Axel Schmidt|AP
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'Fuocoammare', documentário sobre refugiados, vence Festival de Berlim

Gianfranco Rosi passou meses na ilha italiana de Lampedusa para conhecer os personagens; veja lista de vencedores

Luiz Carlos Merten, Estadão

20 de fevereiro de 2016 | 17h30

Foram momentos de emoção na cerimônia de encerramento da 66ª Berlinale. Vários discursos em defesa dos imigrantes meio que preparavam no inconsciente coletivo a vitória de Fuocoammare. Até o triunfo final do filme do italiano Gianfranco Rosi, ocorreram momentos inesperados. A presidente do júri, Meryl Streep – grande estrela de Hollywood e uma das maiores atrizes do mundo –, curvou-se diante da dinamarquesa Trine Dyrholm, depois de esgotar adjetivos para definir sua interpretação no drama de Thomas Vinterberg, The Commune. Clive Owen também desdobrou-se em adjetivos – “brilhante, sensível” – ao entregar o Urso de Prata de melhor ator para o jovem tunisiano Majd Mastoura, por Hedi, de Mohammed Ben Attia, que também ganhou o prêmio de melhor filme de diretor estreante.

Lav Diaz ganhou o Prêmio Alfred Bauer, para um filme que abre caminhos. O caminho foi longo, mas o prêmio totalmente merecido. Para ver A Lullaby for a Sorrowful Mystery, o público entrou no palácio do festival no meio da manhã e saiu no fim da tarde. Nove horas com intervalo. Lav agradeceu a coragem do júri e do próprio festival. O júri é que agradeceu ao autor filipino, por mostrar que um outro cinema é possível.

Havia essa expectativa de que o júri de Meryl Streep fizesse a coisa certa. Afinal, tanta gente competente (Clive, Meryl, Nadine Lacombe, etc). Houve apenas uma nota em falso – o prêmio de roteiro para Tomasz Wasilewski, por United States of Love – Tomasz foi assistente de Malgorzata Szumowska e a diretora de O Corpo bem pode ter advogado no júri por ele.

De resto, foram prêmios justos – e até conceituais. Melhor direção para a francesa Mia Hansen-Love, de L’Avenir; prêmio especial do júri para Danis Tanovic, por Mort à Sarajevo, que o diretor de Terra de Ninguém adaptou da peça Hotel Europa, de Bernard-Henri Lévy; e Urso de Ouro para o melhor filme, o documentário Fuocoammare, sobre a ilha de Lampedusa, a meio caminho do norte da África e da Sicília. Lampedusa virou o destino de imigrantes cujos barcos naufragam na tentativa de chegar à Europa. Muitos cadáveres aportam nas praias da ilha, mas alguns se salvam. “A grande lição que aprendi em Lampedusa é que se trata de uma ilha de pescadores. E eles aceitam o que o mar lhes oferece, vivem disso. Talvez devamos todos aceitar essa lição de tolerância e aceitação do mar. A tragédia dos imigrantes é o novo genocídio da Europa.”

Todo ano o festival destaca um filme por sua contribuição artística. Foram muitos os filmes com alta qualidade, técnica e estética, de fotografia. O júri selecionou o chinês Crosscurrent, pelo trabalho de câmera de Mark Lee Ping-Ping. É realmente deslumbrante.

Houve até um prêmio para o Brasil, atribuído na sexta-feira à noite, na festa do Teddy Award, o chamado Urso gay. Anna Muylaert ganhou o prêmio do público da mais tradicional publicação gay da Alemanha – Herren – pelo personagem transgênero de Mãe Só Há Uma. Como Anna disse em sucessivas, seu filme é uma defesa do corpo como liberdade de expressão. “Cada um tem o direito de ser o que quer.”

 

Confira os premiados:

Urso de Ouro de melhor filme

Fuocoammare (Itália, França), de Gianfranco Rosi

Urso de Prata do Grande Prêmio do Júri

Death in Sarajevo (França, Bósnia), de Danis Tanovic

Urso de Prata - Prêmio Alfred Bauer

Hele Sa Hiwagang Hapis (A Lullaby to the Sorrowful Mystery), de Lav Diaz (Filipinas)

Urso de Prata de melhor direção

Mia Hansen-Løvê (França, Alemanha), por L’Avenir 

Urso de Prata de melhor atriz

Trine Dyrholm, por Kollektivet (Dinamarca, Suécia, Holanda)

Urso de Prata de melhor ator

Majd Mastoura, por Hedi (Tunísia, Bélgica, França)

Melhor longa de estreia

Heidi (Tunísia, Bélgica, França), de Mohamed Ben Attia

Urso de Prata de melhor roteiro

United States of Love (Polônia, Suécia), de Tomasz Wasilewski

Melhor contribuição artística

Chang Jiang Tu (Crosscurrent), de Yang Chao (China)

Urso de Ouro de melhor curta

Balada de um Batráquio (Portugal), de Leonor Teles

Urso de Prata de melhor curta 

A Man Returned (Reino Unido, Holanda, Dinamarca), de Mahdi Fleifel

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