontra a menina, Íris. Quem é? A Terra está isolada por uma praga misteriosa. Augustine comunica-se com integrantes de uma estação orbital. Sully, vivida por Felicity Jones, é sua principal interlocutora. Um twist final – olha o spoiler – revela o elo que os une. Dois integrantes do grupo espacial arriscam-se a voltar. Possuem laços familiares na Terra.

Do clássico (hoje contestado) ...E o Vento Levou até chegar a E.T. – O Extraterrestre, a volta ao lar é um tema dominante no cinema norte-americano. Clooney insiste nele nesse momento de crise – do clima, da pandemia. Não se pode esquecer que ele finalizou O Céu da Meia-Noite em pleno isolamento. O filme baseia-se no livro de Lily Brooks-Dalton. Seus temas são o arrependimento e a redenção. Talvez certas soluções dramáticas – o elo final – pareçam surpreendentes, mas o filme é bonito, bem-feito. Augustine é um dos personagens mais interessantes que Clooney interpretou. Felicity é ótima. E pensar que quase desistiu de participar do filme por engravidar durante a produção.

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