"Gente da Sicília": maravilhoso e radical

Quando se fala em cinema e música, a tendência é associar Fellini e Nino Rota, Hitchcock e Bernard Herrmann. São geniais, mas o grande filme sobre música no cinema é A Crônica de Ana Madalena Bach, que Jean-Marie Straub realizou em 1967. O filme nunca foi lançado formalmente no País, mas se tornou conhecido (e apreciado) nos circuitos alternativos. Mais de 30 anos depois, Straub está de volta, em companhia da parceira na arte e na vida, Danile Huillet. Assinam Sicilia!, exibido na Mostra Internacional de Cinema do ano passado e vencedor do prêmio da crítica. Gente da Sicília está sendo lançado pelo selo Filmes da Mostra. É admirável, mas não se pauta pelas fórmulas de Hollywood, nem mesmo do cinema de autor a que o público já está acostumado. É uma experiência maravilhosa e radical.Dura exatos 66 minutos de pura fascinação. Mas o gélido teatro estático de Straub e Danile talvez seja biscoito fino demais. A expectativa é que ache seu público. São Paulo é uma cidade generosa, nesse sentido. Há sempre gente atenta, antenada para ver (e apreciar) o que se faz de mais avançado no cinema de todo o mundo. Straub nasceu na França, participou do novo cinema alemão e hoje vive em Roma com a mulher. Eles se basearam no livro Conversazione in Sicilia, de Elio Vittorini. Não fizeram uma adaptação clássica. Aliás, Straub, em Cannes, no ano passado, onde o filme passou, fora de concurso, disse que hoje em dia ninguém mais faz adaptações fiéis. Hollywood, então, usa o título dos livros que adapta, o plot central e o resto é enxerto dos roteiristas.Straub disse que se baseou em parte do romance que Visconti, citou-o nominalmente, talvez adaptasse por inteiro. Straub e Danile simplificaram o título de Vittorini (o filme chama-se, no original, Sicilia!), mantiveram o plot (o retorno de um italiano que vive no norte à Sicília, onde nasceu, para reencontrar a mãe), mantiveram quatro das conversações do original. Mesmo assim, não foram muito fiéis. Algumas dessas conversas são cheias de lacunas no livro. Straub e Danile tornaram-nas mais compactas e coesas.Não há nenhum resquício de naturalismo em Gente da Sicília. Os atores recitam suas falas numa teatralidade estudada. Já houve críticos que compararam o filme a uma litania. Se é, trata-se de uma litania sublime, perfeita para estimular o distanciamento crítico do espectador. O filme só será usufruído por quem se dispuser a pensar. Straub gosta de emitir opiniões polêmicas. Não está certo se o cinema é uma linguagem e cita Kafka, quando dizia que as metáforas o fariam desistir (na verdade, ele disse "desesperar") de escrever, para insinuar que o cinema, o grande cinema, não pode nem deve ser metafórico. O dele e de Danile Huillet com certeza não é.Raízes - São planos que duram uma eternidade (mais que os do grego Theo Angelopoulos), mas o que os personagens dizem em cena não é nunca irrelevante. Por meio desses diálogos, dessas "conversações", desdramáticos e, ao mesmo tempo, carregados de verdade social e humana, a dupla de diretores vai fundo na dissecação do imaginário siciliano. Há um mistério da Sicília. Já inspirou Visconti (La Terra Trema), Francesco Rosi (O Bandido Giuliano), os irmãos Tavianio (Kaos) e até Francis Ford Coppola, que buscou na ilha as origens da saga do Chefão, escolhendo Palermo para concluí-la. É uma terra de raízes arcaicas e de excluídos. Não por acaso, partiu da Sicília a maioria dos emigrantes que tomou o rumo da América.O filme expõe e discute o imaginário dos sicilianos. Está tudo lá - história, cultura, uma certa moral arcaica, na qual as relações familiares pesam mais do que qualquer outra coisa (e, por isso mesmo, a Máfia tem a estrutura que Coppola, na sua obra-prima, comparou à de uma família). Sereno e lírico, o filme atinge toda a sua força no encontro entre mãe e filho. Desprovido de sentimentalismo, o encontro funda-se principalmente na fala dessa mulher que se confunde com a própria terra e cujo discurso, como culminação da trajetória do filho no tempo e no espaço, é o ponto de encontro do protagonista com suas raízes.Straub sempre foi um inovador de formas. Na maioria de seus filmes, projetados em festivais mas inéditos no mercado brasileiro (o que confirma o empobrecimento cultural desse mercado colonizado), o princípio fundador das narrativas é sempre a descontinuidade. Aqui, há uma espécie de fluidez romanesca que enriquece a concisão dramatúrgica. É um belíssimo filme, não só pela austeridade das imagens (que evocam o rigor de Bresson e Ozu), mas também pela limpidez do olhar lançado sobre uma terra bárbara que parece ancorada no passado, mas, como diria Visconti, ainda treme.

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