Gênero filme-denúncia domina dia em Veneza

Os vips, presentes, ou ausentes, continuam monopolizando as manchetes em Veneza e infernizando a vida dos organizadores do festival. Hoje, foi a vez de Claudia Schiffer, que escandalizou os italianos com seu pouco-caso. Chegou atrasada a compromissos, esnobou fotógrafos, faltou a uma sessão na qual sua presença era prevista, enfim, deitou e rolou em cima da fama. Toda essa badalação apenas porque protagoniza um curta-metragem, Sound, de Nicolas Roeg, no qual entra muda e sai calada.Muito dependente das divas, o Festival de Veneza ainda balança ao sabor dos humores desta ou daquela estrela. O comportamento desleixado de Schiffer só veio a aumentar a decepção dos organizadores, já frustrados pelas ausências de Jennifer Lopez, Johnny Depp e outros astros top, que prometeram vir e acabaram fazendo forfait.Hoje, nas telas, pintaram dois competidores para se levar a sério: o francês Selon Mathieu, de Xavier Beauvois, e o iraniano O Círculo, de Jafar Panahi. Os dois podem ser classificados, de maneira ampla, no gênero filme-denúncia. O primeiro fala dos efeitos negativos da globalização sobre a classe operária francesa. O segundo comenta a posição mais que subalterna da mulher na sociedade iraniana.Beauvois conta a história de um pai, Francis, e seus dois filhos, Eric e Mathieu, que trabalham na mesma fábrica. Um dia o pai é despedido porque estava fumando durante o serviço, o que fora recentemente proibido. Com 50 e poucos anos, não consegue recolocar-se no mercado de trabalho. Desespera-se e a família entra em crise. Francis acaba morrendo atropelado e não se sabe ao certo se foi acidente ou suicídio. Mathieu percebe que os operários se tornaram peças de reposição para as empresas. Envolve-se com uma burguesa (Nathalie Baye), que funciona como sua consciência crítica.Ela vai explicar-lhe, como se isso fosse necessário, que hoje em dia o desemprego é um fato crônico, que deve ser encarado com naturalidade; que as pessoas estão mesmo sendo substituídas por máquinas e não há nada que se possa fazer a respeito. E que é melhor viver como for possível, sem se preocupar com tudo isso.Em entrevista, Beauvoir disse que havia tido a idéia para o filme ao ler uma notícia no jornal: uma mulher fora demitida de uma fábrica porque estava fumando. "O que me chamou a atenção era que se tratava de uma fábrica de cinzeiros, o que dá idéia da ironia da coisa", comenta.Beauvoir afirma que não tem resposta para as perguntas feitas em seu filme. Não sabe exatamente se estamos assistindo à morte da classe operária, mas está seguro de que os trabalhadores hoje estão mais fracos do que antes em suas reivindicações. Para exprimir seu sentimento, o cineasta diz o seguinte: "Sou otimista quanto ao futuro do pessimismo." A frase é boa, mas não esclarece muito.Interessa é que Beuvoir filma - e bem - sua região favorita, o Havre, na Normandia. Faz a história correr em dois eixos principais - o social e o pessoal. De um lado, a trama fala do enfraquecimento do proletariado como classe; de outro, põe em cena a rivalidade entre dois irmãos de temperamentos diferentes, que reagem de maneira diversa à destruição do pai. Contrastando com a temática cinzenta, o filme se socorre de belas imagens. Todo ele rodado em cinemascope, parece buscar na estética das paisagens alguma idéia do tipo "apesar de tudo, a vida é bela" - que, aliás, é uma frase de Trotski e usada como título e ponto de partida do grande sucesso de Roberto Benigni.Curiosamente, o iraniano O Círculo também foi inspirado em uma notícia de jornal. Jafar Panahi ficou chocado ao ler que uma mãe havia se suicidado depois de matar suas duas filhas pequenas. Como se indicasse, com seu gesto trágico, que não valia a pena ser mulher no Irã. O filme começa com um parto. Tela às escuras, ouvem-se apenas os gemidos da mãe, depois o choro da criança. É uma menina. A mãe da parturiente se preocupa: "Acho que o marido vai ser obrigado a pedir o divórcio porque a família toda esperava um garoto." Sem comentários.A esse prólogo, segue-se a história propriamente dita: três prisioneiras obtêm permissão para sair provisoriamente da cadeia. Seguindo o seu percurso pela cidade, onde interagem com outras mulheres e homens, Panahir traça um retrato duro da discriminação. Uma delas não pode fumar em público, outra encontra uma mãe que procura abandonar a filha pequena sem conseguir. Uma terceira comenta: "É melhor você se casar, porque aqui, sem um homem, você não consegue sair do lugar." Outra é obrigada a aceitar o fato de que o marido arrumou uma segunda mulher.E vai por aí. Um inferno sexista, descrito com rigor e poder de síntese. Enfim, um filme iraniano sem crianças, balõezinhos ou metalinguagem. Tema adulto, árido, e, dadas as circunstâncias, corajoso.

Agencia Estado,

07 de setembro de 2000 | 19h48

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