LOIC VENANCE/AFP PHOTO
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Gaspar Noé apresenta novo escândalo

Coproduzido pelo brasileiro rodrigo Teixeira, 'Love' usa sexo explícito em 3D para falar de dor e sofrimento

Luiz Carlos Merten/CANNES, O Estado de S. Paulo

22 de maio de 2015 | 06h00

É impressionante, mas passam-se os anos e nada segue provocando mais escândalo no maior festival de cinema do mundo que o sexo. O franco-argentino Gaspar Noé é especialista na arte de agitar a Croisette desde que Monica Bellucci foi violentada naquela passagem subterrânea em Irreversível. Noé preparou agora outro escândalo. Baseado numa experiência pessoal de ruptura – um homem dividido entre duas mulheres e amando desesperadamente aquela que o largou porque ele pisou na bola com outra –, o diretor e roteirista exibiu, à meia-noite de quarta-feira, seu novo longa, Love/Amor.

Sexo explícito, e em 3-D. Há 40 anos, aqui mesmo em Cannes, Nagisa Oshima fez sensação com as cenas explícitas de O Império dos Sentidos. Passado esse tempo, e com o sexo liberado na internet, em salas pornográficas, o que ainda faltava mostrar? Em salas especiais, talvez já se tenha visto tudo, mas, na tela gigantesca de Cannes, direcionar a câmera para um membro ereto e registrar, com lentidão, a explosão de umas ejaculação... Gaspar Noé fez histórias no festival. Pode ser que o filme não seja realmente bom, mas é bom ver Love, e não pela safadeza. O filme é coproduzido pelo brasileiro Rodrigo Teixeira, que, meses atrás, chegou a brincar com o repórter. Ele nem chegou a fazer uma set visit porque Noé não queria os produtores no local de filmagem. Rodrigo achou o filme visceral. Comparou Noé a uma força “animal”.

O repórter também se impressionou com a entrega – absoluta – do elenco. Representar em ereção permanente, ejacular duas ou três vezes em cena aberta, fazer todo tipo de sexo... O assunto continua tabu, mesmo que, na realidade, Noé esteja querendo falar do oposto do prazer – de dor, sofrimento, frustração. O sexo está ali para mostrar quanto sua ausência pode doer. O próprio Thierry Fremaux brincou na apresentação: “Vocês (o público) conhecem bem o diretor, mas não os seus atores. Asseguro que daqui a duas horas saberão tudo sobre a intimidade deles.” Haja coragem, e disposição.

Se a sessão de Noé terminou no meio da madrugada, às 3 da manhã, às 8h30 o público já estava de volta para ver outro francês, agora na competição (Love passa fora de concurso). Jacques Audiard faz filmes que não guardam muita semelhança entre si, mas há algo de Um Herói Muito Discreto e O Profeta em Dheepan, O Homem Que não Amava a Guerra. O filme conta a história de um homem do Sri Lanka que cria umas falsa família para fugir à situação em seu país e reconstruir a vida na França, A questão da identidade é sempre forte em Audiard e aqui, lá pelas tantas, o personagem começa a maquinar e a manipular para se afirmar no subúrbio, num meio dominado por criminosos. Você pensa: Audiard vai se repetir. O Profeta 2. Mas não. O filme é ótimo, muito bem dirigido e interpretado (por um elenco originário de Sri Lanka).

Filho de Michel Audiard, roteirista que François Truffaut amava odiar, considerando-o peça chave do cinema de qualidade que desprezava, Jacques segue um caminho solitário no cinema francês. O público o prestigia, revistas como Cahiers du Cinéma e Positif o ignoram (ou fingem). Pior para elas (as revistas). Dheepan só não será premiado por incompetência do júri. 

Filme coproduzido pelo País é premiado

O filme Paulina, de Santiago Mitre, ganhou ontem o prêmio da Semana da Crítica. O longa é uma coprodução entre Argentina e Brasil, representado pela Videofilmes. “A notícia é uma grande alegria para o cinema latino-americano”, comentou Walter Salles, coprodutor. “É um tributo ao talento singular de Santiago e à atuação impressionante de sua atriz principal, Dolores Fonzi.” A atriz vive uma advogada que decide largar a profissão e ensinar meninos pobres em Misiones, na Tríplice Fronteira. Lá, ela é estuprada por alguns alunos, mas decide não prestar queixa.

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