Garota converte-se ao islamismo para entender a própria identidade em 'Habi, A Estrangeira'

Diretora do filme fala sobre a obra, o islamismo na América do Sul e a reação dos jovens ao longa

Flavia Guerra, O Estado de S. Paulo

26 de novembro de 2013 | 19h19

Analía (Martina Juncadella) é uma garota que, aos 20 anos, decide fazer a tal viagem em busca de si mesma. Em uma fase da vida em que as amarras da adolescência têm de dar lugar a um universo de descobertas, muito mais vasto que a pequena cidade em que cresceu, a jovem Analía decide passar por uma mudança radical e mergulhar no universo islâmico. Muda de nome, de religião e de costumes. Passa a se chamar Habiba, a frequentar uma mesquita e a usar o hijab.

Habi, a Estrangeira, em cartaz, seria mais um road movie de rito de passagem, em que o protagonista embarca em uma viagem a uma terra estranha. Mas Analía/Habi faz sua jornada por um novo mundo sem nunca sair de seu país. Mais, não sai nem mesmo da capital Buenos Aires. Na verdade, Analía um dia tem de ir à capital e acaba entrando por acaso em um velório muçulmano. É tão bem recebida, fica tão maravilhada com uma cultura completamente diferente da sua, que decide fazer parte dela.

Como Habi, ela pode ver o mundo, e ser vista, de uma nova perspectiva, que vai muito além dos belos hijabs que usa. Mas como deixar para trás sua história e, ao mesmo tempo, construir uma nova? É este o fio condutor deste longa forte e, ao mesmo tempo, delicado.

“É um filme sobre uma garota em busca de sua identidade, que precisa se reinventar para seguir sua vida”, conta a diretora, María Florencia Álvarez, que esteve em São Paulo, quando o filme foi exibido na Mostra de Cinema de São Paulo e falou ao Estado.

Como nasceu a ideia do filme?

Comecei a escrever este projeto quanto tinha mais ou menos a idade da personagem, 22 anos, em 1999. E surgiu das próprias perguntas que eu fazia a mim mesma sobre a construção da minha identidade. De que modo minha identidade estava definida e como essa bagagem me colocava em um lugar para observar as coisas e entendê-las. Perguntava-me se podia me encontrar com algo despojada de tudo isso. Perguntava-me quem era eu intimamente. E aí fiz este filme sobre um personagem que faz uma viagem e se desprende de seu contexto social e de sua família para ter uma nova experiência. Neste caso, é por meio do Islã e da vestimenta islâmica, que é um modo de poder se refugiar do olhar do outro para poder encontrar um olhar mais simples.

Ela faz toda esta viagem sem sair de Buenos Aires. Entra em outra cultura, em outro mundo. É uma grande viagem interior, não?

Sim. Porque em Buenos Aires, e em toda a América do Sul, não se tem contato cotidiano com o Islã. O que sabemos em geral é porque alguém investigou ou pelos meios de comunicação, pelas notícias. A ideia era poder fazer esta aproximação no filme, que a gente pudesse entrar na intimidade de pessoas islâmicas sem precisar explicar o que é o Islã. Esta personagem entre em contato com algo completamente desconhecido em termos de idioma, costumes, que permite que ela encontre a si mesma.

E como a ideia do Islã nasceu?

Não tenho origem muçulmana nem árabe. Mas esta foi a primeira imagem que me veio à mente. De alguém se cobrindo para poder se encontrar. Poderia parecer que a escolha do Islã foi algo formal, para encontrar o tipo de roupa que eu precisava. Mas eu também fui a uma escola que ficava em frente a uma mesquita. E esta memória me marcou. Há também a ideia de que, em termos sociais e político, seria bom mostrar este lado do islamismo e revelar como estas pessoas creem e vivenciam sua religião, para gerar tolerância para quem não é muçulmano e identificação para quem é.

E como foi trabalhar com os muçulmanos de Buenos Aires?

Eles são em sua maioria sírio-libaneses. Frequentei a mesquita por seis anos. Para que pudesse conhecê-los e para escrever o roteiro. Minha ideia sempre foi a de que eles pudessem atuar no filme e poder filmar nesta mesquita, porque era como uma casa. Por um lado, foi fácil, porque finalmente conseguimos convencê-los a participar do filme. Eles ficaram felizes. E eu também. Mas isso levou anos. Não me diziam sim, mas também não diziam não.

Conquistar a confiança deles foi difícil?

De certa forma, sim. Porque no começo eles sentiam muita desconfiança por eu não ser islâmica e sentiam-se muito maltratados quando se falava deles. Entendi completamente. Eu explicava o que queria fazer, mas o respeito e a confiança foram construídos ao longo dos anos.

Como os jovens estão recebendo o filme?

Recebem bem. Mas o que me chama a atenção é que os mais jovens se relacionam de forma muito mais direta com o desejo do que os mais velhos. Não precisam de muita explicação ou racionalização. Neste sentido, os jovens se identificam muito com o filme.

Este é um filme mais feminino ou para os garotos também é interessante?

Este é um filme muito sutil e sensível, mas isso não deveria ser algo que tem a ver com ser mulher ou ser homem. E sim um filme para quem gosta de histórias com tons mais sutis de narração.

Seu filme tem Walter Salles como coprodutor. Como vê esta proximidade entre os dois países, tão vizinhos e, ao mesmo tempo, distantes culturalmente?

É bom para todos que estejamos mais próximos e que cada vez mais os órgãos de cinema de cada país apoiem e facilitem as coproduções. Temos muito em comum e muitas diferenças. Mas vale a pena fazer coproduções. Temos muito o que compartilhar e que aprender. Neste filme, também trabalhei com Maria Luiza Mendonça e foi uma experiência incrível. Sua dedicação e seu trabalho podem ser vistos no filme. Foi muito bom.

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