Genialidade de Visconti é tema de documentário

Mais do que qualquer outro gênio do cinema mundial, Luchino Visconti deixa os críticos numa posição meio desconfortável. É normalmente considerado, ao lado de Roberto Rosselini e Vittorio de Sica, como um dos fundadores do neo-realismo. Mas o seu amor pelo melodrama, pelas grandes paixões que transbordam de vastos painéis históricos, o transformaram também no mestre do realismo operístico, da ambigüidade moral. Sem citar um único dos 14 longas-metragens de Visconti, só por sua figura controvertida e fascinante, ele próprio daria um grande filme. Deu um belo documentário, o que a série Grandes Nomes exibe às 23 h no GNT, com reprise amanhã, às 18h30.Ao mesmo tempo que era politicamente progressista, flertava com o comunismo e celebrava, em muitos de seus filmes, a vitalidade da classe operária, também fazia a elegia do mundo aristocrático - o seu mundo de origem. Enfim, os desafetos o acusam de "votar à esquerda e viver à direita". Nascido em 1906, Visconti era filho de uma das famílias mais antigas e nobres de Milão. Passou a juventude no meio das letras, das artes e das corridas de cavalos. Seu pai era um playboy culto, que fazia em seu palácio montagens privadas de peças de teatro, das quais a estrela era a sua mãe, também filha de um industrial milionário.Boa escola - O primeiro interesse de Visconti foi pela cenografia, que o levou a Paris, onde se tornou assistente de Jean Renoir em dois filmes de 1936. Sua estréia solo foi em 1942, com Obsessão.No pós-guerra, filmou, em 1947, La Terra Trema, semi-documentário de três horas sobre a miséria dos pescadores na Sicília. Tomou a vertente operística em Sedução da Carne, de 1954, sobre uma aristocrata veneziana que se envolve numa degradante história de amor com um oficial austríaco. O militante está de volta em Rocco e Seus Irmãos, de 60, a história de cinco irmãos que migram do sul para Milão em busca de uma vida melhor. Mas só encontram a tragédia e a destruição familiar. Outra obra-prima de Visconti ambientada na época da unificação italiana é O Leopardo, de 63, com Burt Lancaster como o aristocrata que assiste filosoficamente a transferência do poder da aristocracia para os burgueses oportunistas. Segue-se uma fase mais subjetiva, em que Visconti fala de seus demônios interiores. Vagas Estrelas da Ursa dá início a essa mistura de incesto, homossexualismo e perversão política, que continua em Morte em Veneza, Os Deuses Malditos e Ludwig. Visconti encerrou sua obra com dois belos filmes, embora menores em sua filmografia: Violência e Paixão, em 74, e O Inocente, em 76. Em Violência e Paixão, dirige novamente Burt Lancaster, na figura de um colecionador prisioneiro de um mundo fechado. Uma espécie de Visconti, que assumia: "Sempre me tratam como decadente. Tenho da decadência uma opinião bastante favorável. Estou imbuído de decadência".

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