Silvana Garzaro|Estadão
Silvana Garzaro|Estadão

Gabriela Duarte estrela filme adaptado da obra de Nelson Rodrigues

Longa de Clóvis Mello estreia nos cinemas nesta quinta-feira

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

15 de novembro de 2015 | 05h00

Aos 41 anos, Gabriela Duarte mantém o corpo juvenil e o sorriso meigo que fazem dela, aos olhos do público, a perfeita filha de sua mãe, Regina Duarte, atriz que ganhou o título de ‘namoradinha do Brasil’. Mas ninguém se iluda - Gabriela é danadinha. Ousa como a Elvira de Ninguém Ama Ninguém... Por Mais de Dois Anos. O longa de Clóvis Mello adaptado de Nelson Rodrigues estreia quinta-feira, 19, nos cinemas brasileiros. Elvira é mãe e esposa dedicada. Cuida do marido e da filha, mas cuida de si. Sabe dos seus desejos e necessidades. “O que mais gosto nela é que reconhece suas exigências de fêmea.” Elvira aparece nua. Foi difícil para Gabriela fazer a cena? “Não tive problema. E a cena tem contexto, é de banho.”

A mãe viu, e gostou. “A produção foi muito simpática e carinhosa. Fizeram uma sessão para ela.” Mal terminou e Regina já estava mandando mensagem para a filha. “Acabo de ver o Ninguém Ama Ninguém. É uma comédia deliciosa.” A própria publicidade do filme assimila esse caráter cômico. O filme, afinal, é sobre a vida como ela é - tema rodriguiano por excelência e, dentro dela, sobre adultério. Existem duas frases nos cartazes. “Para quem nunca foi traído, é uma comédia. Para quem já foi, é uma tragédia.” O próprio título comporta uma daquelas ironias típicas de Nelson Rodrigues. Atribui uma data de validade ao amor. É mais ou menos como o ‘perdoa-me por me traíres’, imortalizado por Nelson.

Gabriela veio de Nova York, onde reside atualmente, para a pré-estreia do filme. O marido fotógrafo, Jairo Goldflus, trabalha nos EUA e o casal achou que seria uma boa experiência. Os filhos Manuela e Frederico, de 9 e 3 anos, estão cursando a escola e o ano letivo de lá vai de setembro - começou faz pouco - a junho. “Para eles está sendo ótimo. Estão se entrosando em outra cultura, aprendendo a língua, fazendo amigos.” Gabriela aproveita e faz cursos. Concluiu há pouco, na Siti Company, uma experiência fascinante - o treinamento viewpoints de Ann Bogart, com introdução ao método do japonês Tadashi Suzuki. É uma mistura de teatro japonês com técnicas de balé e artes marciais. O repórter provoca - nada de Elvira, não? Gabriela é uma esposa dedicada? Ela sorri. “Até tento, mas acho que o Jairo gostaria que eu ainda fosse mais.”

Há 20 anos, exatamente em 1995, Gabriela Duarte fez seu primeiro Nelson Rodrigues. “Na verdade foram dois. O Fantástico fez uns quadros inspirados em A Vida Como Ela É e eu interpretei dois. Fui o anjo pornográfico, a ninfeta que roubava o namorado da irmã. Era bem ousado para a televisão da época.” Voltar a Nelson Rodrigues foi uma experiência ótima. “É um autor incrível. A gente amadurece, a percepção da arte e da vida vira outra.” Vão longe os tempos da Maria Eduarda de Por Amor, novela de Manoel Carlos em que ela fazia a filha de... Regina Duarte. Eduarda era muito chata, irritante. Criou-se um movimento do público, que amava odiar Eduarda. Foi uma fase difícil para Gabriela. “Era muito jovem para lidar com aquela rejeição.” A mãe ajudou? “Ficou em cima do muro.” Isso não criou ressentimento? “Na época, eu não entendia bem, a gente não falava do assunto. Mas acho que ela percebeu que tinha de ser uma batalha minha, se era o que eu queria. E não ficou ressentimento nenhum. A gente se gosta muito.”

Em 2003, Gabriela foi melhor atriz no Festival de Huelva por seu papel em O Vestido, que Paulo Thiago adaptou de Carlos Drummond de Andrade. “Paulo me chamou para almoçar, para falar do filme. Falou sobre o triângulo, o marido, a mulher e a outra. Eu achando que ele ia me propor a mulher, mas ele propôs a outra e, para mim, foi muito bom, muito estimulante. Adoro fazer personagens que me questionem.” Isso significa muitas vezes ir contra a imagem que as pessoas fazem dela. “Não estou nem aí para o que as pessoas pensam de mim, se sou a namoradinha, como minha mãe foi. Não me preocupo com isso. Faço as coisas que me interessam como pessoa e como profissional. Se pensasse nessas coisas, talvez não fizesse um terço do que tenho feito na carreira e na vida.”

Sua principal característica, ela revela, é ser obstinada. “Sou ariana e, quando coloco alguma coisa na cabeça, é difícil me fazer desistir. Por exemplo, resolvi fazer um texto do (Ingmar) Bergman no teatro, Através de Um Espelho. Um texto duro, difícil, como toda a dramaturgia dele. O mercado pedindo comédia e eu fui em frente. Tive um sócio maravilhoso, mas, infelizmente, ocorreu aquela tragédia com ele.” Gabriela fala de Juliano Ricca, irmão do ator Marco Ricca. Um dia, ele pegou o carro, caiu na estrada, passou o primeiro pedágio e nunca mais foi visto. “Havíamos estreado e, aí, foi aquele abalo. Tive de acumular a produção, e num clima de muita angústia, porque a gente não sabia o que tinha ocorrido com o Juliano. Até hoje não se sabe.”

O assunto vira violência, crise. O mundo como está. O repórter conta o pedido que ouviu de um amigo - pergunta se ela tem medo, como a mãe dela disse que tinha durante a eleição? A patrulha a deixa indignada. “Ah, não, isso é maldade. Para mim e minha mãe.” De longe, Gabriela acompanha com preocupação o que ocorre no Brasil, mas sabe que não é uma tragédia exclusivamente brasileira. “O mundo, os EUA não são uma ilha de felicidade e o Brasil essa desgraceira toda. O Brasil nos preocupa porque é nossa terra, mas a situação do mundo está muito complicada. Apesar disso, sou otimista. Com toda crise, nunca tivemos tanta transparência. E isso é muito bom.”

 

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