Galã com tempero mexicano

As semanas de trabalho em montanhas inóspitas, as incontáveis horas sobre o assento de uma moto Norton e a exposição às baixíssimas temperaturas do sul do continente ele enfrentou com heroísmo. Foi só ao chegar a Buenos Aires, após o término de uma etapa das filmagens de ´Diários da Motocicleta´, em que vive um jovem Che Guevara dirigido por Walter Salles, que o ator Gael Garcia Bernal perdeu um pouco da fleuma - e por um motivo risível. "As garotas portenhas me olhavam e perguntavam: como é que você pode ser tão bonito sendo mexicano", contou o ator ao jornal argentino ´Clarin´. "Isso é pergunta que se faça? Queria que todas elas pudessem ir ao México para ver o que é bom". Como nem todos podem ir ao México, Gael, aos 24 anos, tem levado um pedaço do México ao mundo. Ele é o protagonista do polêmico ´O Crime do Padre Amaro´, que estreou ontem no Brasil. O filme, o maior sucesso de bilheteria da história do cinema mexicano, é baseado no romance do português Eça de Queiroz, de 1875, mas acrescido de algumas incômodas - e muito mais contemporâneas - tentações. Na versão cinematográfica, dirigida por Carlos Carrera, há um padre católico que deita-se com a dona de um bordel e aceita dinheiro do narcotráfico para a construção de um hospital, um outro religioso é acusado de colaborar com a guerrilha, enquanto que alguns garotos lambuzam a hóstia com doce de leite. Há ainda uma auxiliar da paróquia que dá de comungar a um gato. "Não tive tantos conflitos espirituais para fazer o filme", disse o ator ao diário argentino. "Se eu fosse tão católico como o padre Amaro seria bem mais difícil. Sou apenas culturalmente católico, mas espiritualmente agnóstico". O filme já ganhou o prêmio de melhor roteiro do Festival de Cinema de Havana e representa o México no Globo de Ouro, na categoria de melhor filme de língua estrangeira, ao lado de ´Cidade de Deus´. Apesar de tantas credenciais, ´O Crime do Padre Amaro´ não é o cartão de visitas do ator Gael Garcia Bernal para o público brasileiro. Ele já foi visto, em 2001, no excelente ´Amores Brutos´, como um rapaz pouco ajustado que mantinha um caso amoroso com a cunhada e sobrevivia às custas do dinheiro ganho em lutas de cães. No ano passado, voltou a surpreender como um adolescente que se aventura por uma viagem iniciática ao lado da espanhola Maribel Verdú, em ´E Sua Mãe Também´. Neste filme, tinha como parceiro o ator Diego Luna, seu melhor amigo na vida real desde que atuaram juntos na telenovela mexicana ´O Avô e Eu´, quando Bernal tinha apenas 12 anos. Gael poderia tranqüilamente suceder Antonio Banderas no posto do grande galã latino do cinema americano. É jovem, bonito, versátil e fala inglês fluentemente. Aprendeu o idioma em um colégio britânico de Guadalajara, onde nasceu em 30 de outubro de 1978. Graduou-se em teatro em Londres, na Central School of Speech and Drama, como um dos 30 alunos selecionados entre milhares de candidatos. Mas cruzar a fronteira para trabalhar no vizinho rico do lado de cima não parece ser seu principal objetivo. "Cinema, para mim, serve para viajar e fazer amigos. Às vezes, penso em parar um pouco com os filmes para estudar. Gostaria de fazer mestrado em filosofia ou letras, e ainda estudar antropologia. Eu quero muito continuar estudando. Escolhi ser ator para ser feliz também." Se a proposta era viajar, Gael não pode reclamar do roteiro nômade de ´Diários da Motocicleta´, que inclui locações no Chile, Peru e Venezuela, pelo menos. "Gael é um ator extremamente talentoso", disse sobre ele o diretor Walter Salles à revista ´Época´. "Ele trabalha duro e tem uma inteligência e uma sensibilidade fora do comum". Após o término de uma das etapas das filmagens de ´Diários da Motocicleta´, Gael viajou de férias para Los Angeles, mas o descanso durou pouco. Os produtores o convenceram a trabalhar na divulgação de ´O Crime do Padre Amaro´ com vistas ao Globo de Ouro, e também na campanha pela indicação de ´E Sua Mãe Também´ ao Oscar de melhor filme estrangeiro. "Vim para passear e agora estou aqui, dando entrevistas por telefone, falando com jornalistas da imprensa estrangeira, dizendo sempre as mesmas coisas", revelou o ator. "É o que chamam de fazer lobby, não é? Mas eu gosto de falar dos filmes, tentar entender o que as pessoas acharam, se gostaram do meu trabalho. Isso faz parte da ilusão do ator, sem ilusão eu começo a me aborrecer e mando tudo às favas". Para as argentinas, que não entendem como um mexicano pode ser tão bonito, e para as demais chicas do mundo, seduzidas pelos dotes artísticos e os de outra natureza do ator, aqui vai um alento. "Eu estou felizmente solteiro", declarou há alguns dias.

Agencia Estado,

18 de janeiro de 2003 | 10h09

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