Gângsteres inspiram "Caminho sem Volta"

Waltinho Salles amou. Não é a menor das credenciais de Caminho sem Volta, que estréia amanhã. Desde que foi exibido no Festival de Cannes do ano passado, o filme de gângsteres de James Gray provocou uma polêmica que repercutiu, nos meses seguintes, na França. Positif, a revista rival de Cahiers du Cinéma, escreveu que Gray renovou espetacularmente a tradição do filme de gênero e só um júri covarde como o presidido por Luc Besson poderia preferir a releitura do melodrama feita por Lars Von Trier em Dançando no Escuro, que ganhou a Palma de Ouro (e está saindo em vídeo, no País, pelo selo Europa). Cahiers foi radicalmente contra, não na defesa de Von Trier, mas achando que o filme noir revisto por Gray não é tão atraente assim.Gray tinha apenas 24 anos quando estreou na direção com Fuga para Odessa, em 1994. Está agora com 31, portanto. O primeiro filme tratava do impacto do retorno de um assassino profissional ao seu núcleo familiar, no bairro nova-iorquino de Little Odessa. Caminho sem Volta trata agora de outro grupo familiar, em outro bairro de Nova York, o Bronx. Começa quando Leo Handler, o personagem interpretado por Mark Wahlberg, está saindo da cadeia. Parêntese - Wahlberg é excepcional, mas não chega a ser exceção num elenco que traz Joaquin Phoenix, James Caan, Faye Dunaway e a bela Charlize Theron, todos ótimos. Leo foi preso para proteger amigos. Busca a segurança da família. Logo está envolvido de novo nas atividades criminosas de mafiosos. O tio, um amigo de colégio, a namorada deste último. Enredado pela família até o pescoço, a Leo restará somente um gesto radical.Numa entrevista por telefone de sua casa, em Nova York, Gray explica que Caminho sem Volta é baseado numa realidade que ele conhece, sem ser autobiográfico. "Embora pertença ao que se pode chamar de uma típica família wasp - branco, anglo-saxão e protestante -, estudei em colégios públicos de bairros populares de Nova York; conheci muita gente como Leo, tive amigos que tiveram o mesmo destino trágico que ele." A disposição declarada do diretor em fazer a ponte entre crime e vida familiar levou muitos críticos a aproximar Caminho sem Volta de O Poderoso Chefão, de Francis Ford Coppola, até por causa da presença de James Caan, como gângster, no elenco dos dois filmes. Gray ama o filme de Coppola, mas sua referência foi outra.Em Cannes, no ano passado, a deusa Charlize Theron já havia dito ao Estado que Gray é louco por Rocco e Seus Irmãos, tendo mostrado aos atores, diversas vezes, o clássico de Luchino Visconti sobre a desintegração de uma família na cidade grande. Gray assume, pelo telefone, que Rocco é seu filme preferido, o que pode até parecer estranho, pois o núcleo familiar que Visconti investiga é muito italiano. "A idéia de Visconti sobre família e culpa, família e violência, família e corrupção, tudo isso me atrai muito; para mim, Rocco é a mais perfeita das tragédias cinematográficas." Leo, o trágico herói de Caminho sem Volta, descobre que sabotagem, traição, negócios arriscados e até assassinato o colocaram na mira de uma família muito implacável - a dele. O filme termina com o que parece ser o elogio da delação, como o que Elia Kazan teria feito em Sindicato de Ladrões, nos anos 50. Gray acha que não. "Seria o elogio se fosse um final positivo, para cima; acho o final do meu filme muito triste, muito doloroso para Leo, mas não vejo outra solução para essa tragédia familiar."Caminho sem Volta ("The Yards"). Suspense. Direção de James Gray. EUA/2000. Dur. 125 minutos. 14 anos.

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