Gael García Bernal assume a bandeira do Che

Houve momentos em que Gael García Bernal duvidou de sua capacidade para interpretar o jovem Ernesto Guevara de Diários de Motocicleta. Embora o filme de Walter Salles seja sobre o jovem Che, antes de se tornar o revolucionário que virou um dos maiores ícones do século 20, a carga sobre Gael era imensa. O filme era sobre Ernesto, mas o espectador sabe que ele é o Che. Como passar isso? "Tive momentos de pânico, mas aí Rodrigo (De La Serna, que faz Alberto Granado, companheiro de Ernesto) e Walter (Salles, o diretor) me tranqüilizavam e, mais do que isso, com a confiança deles devolviam a minha confiança. Não poderia estragar um filme feito com tanta ternura." O filme estréia no dia 7 nos cinemas brasileiros e logo em seguida vai a Cannes, integrando a mostra competitiva do mais importante festival de cinema do mundo. Aos 25 anos, o ator mexicano já participou de filmes importantes, como Amores Brutos, de Alejandro González Iñárritu, E Sua Mãe Também, de Alfonso Cuarón, e O Crime do Padre Amaro, de Carlos Carrera. Este será um ano especial de sua carreira porque ele estará duplamente em Cannes - no filme de Pedro Almodóvar La Mala Educación, que vai abrir o festival, no dia 12, e em Diários de Motocicleta, que terá sua sessão de gala no dia 19. Gael García Bernal esteve na segunda-feira em São Paulo para a pré-estréia brasileira do filme de Walter Salles e recebeu o Estado para uma entrevista individual, no L´Hotel. Estado - Como recebeu o convite de Walter Salles para interpretar o jovem Ernesto Guevara de Diários de Motocicleta?Gael García Bernal - Fiquei contente, mas também um pouco assustado. O filme não é sobre o Che, mas todo mundo sabe que o jovem Ernesto vai virar o Che. Como negar a influência dele sobre nossas vidas? Che foi um argentino que lutou em um país que não era o dele e virou um cidadão da América Latina e do mundo. Nas várias fases de sua vida, foi sempre um modelo de integridade e coerência. Qual foi sua maior dificuldade ao interpretar o jovem Ernesto?Tínhamos feito uma pesquisa muito grande, eu ouvira centenas de vezes os discursos do Che e queria recriar a voz dele. Rodrigo (De La Serna), com muita simplicidade, sugeriu que eu usasse a minha voz. Disse que o Che gostaria que eu fizesse isso. Foi o que fiz e, a partir daí, encontrei em mim o jovem Ernesto. Você passa essa emoção. Há cenas lindas, como aquela em que você tenta romper o bloqueio da garota no leprosário. A doença a está consumindo, ela se recusa a fazer uma operação. E Ernesto, com grande delicadeza, faz a ponte que traz a garota para o mundo.Que lindo ouvir isso. O filme foi feito com muito amor. É um filme de estrada, como E Sua Mãe Também, mas distinto daquele. Lá, os personagens viajam numa bolha, não são afetados pela paisagem. Aqui, interagem com o mundo e o importante é o efeito do que ocorre na estrada e à margem dela sobre Ernesto e Alberto. É um filme sobre travessias, não apenas dos personagens. Nós, que fizemos o filme, também. Ninguém foi o mesmo depois de Diários de Motocicleta. O que mudou em você?A maior lição que tive com Ernesto foi a de que é preciso viver com integridade e coerência. E que, apesar das diferenças, nós, latino-americanos, temos uma identidade muito forte, que só precisamos assumir e fortalecer. Que tal a sensação de voltar a Cannes? É um pouco como ir pela primeira vez. Fui há quatro anos com Amores Brutos porque queria, já que não era convidado. E agora volto com dois filmes dos quais me orgulho muito. Mas, sinceramente, estou gostando muito que o filme de Pedro Almodóvar passe fora de concurso. Para mim, seria doloroso ter dois filmes em competição. É verdade que você interpreta um travesti no filme de Almodóvar?Sim, mas não quero falar muito para não estragar a surpresa. Só posso dizer que Pedro é muito diferente de Walter. Estou indo além das diferenças óbvias. Ambos, no fundo, são apaixonados pelo que fazem e eu tive outra experiência muito intensa no La Mala Educación.

Agencia Estado,

28 de abril de 2004 | 17h53

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