Jessica Hill|AP
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Gene Wilder era um ator talentoso e abençoado

Assim o diretor Mel Brooks se despediu do parceiro de clássicos da comédia

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

29 de agosto de 2016 | 23h00

Gene Wilder morreu no domingo (28) à noite na cidade de Stanford, em Connecticut, informou um sobrinho do ator à agência AP nesta segunda, 29. Gene Wilder! Imediatamente, o grande Mel Brooks repercutiu no Twitter: “foi um dos verdadeiros grandes talentos do nosso tempo. Abençoo cada filme que fizemos juntos com sua mágica e me abençoou com sua amizade”. Gene Wilder sofria de Alzheimer. Tinha 83 anos. Sua parceria com Mel Brooks produziu clássicos da comédia – Primavera para Hitler, Banzé no Oeste, O Jovem Frankenstein.

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Primavera é de 1968 e ganhou o Oscar de roteiro, mas foi considerado ‘ultrajante’. Onde se viu, uma comédia sobre Adolf Hitler? Com o tempo, virou cult e até originou um musical da Broadway, vertido para o cinema, mas na época meio que emperrou a carreira de Mel Brooks como ator, diretor e roteirista. Só em 1974, com suas paródias de western e filme de terror, ele estourou nas bilheteria. Com ele estourou Gene Wilder, pseudônimo de Jerome Silberman, que nasceu numa família judaica de Milwaukee, em 1933.

O jovem Gene – nem tão jovem assim, aos 34 anos – teve seu primeiro grande papel no cinema num clássico de Arthur Penn, Bonnie em Clyde – Uma Rajada de Balas. O que fazia um comediante naquela tragédia americana? Gene fazia o carona no carro dos fugitivos Bonnie Parker e Clyde Barrow. Ao descobrir quem era a dupla, ele engasgava e Penn introduzia uma pausa cômica na violência (dramática e crescente) do filme. Entre Bonnie & Clyde e o estouro de Mel Brooks, Gene foi Willy Wonka na primeira (e cultuada) versão de A Fantástica Fábrica de Chocolate, que Mel Stuart adaptou de Roald Dahl (e Tim Burton refilmou com Johnny Depp), e protagonizou um dos episódios mais – qual seria o adjetivo? Devastadores? – de Tudo o Que Você Sempre Quis Saber sobre Sexo, de Woody Allen. Era o homem que destruía sua vida ao se apaixonar pela ovelha.

Gene Wilder, seguindo a vertente de seu mestre Brooks, tornou-se diretor em 1979 com uma paródia de gênero – O Irmão Mais Esperto de Sherlock Holmes. No mesmo ano fez, como ator, com Harrison Ford, um ótimo western cômico de Robert Aldrich, O Rabino e o Pistoleiro. Em 1984, e baseado na comédia francesa Un Elephant Ça Trompe Enormément, dirigiu e interpretou A Dama de Vermelho, que fez grande sucesso (e ganhou o Oscar de canção para I Just Called To Say I Love You, na voz de Steve Wonder). Por falar no prêmio da Academia, foi duas vezes indicado para o Oscar – melhor coadjuvante, por Primavera para Hitler; melhor roteiro (com Mel Brooks) por O Jovem Frankenstein. Em 1988, ganhou o Globo de Ouro de coadjuvante em melhor série de comédia ou musical, Will & Grace.

A Dama de Vermelho é sobre um marido que pira ao ver na rua o vento levantar a saia de uma mulher, deixando à mostra sua calcinha. A cena com Elizabeth Norment reproduz a imagem emblemática de Marilyn Monroe em O Pecado Mora ao Lado, de outro Wilder, o Billy. Gene fazia o marido. Na ficção e na realidade, era casado com Gilda Radner. Ela teve câncer de ovário. Morreu revoltada, odiando o marido e o mundo, em 1989. Gene Wilder escreveu sua autobiografia – Never Kiss a Stranger, Nunca Beije Um Estranho, que é como Gilda o fazia se sentir, em seu leito de morte. Foi um trauma para ele. Anos mais tarde, escreveu outro livro, muito elogiado – The Woman Who Couldn’t. Impossível dar conta de Gene Wilder sem falar de outra parceria – com o ator Richard Pryor. Fizeram O Expresso de Chicago, Loucos de Dar Nó e Cegos, Surdos e Loucos. O primeiro e o terceiro, coincidentemente, dirigidos por Arthur Hiller, que morreu no dia 17 de agosto.

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