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Keanu Reeves e Carrie-Anne Moss voltam a viver Neo e Trinity no novo filme da franquia 'Matrix'. Warner Bros

Futuro de ‘Matrix’ está ligado com o avanço das novas tecnologias

Equilibrando-se entre a crítica e o olhar apurado, franquia dá indicação de que há mais coisas a serem discutidas

Matheus Mans, O Estado de S.Paulo

23 de dezembro de 2021 | 05h00

Quando Matrix chegou aos cinemas, em 1999, a internet estava apenas dando os seus primeiros passos. Celulares eram “tijolões” e a internet era discada. Por isso, foi impactante ver o que as diretoras Lilly e Lana Wachowski criaram no filme estrelado por Keanu Reeves: não só foi usada tecnologia de ponta atrás das câmeras, como a história trouxe provocações.

As máquinas dominaram a realidade. Digital frente ao físico. Thomas A. Anderson, personagem de Reeves, precisou optar pela pílula vermelha para quebrar o teatro em que vivia e, enfim, ver o que havia por trás das cortinas. Havia algo de deslumbramento no olhar das duas cineastas, mas predominava o medo. No que aqueles computadores em formato de caixote iriam se transformar? 

Mais de vinte anos depois, quando Matrix Resurrections chega aos cinemas, o cenário é radicalmente diferente. As coisas estão ainda mais conectadas, mais digitais. As máquinas deixaram de ser um ente enigmático para fazer parte da rotina das pessoas. Isso é refletido no novo filme: humanos e máquinas vivem lado a lado. No entanto, a provocação vai além do que é exibido no novo longa-metragem: até quando os humanos poderão ser parceiros da tecnologia?

Lana Wachowski ainda não disse se pretende fazer um Matrix 5. Há, porém, espaço de sobra para que a cineasta explore mais: a realidade aumentada e virtual, metaverso, hologramas, digitalização de pessoas e, é claro, vício em tecnologia.

Obviamente, não se pode esperar algo simples de Lana ou de Lily - o cinema das duas, nunca foi confortável. É justamente isso que as pessoas precisam: um cutucão para que olhem ao seu redor, vejam a tecnologia que existe de maneira quase ostensiva, e pensem para qual caminho o mundo segue conforme as máquinas entram na rotina.

Matrix Resurrections é um filme bem diferente dos outros ao falar sobre, principalmente, amor. Só que, lá no fundo, ainda há um espaço para que os comentários sobre tecnologia ganhem força futuramente. Há temas de sobra que se encaixam na história da franquia e as irmãs, sem dúvida, sabem disso. Assim, só resta a torcida para voltarmos para dentro da Matrix

 

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'Matrix Resurrections' é enigmático e romântico; Estadão já viu o filme

No quarto filme da série, Neo volta a questionar a realidade

Mariane Morisawa, Especial para o Estadão

22 de dezembro de 2021 | 07h41

“Nada conforta a ansiedade como a nostalgia.” A frase de Matrix Resurrections, que estreia nesta quinta, 23, no Brasil, não poderia ser mais adequada para o momento atual do mundo – e do entretenimento, que apela para as memórias afetivas do público em filmes como Homem-Aranha: Sem Volta para Casa

Mas, enquanto o quarto filme da série criada por Lana e Lilly Wachowski é sem dúvida para iniciados, ou seja, para pessoas que viram Matrix (1999), Matrix Reloaded e Matrix Revolutions (ambos de 2003), também é uma declaração de quem afinal é dono da criatura, que rendeu tantas tentativas de cópias ao longo das últimas décadas. 

Durante anos, as Wachowskis foram pressionadas a fazer outro filme da série e sempre se recusaram. Em 2017, saiu a notícia de que projetos com a grife Matrix estavam sendo desenvolvidos, mesmo sem o envolvimento das irmãs, que tinham se afastado do cinema desde O Destino de Júpiter (2015). Em entrevista em 2020, Lilly disse à revista The Hollywood Reporter que a interferência do estúdio em seus filmes tinha causado esse abandono do cinema – as duas fizeram depois a série Sense8, cancelada pela Netflix depois de duas temporadas. 

Mas Lana resolveu revisitar seus velhos conhecidos ao perder o pai e a mãe em um intervalo de cinco semanas, além de um amigo. “Eu não sabia como processar esse luto”, disse em painel em Berlim, em setembro. “Uma noite, eu estava chorando, não conseguia dormir, e meu cérebro explodiu essa história nova.” 

Ela podia não ter mais seu pai e sua mãe, mas podia fazer algo que só o cinema pode fazer: trazer de volta Neo (Keanu Reeves) e Trinity (Carrie-Anne Moss), que, atenção para o spoiler após 18 anos, morrem no final de Matrix Revolutions. “Foi imediatamente reconfortante ter esses dois personagens vivos novamente, além de super simples de fazer. É para isso que servem a arte e as histórias, para nos confortar.”

Lilly, porém, preferiu ficar de fora. Em agosto, durante painel da série Work in Progress, da qual é produtora, em evento de imprensa da Associação de Críticos de Televisão, ela explicou sua decisão. “Eu tinha acabado de passar pela transição de gênero e estava exausta de fazer A Viagem, O Destino de Júpiter e Sense8 sem descanso”, disse ela. Lilly declarou-se uma mulher transgênero em 2016, enquanto sua irmã revelou sua transição de gênero em 2012. “Meu mundo estava desmoronando de certa forma, mesmo que eu estivesse saindo do meu casulo. Eu precisava de tempo distante da indústria, precisava me reconectar comigo mesma enquanto artista. Então eu voltei a estudar e a pintar.” 

Quando sua irmã contou sua ideia, Lilly também estava processando o luto da perda dos pais. “Achei a ideia de voltar a algo que já tinha feito pouco atraente. Não queria ter passado pela minha transição e por todas as mudanças em minha vida e pela perda dos meus pais para voltar para trás”, disse Lilly.

Assim, Lana assumiu sozinha o comando de Matrix Resurrections. E retomou o comando das narrativas, brincando com a ameaça da Warner Bros. de fazer o filme sem as Wachowskis e de ver sua criação transformada em produtos, copiada, exaltada apenas pelos seus efeitos especiais. Para as criadoras deste universo, que mistura anime e filosofia, discute se realmente existe escolha em um mundo como o nosso e subverte a noção do Escolhido, Matrix nunca se tratou apenas dos efeitos especiais. A ideia era divertir, claro, e provocar também. “A arte é um espelho”, disse Lana à revista Entertainment Weekly. “A maioria prefere apenas olhar para a superfície, mas há pessoas como eu que gostam de ver o que está por trás do espelho. Eu fiz este filme para essas pessoas”, completou a diretora. 

As duas dão poucas entrevistas, mas é só ver os seus filmes para saber que são humanistas, otimistas e críticas do capitalismo como está posto hoje. Naquela mesma entrevista de 2020, Lilly disse que Matrix nasceu da raiva contra o capitalismo e estruturas corporativizadas e formas de opressão, incluindo a sua própria, de não poder viver sua realidade plena. 

Com Matrix Resurrections, Lana tem a chance de retomar a narrativa das mãos dos grupos antifeministas e de extrema-direita, que se apropriaram da metáfora da pílula vermelha, promovendo “fake news” sob o pretexto de estarem revelando a verdade sobre o sistema. Para quem não se lembra, Neo precisa escolher entre conhecer a realidade sombria ingerindo a pílula vermelha ou permanecer em seu mundo de fantasia criado pela Matrix ingerindo a pílula azul. E, claro, ele escolhe a pílula vermelha, descobrindo que o que acreditava ser realidade é, na verdade, uma ilusão criada por máquinas que escravizaram os seres humanos para usá-los como fonte de energia. “Se não sabemos o que é real, não podemos resistir”, diz Bugs (Jessica Henwick), uma personagem não-binária fundamental em Matrix Resurrections

No novo filme, Neo novamente é levado a questionar sua realidade: os flashes que aparecem em sua cabeça são lembranças de uma vida passada ou cenas do videogame que se chama exatamente Matrix? Seu sócio, Smith (Jonathan Groff), é uma versão Matrix do Agente Smith, vivido nos filmes anteriores por Hugo Weaving? 

O filme é, como os originais, um quebra-cabeças por vezes difícil de acompanhar, cheio de pecinhas que nem sempre se encaixam perfeitamente, e desavergonhadamente romântico e sexy. Por isso, talvez seja quase uma aberração nos dias de hoje, dominado por produções que explicam tudo, que dizem tudo, que são tão idênticas quanto uma coleção de Agentes Smiths e que são desprovidas de paixão – ou seja, produções que poderiam ter sido criadas pela Matrix.

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Crítica: Matrix Resurrections é a mistura da diversão com a tragédia da existência

Novo filme da franquia estreia nesta quinta, 23, nos cinemas de todo o País com parte do elenco original

Luiz Carlos Merten, Especial para o Estadão 

23 de dezembro de 2021 | 05h00

Talvez se possa buscar ajuda num thriller de Tony Scott com Denzel Washington, de 2006 - Déjà Vu. O novo Matrix começa com essa mesma sensação - a cena inicial é praticamente uma recriação da abertura do primeiro filme, de 1999. No intervalo de 22 anos, muita coisa mudou. Neo e Trinity, Keanu Reeves e Carrie-Anne Moss, morreram no final do terceiro, Revolutions - morreram? A repetição da operação traz uma nova personagem, a Bugs de Jessica Henwick, que assiste à caçada da polícia a Trinity. De cara, percebe que caiu numa armadilha e é confrontada com Morpheus, que ganha uma nova cara - Laurence Fishburne é substituído por Yahya Abdul-Mateen II

Simulacros

É desse a frase que atravessa o relato todo: “Nada conforta mais a ansiedade do que um pouco de nostalgia”. Na nova trama, a Warner encomenda um novo episódio para seu jogo de sucesso. Será feito com ou sem a participação de seus criadores. Foi assim mesmo que ocorreu com The Wachowskis. Lana e Lilly sempre resistiram a fazer um quarto filme, convencidas de que já haviam dito tudo nos três primeiros. Em um mundo distópico, dominado por máquinas, os humanos sonham acordados e sua energia alimenta as máquinas - Baudrillard na veia, Simulacros e Simulação

Keanu Reeves é chamado, mas a nova instalação revela-se um jogo (filme?) dentro do jogo. Resurrections questiona a própria existência - os novos personagens reforçam ao mesmo tempo que subvertem o déjà-vu. O novo vilão é um terapeuta que controla a mente de Neo. A humanidade segue escravizada, as lutas seguem espetaculares, o bullet time continua questionando o tempo, e a existência. O próprio Neo discute se é mesmo o Escolhido.

No ínterim, só Lana agora assina a realização. Ela já disse que a série nasceu como reação à opressão dos transgêneros no mundo corporativista - e machista - do capitalismo. O título entrega - Resurrections, Ressurreições. A hora final da trama - o filme tem 2h30 - trata da ressurreição de Neo e Trinity e da afirmação do amor. A questão é: conseguirão voar? O novo Homem-Aranha já era um reboot. Déjà-vu, com o retorno dos mesmos personagens e atores. Lana recorre a novas caras. Talvez seja uma forma de refletir sobre as transformações no próprio corpo. Homem-Aranha é diversão, Resurrections é... Diversão + tragédia. A tragédia da existência.

 

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