‘Fruitvale’ narra história real de assassinato pela polícia no metrô

Longa sobre Oscar Grant III, morto em uma estação de metrô nos EUA, passou com êxito pelos festivais de Sundance e Cannes

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

01 de fevereiro de 2014 | 03h00

Você talvez não saiba quem é Michael B. Jordan, mas pode tê-lo visto em séries de TV dos EUA, como Família Soprano. Jordan faz o protagonista de Fruitvale Station – A Última Parada. O longa de Ryan Coogler passou com êxito pelos festivais de Sundance e Cannes no ano passado. Chegou a ser premiado no segundo, no qual integrou a seleção da mostra Um Certain Regard. A história é real e relata o que ocorreu com Oscar Grant III numa estação de metrô de Oakland, na Califórnia, no Ano Novo de 2008.

 

 

 

 

O fato ganhou cobertura planetárias nas redes sociais. Começou como o que parecia um incidente banal na noite de réveillon. Uma briga no trem. A polícia do metrô interveio. Oscar e seus amigos foram considerados suspeitos e obrigados a se sentar no chão, em isolamento. E diante dos olhos atônitos dos passageiros no trem (e na estação), que gravavam tudo em seus celulares, o rapaz foi alvejado. Imediatamente, as imagens passaram a circular nas redes sociais. A pressão foi tanta que o caso teve ampla cobertura de mídia ao ser levado a julgamento e agora vira filme.

Para o espectador brasileiro, a história tem algumas semelhança com a de Jean-Charles, no filme de Henrique Goldman com Selton Mello. Lembram-se? Jovem brasileiro, em Londres, foi confundido com terrorista pela polícia e também foi alvejado. Numa breve entrevistas por telefone, de Los Angeles, Michael B. Jordan conta que nunca ouviu falar do caso Jean-Charles, mas diz que, pelo que relata o repórter, foi algo muito triste, que poderia ter sido evitado – como o assassinato de Oscar. “Assassinato” – ele usa a palavra.

Mas Jordan conhecia bem a história de Oscar Grant III, que o diretor Coogler recria numa ficção com ares de documentário. O B. no meio do nome “Michael Jordan”, como o do lendário jogador, tem origem africana. Em swahili, Bakari quer dizer “nobreza de intenções”, e Michael conta que, embora o nome seja dele, a nobreza já estava nas intenções de Coogler. “Contar essa história se tornou uma necessidade para ele, que teve o apoio de pessoas admiráveis como Forest Whitaker e Octavia Spencer. Gosto de pessoas para quem o cinema não é só uma diversão, mas um instrumento de revolta, ou uma tentativa para se compreender o mundo.”

O filme foi escrito para ele, que na TV norte-americana é razoavelmente conhecido por seus papéis em Friday Night Lights e Parenthood. “Sabia que não seria fácil, mas trabalhei com uma equipe admirável, o papel era bem escrito e toda essa história, para falar a verdade, não é estranha para Ryan nem para mim. Em certas comunidades basta ser negro para ser suspeito. De quê? De tudo de ruim que estiver ocorrendo.”

Oscar, no filme, não é santificado. Ele teve um passado no tráfico – chegou a ser preso – e acaba de perder o emprego por seus atrasos no serviço. Mas é afável, responsável. Carinhoso com a mãe, a avó e a filha. “O mais triste nessa história é que Oscar está querendo se reerguer, e o mundo se abate sobre ele.” A grande pergunta do repórter – Fruitvale pode nem ser o melhor, mas é um bom filme, honesto, emocionante, num ano em que a consciência negra da “América” vem se manifestando em filmes importantes realizados por diretores afro-americanos. 12 Anos de Escravidão, de Steve McQueen, O Mordomo da Casa Branca, de Lee Daniels, com Forest Whitaker. “Não sei se esses filmes chegam a se constituir numa tendência, mas com certeza estão querendo entender a história e mostrar como as coisas ocorrem. Muita gente diz que é o ano dos negros, até no Oscar. Espero que não seja só neste ano, mas é evidente que nós, e eu também sou afro-americano, tínhamos boas histórias e queríamos contá-las. Espero que tenhamos conseguido contá-las bem.”

Octavia Spencer, que ganhou o Oscar de coadjuvante por Histórias Cruzadas, faz a mãe. É uma atriz admirável. Em cena, cobra do filme para que se mantenha na linha. E Oscar até quer, mas as condições são adversas. Histórias parecidas você encontra todo dia na periferia das grandes cidades, onde reina a exclusão. O que deu notoriedade póstuma a Oscar foi que as pessoas estavam ali, com seus celulares, no momento certo – errado para ele.

Você pode até achar que Ryan Coogler manipula o público, e controla a emoção. Impossível é ficar alheio à tragédia de Oscar Grant III.

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