Geoffrey Rush fala sobre 'A Menina que Roubava Livros'

Alheio à temporada de premiações, ele foca sua atenção em filme que estreia dia 31

Fernanda Brambilla - Especial para o Estado - Los Angeles, O Estado de S. Paulo

22 de janeiro de 2014 | 03h00

Geoffrey Rush está alheio ao frenesi da época de premiações do cinema que domina todo início de ano. Um dos poucos a ostentarem o que a indústria do show biz chama de “tríplice coroa” – um Oscar, um Tony, um Emmy (entre outras estatuetas) – o ator australiano de 62 anos desdenha o máximo reconhecimento da Academia. E não é por ter sido deixado de fora da lista de indicados deste ano.

 

 

Rush não se importa. “Nunca me preocupei com esse tipo de coisa, nunca quis. Prêmio é efeito colateral, você não conta com isso... ganhar algo nunca é um objetivo, nunca foi e nunca deve ser”, diz, com voz serena.

Na adaptação do best-seller A Menina Que Roubava Livros, do também australiano Markus Zusak, que estreia no Brasil no dia 31, Rush é o alemão Hans, que durante a Segunda Guerra cria e protege a filha adotiva Liesel. Completa o elenco principal a atriz Emily Watson, que interpreta Rosa, a ríspida mulher de Hans.

É a partir da garota, interpretada pela novata franco-canadense Sophie Nélisse, que a narrativa se desenrola em um pequeno vilarejo alvo de invasões e bombardeios nazistas. Em meio a grandes queimas de livros ordenadas pelo comando de Hitler, a menina descobre o prazer da leitura com ajuda do pai, que a alfabetiza e ensina que os livros podem transformar a triste realidade em que vivem. Além disso, a família desafia as autoridades ao esconder em seu porão um jovem judeu, que se tornará um grande amigo de Liesel.

A produção carregada de efeitos e drama parece um habitat natural para o ator que é amante da literatura, cria do teatro clássico. O livro, lançado em 2007, esteve durante mais de 12 meses na lista dos mais vendidos do The New York Times. Este ano, no entanto, a Academia americana só se lembrou de nomear John Williams, que assina a primorosa trilha sonora e recebeu a única indicação do filme dirigido por Brian Percival (um dos nomes à frente da série de TV Downton Abbey).

Na vida real, os olhos de Geoffrey Rush brilham quando fala de livros. “A literatura mudou minha vida”, afirma ele, tão reticente com a modernidade dos aparelhos portáteis. “Eu me considero um selvagem da tecnologia. Atualmente, tento viver com dois iPhones e me sinto como um perigoso traficante: eu checo meu e-mail neste, mas posso falar neste outro aqui”, brinca. “Jamais poderia ler um livro em uma tela. Não, de jeito nenhum.”

Perguntar a Rush sobre os trend topics do Twitter, então, é perda de tempo. Pragmático, o ator nem sequer dirige – prefere o trem, onde pode ler o jornal com tranquilidade. Redes sociais lhe parecem chateações vazias. “A resposta sempre será não para tudo isso. Tenho orgulho de não estar em nenhuma dessas coisas que, em geral, não passam de banalidades personificadas.”

Premiado com o Oscar de ator por Shine – Brilhante (1996), admirador de Shakespeare, Chekhov, Wilde, Aristófanes e outros autores clássicos, Rush não se impacienta quando é questionado sobre o que lhe falta realizar na longa carreira. “Não tenho uma lista de pendências, prefiro não pensar dessa maneira. Sei que estou envelhecendo e os papéis vão diminuindo, mas eu sou feliz e realizado com meu trabalho. Prefiro acordar cada dia e ver o que acontece, o que chega para mim.”

Depois de um rol de atuações que incluem figuras clássicas como Marquês de Sade (em Os Contos Proibidos do Marquês de Sade), León Trotsky (em Frida), o médico do rei George VI (em O Discurso do Rei, que lhe rendeu a indicação ao Oscar mais recente, como coadjuvante em 2010) e produções históricas como Shakespeare Apaixonado e Elizabeth, vieram os blockbusters Os Piratas do Caribe, e o papel do vilão capitão Barbossa. O quinto da franquia de Jerry Bruckheimer deve estrear em 2016. “Levo o Barbossa muito a sério, só o fato de ser um pirata e ainda estar vivo na sua idade já é um grande feito!”, conta. Se, para a megaprodução, Rush recebeu aulas de esgrima para lutar contra Johnny Depp, para Hans o ator teve aulas de acordeom, instrumento que tem função não tão importante quanto o piano do prodigioso David Helfgott (personagem em Shine – Brilhante), mas poética. Em um dos momentos mais tensos de A Menina Que Roubava Livros, bombas começam a cair sobre o vilarejo de Hans, os vizinhos se abrigam no porão e ele os distrai com sua música – bela metáfora de como a arte ajuda a superar tempos difíceis. “Quando me mostraram o instrumento, soube que aquele seria o pulmão de Hans.”

Quanto a dividir a cena com a jovem Sophie Nélisse, Rush garante ter sido revigorante. Ele lembra ter sido convencido a fazer o filme quando leu o livro e se comoveu com a trágica história, que tem a morte como narradora. “Sabia que personagens inevitavelmente iam morrer, e, mesmo assim, pensava: Por favor, essa garota não pode morrer agora”, enfatiza Rush. “Hans representa algo diferente do que eu vinha fazendo. Não é um excêntrico, um sádico, um louco... É um homem bom, simples, que sucumbe ao terror que vive. Eu me lembrei do meu padrasto, que surgiu em minha vida quando eu tinha a idade de Sophie e foi uma figura essencial”, recorda Rush.

O brilho da produção está na garota, que é quem guia o espectador através da trama. “Vi Sophie interpretar com tanta força e sentimento aos 13 anos que não pude deixar de pensar que nessa idade eu estava na escola, subindo na mesa e brincando de ser um dos Beatles e fazendo uma raquete de tênis de guitarra. Àquela época, jamais imaginei que seria um ator.”

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