"Fugindo do Inferno", o clássico de ação, agora em DVD

Bertrand Tavernier chega a sercruel com John Sturges em 50 Anos de Cinema Americano Naprimeira versão do livro que co-escreveu com Jean-PierreCorsodon, o crítico francês, diretor de filmes como Um Sonhode Domingo, Por Volta da Meia-Noite e A Isca - quevenceu o Urso de Ouro em Berlim, em 1995 -, já levantava apossibilidade de que Sturges talvez não fosse tão bom quantodefendiam alguns admiradores extremados. Sturges seria"surestimé", como dizem Tavernier e Corsodon. Essa primeiraversão se chamava 30 Anos de Cinema Americano. Quando foiatualizada, a dupla caiu matando sobre Sturges e disse que aqueda de seus últimos filmes, considerados decepcionantes pelamaioria da crítica, simplesmente era irreal porque não podiacair quem nunca estivera no alto. Tavernier coloca só um filmede Sturges na coroa da lua: Conspiração do Silêncio e, assimmesmo, porque teria sido escrito, sob pseudônimo, por DaltonTrumbo. Não tem muito apreço por Fugindo do Inferno, porexemplo. É justamente o filme que está saindo, pela Fox HomeEntertainment, num DVD cheio de extras. Tavernier pode até terrazão, mas Fugindo do Inferno não nega fogo como espetáculode ação. Era, aliás, a especialidade de Sturges. Quando elemorreu, em 1992, os críticos que ainda o idolatravam deram aliseu adeus a um cinema americano que ia ficando cada vez maisstandartizado. Quase dez anos antes, em 1983, já morrera RobertAldrich, em 1991 morrera Don Siegel e, na verdade, nenhum deles,ao sair de cena, estava numa grande fase. A partir do sucesso deGuerra nas Estrelas, em 1977, a estética dos efeitosespeciais se tornaria dominante em Hollywood e não apenas parafantasias científicas. Os efeitos começavam a dominar o maissimples thriller. Fugindo do Inferno talvez tenha sido o primeiro deuma série de filmes que repuseram o foco, nos anos 1960, sobre a2ª Grande Guerra. O cinema todo estava mudando. As novascinematografias pipocavam ao redor do mundo, na trilha abertapela nouvelle vague. A própria produção hollywoodiana tentavaarrombar as normas do Código Hays, que disciplinava o uso dosexo e da violência no cinema americano. O código iria cair.Depois de Fugindo do Inferno surgiu Os Doze Condenados ea versão blasfema da Paixão, segundo Aldrich, sua históriados 12 apóstolos da violência, foi fundamental para que SamPeckinpah, a seguir, lançasse a pá de cal sobre o código, com osembates físicos e as explosões de Meu Ódio Será Sua Herança(The Wild Bunch). E não se pode esquecer, ainda no cinema deguerra, de O Desafio das Águias, uma aventura eletrizante(ou que assim parecia, na época) dirigida por Brian G. Hutton. Tudo talvez tenha começado com Fugindo do Inferno.Sturges, pouco antes, reuniu muitos atores desse filme (SteveMcQueen, Charles Bronson, James Coburn) em outra epopéia degrupo, Sete Homens e Um Destino", na qual transpôs, para oVelho Oeste, a saga de Os Sete Samurais, de Akira Kurosawa.Os sete pistoleiros de Sturges forneceram a pedra de toque sobrea qual Sergio Leone construiu o edifício do spaghetti western,mas essa já é outra história. Westerns, filmes de guerra,policiais. Sturges sempre amou a ação e o movimento. Amavatambém os durões, uma linhagem de atores que, de Burt Lancastere Kirk Douglas a John Wayne, passando por Steve McQueen, CharlesBronson e James Garner, criou personagens com os quais o públicopodia identificar-se (e esbaldar o id) no escurinho do cinema. Se alguém lhe perguntar e você quiser definir o que éFugindo do Inferno, bastará dizer que é aquele filme no qualSteve McQueen foge de um campo de concentração dos nazistas nolombo de uma veloz motocicleta. E é uma epopéia de grupo,desenvolvida a partir de uma história real - a tentativa de fugade prisioneiros aliados de um campo-modelo criado pelos alemães,durante a 2.ª Guerra. Nada de Holocausto, de fornos crematórios.O campo, aqui, é quase anti-séptico. E fornece um território sobmedida para os embates entre homens, que era o tema preferido deSturges. Os prisioneiros de Fugindo do Inferno precisamunir-se para levar a cabo o plano de fuga. A união faz a forçadeles, mas não seria um filme americano se não houvesseindividualistas entre eles. O mais audacioso desses individualistas é interpretadopor Steve McQueen. O mais nobre, também, porque ele arrisca aprópria liberdade, seu maior bem, para tentar ajudar os amigos.O curioso é que o filme é quase "hustoniano", celebrando um temaque fascinava o grande John Huston. Qualquer esforço é válido,independentemente do resultado a que se chegue. A história deFugindo do Inferno é quase a confissão de um fracasso, jáque raros prisioneiros vão alcançar o objetivo sonhado daliberdade. Mas você quase não se dá conta disso, porque a razãode ser do filme - um espetáculo baseado nos tempos fortes daação -, essa sim é concretizada pelo diretor. Não faltam defeitos em Fugindo do Inferno. Você podedeplorar a ingenuidade de certos diálogos ou o patetismo decenas que soam fabricadas para forçar a emoção. Mas a ação éótima e os atores, bem, só para ver o elenco reunido por Sturgesjá vale alugar o DVD. Você vai até querer comprá-lo, depois.Charles Bronson: o cara de pedra foi um dos melhorescoadjuvantes de Hollywood, antes de virar o justiceiro da sérieDesejo de Matar, que lhe deu muito dinheiro, mas acabou comsua reputação junto aos críticos. Richard Attenborough virariadepois o diretor de Gandhi e James Garner seria o protagonistade A Hora da Pistola, com o qual o próprio Sturgesdesmistificou a saga do OK Corral, que ajudara a erigir em SemLei e Sem Alma, contando a história oficial do célebretiroteio que opôs o xerife Wyatt Earp e seu amigo Doc Holiday aobando dos Clantons. Mas a grande figura de Fugindo doInferno é Steve McQueen. Os anos 1960 iriam assistir à consolidação do seucarisma e ele virou um grande astro - um dos maiores da históriade Hollywood. Cavalgando uma motocicleta como se fosse um cavalonesse filme, ele fez a popnte entre o western e o filme deguerra e abriu o caminho para Clint Eastwood no desfecho deMeu Nome É Coogan, de Don Siegel, outro grande espetáculo deação da época. McQueen morreu em 1980, de câncer, quando tinhasó 50 anos. Quando ele sorri, em Fugindo do Inferno, você sedá conta de que Hollywood teve de esperar quase 40 anos parareencontrar, em George Clooney, aquele sorriso viril que derreteas mulheres e ganha a cumplicidade dos homens. Serviço - Fugindo do Inferno (The Great Escape).EUA, 1963. Direção de John Sturges, com James Garner e SteveMcQueen. DVD da Fox Home Entertainment. Nas lojas, por R$ 51,90

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