Generosidade marca "Capitães de Abril"

Parece piada de português, daquelas que se contam para provocar risos. Na verdade, é um dos momentos mais belos do filme de Maria de Medeiros que estréia nesta sexta-feira. Há, em Capitães de Abril, essa cena em que o comboio de tanques avança na noite, rumo a Lisboa. São os jovens oficiais revolucionários que querem acabar com a ditadura. O comboio pára. Alguém corre para saber o que houve. À frente de todos os tanques, um militar diz que parou porque o semáforo ficou vermelho e ele está esperando apenas que surja o verde para avançar.Uma revolução que respeita os sinais de trânsito talvez surja, num primeiro momento, como algo risível. Não é. Os capitães de abril eram idealistas que não se identificavam com nenhum dos dois grandes blocos que dominavam o mundo na época - de um lado, os capitalistas americanos, de outro, os comunistas soviéticos. Eram generosos. É essa generosidade que Maria de Medeiros passa em sua estréia como diretora de longa (fez antes o média A Morte do Príncipe).Maria, você sabe, todo mundo sabe, quem é. A atriz portuguesa mais conhecida em todo o mundo integrou o clã Quentin Tarantino, quando ele parecia iniciar uma verdadeira revolução estética em Hollywood com Tempo de Violência (Pulp Fiction). Hoje é possível que as pessoas se perguntem "Quentin, quem?" Dificilmente terão esquecido os grandes olhos luminosos de Maria, seu sorriso meigo às vezes triste. Uma mulher que não perdeu o jeito de menina, que não perdeu, nesse mundo ilusório do cinema, a sua integridade nem a sua pureza.Há tempos Maria queria fazer a sua interpretação da Revolução dos Cravos. Não foi fácil concretizar o projeto. Um filme com esse tema e dirigido por uma mulher, ainda por cima. Havia preconceito e também desconfiança - pouca gente acreditava que Maria, tão delicada, tivesse a energia necessária para colocar-se à frente de homens, e militares, mesmo que fosse numa reconstituição de eventos tão fortes para o cinema.Esse filme é um ato de amor. Maria conta que ainda era menina quando conheceu o lendário capitão Maia, um dos personagens mais importantes da Revolução dos Cravos, que floresceu em Portugal na madrugada de 25 de abril de 1974. Naquela noite, quando foi ao ar, numa rádio, uma música proibida pela ditadura - Grândola, Vila Morena -, muita gente pensou que era um ato de rebeldia solitária, de algum disc-jóquei que logo seria punido. Na verdade, era o estopim para o movimento que colocou os tanques nas ruas para acabar com décadas de salazarismo. Na época, embora o regime ainda fosse salazarista, Salazar não estava mais no poder; tinha sido substituído por Marcelo Caetano, mas Portugal continuava atrelado ao obscurantismo político e social.Há uma frase que estabelece o conceito que Maria defende em seu filme - "Às vezes, a única solução é desobedecer." É o que fazem os capitães de abril. Maria, que teve acesso aos escritos do Capitão Maia, depois que ele morreu, em 1993, conta que ele e seus companheiros de farda que fizeram a Revolução dos Cravos tinham uma visão talvez ingênua do próprio papel, pois se consideravam heróis. Esses relatos encaravam o movimento como uma aventura, eram muito cinematográficos, o que, somado à generosidade dos personagens, a levou, durante 13 anos, a perseguir o sonho do filme.É uma reconstituição emocionada e emocionante. Talvez o leitor desse texto, por ser jovem, não tenha visto um filme italiano dos anos 60 - Quatro Dias de Rebelião, de Nanni Loy. O título original, I Quatri Giorni di Napoli. Em Nápoles, durante a 2.ª Guerra, houve quatro dias de rebelião popular, quando o povo saiu às ruas para combater, com as armas possíveis, o nazifascismo. Loy, um diretor hoje esquecido, fez um filme arrebatador. Na época, ele falou de sua emoção ao dirigir aquelas cenas, de tal maneira a população de Nápoles, chamada a colaborar, havia entrado no espírito da reconstituição.Com Maria ocorreu a mesma coisa. As cenas que mostram a adesão dos populares ao movimento dos capitães possuem um entusiasmo, uma vitalidade que ultrapassam o quadro da mera reconstituição. Maria projeta-se na menina da história. Vê a revolução pelos olhos dela. Muita coisa no filme é esquemática, mas a emoção é genuína. O olhar da menina é filtrado pelo da mulher que não quer só dar sua versão de um momento importante da história portuguesa neste século. Ela quer fazer a sua interpretação do referido episódio, quer elogiar a desobediência civil como arma do indivíduo, a bondade como uma forma de ser, uma ideologia mesmo. E quer inserir seu feminismo no relato. É um filme a que se pode assistir com gosto.

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