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Francis Ford Coppola lança livro sobre 'O Poderoso Chefão'

Diretor escreve diário sobre a produção do filme que o consagrou

Entrevista com

Francis Ford Coppola

Jacob Bernstein, THE NEW YORK TIMES

21 de novembro de 2016 | 03h00

“Oh, céus, estou sangrando?”, foi a reação de Francis Ford Coppola caminhando pela sua casa em Napa Valley enquanto falava ao telefone com o repórter. Embora o diretor de filmes de enorme sucesso como A Conversação, Apocalipse Now e O Poderoso Chefão raramente conceda entrevistas (mesmo aqueles em que o sangue de verdade não verteu), ele concedeu esta em uma manhã de quinta-feira há algumas semanas para promover o livro The Godfather Notebook. Esse excelente documento do filme basicamente abrange todas as anotações feitas por Coppola às margens do romance original, como também seu roteiro desde o primeiro episódio da trilogia, transformados num livro para ser lido à mesa de um café em um feriado. O livro acaba de ser publicado pela Regan Arts.

Mostra como Coppola deu vida ao romance de Mario Puzo de 1969 num filme que abocanhou o Oscar em 1973, extirpando partes inteiras da história e ressaltando o que acreditava ser a essência oculta do romance: a narrativa do capitalismo nos EUA visto por meio do derramamento de sangue e a coragem de uma família.

Mas, no momento, o assunto era sangue – o seu próprio. “Quebrei um copo”, disse ele, explicando que assistia a um evento esportivo, e, quando foi pegar o controle remoto, derrubou o copo. Não era um corte profundo. Estava bem, salvo o fato de que estava sangrando e ele sabia que haveria consequências se o sangue caísse em alguma coisa valiosa.

“Minha mulher vai me matar. Não desligue”, disse. Assim, ele largou o telefone e foi colocar um curativo e retornou para responder a uma hora de perguntas sobre o filme que gostaria de esquecer, a carreira que deixou para trás e o império que construiu depois.

Em primeiro lugar, Coppola deixou claro que o livro foi um empreendimento que visava pouco lucro e que escreveu por insistência das pessoas à sua volta. E então criticou seu editor. “O volume de trabalho que a editora me obrigou a fazer. Devia ser um contrato para uma palestra. Tenho de fazer isso, fazer aquilo. Tenho de escrever o prefácio.” E também conceder entrevistas.

Quando foi a última vez que o senhor assistiu a O Poderoso Chefão?

Não sei, há alguns anos. Para mim, a lembrança do filme me traz muita infelicidade. Esse filme levou 60 dias para ser produzido e foi terrível, sem mencionar os meses de trabalho de edição. Minha reação normalmente era de pânico e náusea, mas isso não tem nada a ver com a reação do público.

O que gostei ao ler o livro foi descobrir como o senhor é metódico. As pessoas normalmente acham que toda grande arte é resultado de uma imaginação sem limites. O livro mostra que ela implica um trabalho duro.

Era insegurança. Eu era jovem. Fui contratado porque era jovem. Muitos diretores importantes recusaram o trabalho. Elia Kazan, Costa-Gavras e outros diretores. Então, a ideia era contratar alguém jovem, que supostamente poderia ser dominado. Além disso, eu era ítalo-americano, o que era bom, porque significava que, se o estúdio recebesse críticas, poderia responder, “mas o diretor é ítalo-americano”. E era alguém que podiam ter por um preço barato.

Quanto recebeu pelo filme?

Eles me fizeram duas propostas: ou US$ 75 mil e 10% do lucro, ou US$ 125 mil e 6% do lucro. Eu tinha dois filhos e um terceiro estava a caminho, então aceitei os US$ 125 mil mais 6%. Acho que, se tivesse pedido 7%, não conseguiria o trabalho.

E quando o filme foi concluído, sabia que seria um sucesso?

Não. Bob Evans, o produtor, manteve as coisas realmente em segredo. Não mostrou o filme para ninguém. E eu estava tão intimidado, ouvira falar que seria despedido, que mandariam um diretor de ação. Enfim, estava traumatizado.

Algumas coisas felizes ocorreram no set de filmagem. Diane Keaton escreveu que se apaixonou por Al Pacino.

Nos ensaios, ela demonstrava que ele era seu favorito, mas a Paramount não queria saber dele. Criei um set improvisado e arrumei um quarto no St. Regis Hotel com serviço de quarto. Então, os deixei a sós e fui para casa. Estou certo de que foi ali que tudo começou. Mas é uma situação complicada. Eles poderiam se separar durante a filmagem. Foi o que ocorreu comigo também.

Eu imagino que a segunda parte de O Poderoso Chefão foi mais fácil.

Foi prazeroso. Tinha o controle total.

Qual foi a crítica mais generalizada sobre O Poderoso Chefão?

Que era violento e romantizava os personagens.

O senhor acredita nisso?

Na verdade, sim. Porque a interpretação no final tornava essas pessoas simpáticas, embora seu comportamento fosse horrível. As pessoas dentro da máfia real são animais.

No caso do terceiro episódio, os críticos realmente cravaram os dentes.

A terceira parte não foi o que eu desejava fazer. Foi decorrência de uma bancarrota.

Hoje, o senhor se tornou o proprietário de um empreendimento de vinhos de sucesso. Não dirige mais filmes regularmente como antes.

As pessoas me perguntam do que gosto mais e eu respondo que não dá para fazer comparações. Ambas atividades dão muito prazer, mas o cinema ainda é mais mágico. Por isso é tão doloroso ver o que vem ocorrendo. Se não existisse esse pequeno nicho de cinema independente, nada restaria. Hoje, produzir um filme de mais de US$ 3 milhões sobre um tema interessante é quase impossível. Às vezes, digo que não deixei o cinema, o cinema é que seguiu seu curso próprio.

O que o senhor quer dizer?

Que os grandes estúdios de Hollywood que produziram excelentes filmes com muito entretenimento agora foram comprados por empresas de telecomunicações.

 

Os três 'Chefões' formam um bloco de notável coerência; escolher o melhor será sempre uma questão de foro íntimo

Já se passaram mais de 40 anos desde o primeiro Chefão - 44 anos. Vieram depois O Poderoso Chefão Segunda Parte e O Poderoso Chefão 3, em 1974 e 1990. Criou-se um verdadeiro culto a esses três filmes. Muito se falou e publicou sobre cada um deles, e sobre a trilogia. Você podia até pensar que já sabia tudo sobre a saga. Faltava a visão do diretor. O diário de Coppola.

Tudo o que ele imaginou, planejou, logrou. Em 1979, Coppola estreou Apocalypse Now. Anos mais tarde, sua mulher, Eleanor, lançou O Apocalipse de Um Cineasta. Eleanor Coppola acompanhou o marido nas Filipinas, durante a realização. Viu-o enlouquecer. Também ela fez um diário, que utilizou depois. Poucas obras sã\o tão reveladoras - do gênio criador, dos compromissos e sacrifícios para se fazer uma obra-prima.

O Apocalipse de Um Cineasta é filme. O cinema, falando sobre o cinema. The Godfather Notebook é livro, por enquanto. Quem sabe, no futuro, Eleanor, o próprio Coppola ou quem quer que seja passe essas anotações pela câmera? No começo dos anos 1970, a geração de Coppola começou a mudar Hollywood. Steven Spielberg e Tubarão, George Lucas e Star Wars. Assim fizeram história. O primeiro Chefão nasceu de uma encomenda. Desafiado a adaptar o best-seller de Mario Puzo, Coppola transformou o livro numa prodigiosa lição de cinema narrativo. Fez da história de uma família criminosa - como os Bórgia, na Itália do Renascimento - uma síntese da luta pelo poder numa democracia étnica.

No 2, o desafio era aprofundar, o que ele fez construindo duas narrativas em paralelo. O jovem Don Vito e seu filho, Michael, consolidando o poder dos Corleone. E o 3 - o Vaticano, o escândalo do banco papal, a legitimação do poder no mundo global. Uma saga completa. Escolher o melhor vai depender muito do gosto de cada um. O mais doloroso é o 3. A morte da filha, que Coppola fez interpretar por sua filha, Sofia, e ela foi massacrada pela crítica.

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