Franceses fazem fila para assistir ?Eu Tu Eles?

É consagradora a acolhida reservada pela crítica francesa ao longa Eu Tu Eles, que começou caindo nas graças do público. Sua ?carreira? entrou no circuito parisiense, na quarta-feira, sob o título de La Vie peu Ordinaire de Dona Linhares. A lotação esgotou nas sessões vespertinas e noturnas dos cinemas em que o filme está em cartaz: nas salas do Champs Elysées, Saint Germain de Près, Opera, Marais e Montparnasse.A encarregada pela distribuição do filme na Europa, Isabelle Dubar, estava eufórica com a aceitação do filme não só em Paris, como também nas outras 30 cidades francesas. ?O pessoal fez fila em vários lugares para ver ?Dona Linhares com seus homens?, ela declarou ao Estado.Independentemente da qualidade do filme e da publicidade intensa feita em outdoors nos pontos estratégicos de Paris, Eu Tu Eles, em seu lançamento, está se beneficiando da chamada Onda Brasil, registrada na capital francesa e motivada pelas mais díspares e imponderáveis razões: o sucesso do romance Rouge Brésil, de Jean-Christophe Rufin, que ganhou o Prêmio Goncourt, a maior distinção literária da França; a volta triunfal de Henri Salvador à cena musical com um álbum de inspiração brasileira, Jardim de Hiver (quase 2 milhões de discos vendidos); a moda das ?noitadas brasileiras? lançada pelo restaurante Favela Chic; e as referências sucessivas da mídia ao fato de ?o Brasil ir escapando, galhardamente, do contágio argentino em matéria de bancarrota?.Na imprensa, o filme suscita muito entusiasmo. Em uma de suas edições, o mais popular jornal francês, Le Parisien, qualifica a película de Andrucha Waddington de ?lindo e inesperado presente brasileiro de fim de ano, pela ?maneira alegre, otimista, inspirada, cheia de energia e tão próxima da vida com que é contada a história de Dona Linhares e seus três amantes?.Já o influente Le Monde começa por exprimir sua surpresa: ?Por causa de Glauber Rocha, imaginava-se que do sertão brasileiro só podiam sair filmes paroxísticos, mas não.? Daí, o jornal saúda calorosamente como um ?filme tranqüilo sobre uma mulher serena, mas de vida tumultuada, num enredo em que a lábia amorosa do canavial poderia ter descambado para a pornografia vulgar, para o miserabilismo ou tragédia?.O Le Monde aplaude Andrucha por ter visto e recusado tais alternativas, preferindo tratar o ?ménage à quatre? de ?maneira contida, com muito humor?. As imagens extremamente bem compostas da paisagem árida do sertão, segundo o periódico, podem transmitir ?a impressão de luxo?, porém, tal ?tendência ao estetismo encontra dois antídotos: a qualidade dos atores engajados no filme, prestes tanto para o humor, quanto para o amor, e a música magnífica de Gilberto Gil?.Não é menor a surpresa do Le Monde pelo talento de Regina Casé, com seus traços fortes, formas robustas, que contrastam, no entanto, com a graça de sua postura. E sublinha: ?O mistério dessa beleza fora do ordinário cinematográfico é o verdadeiro motor do filme.?Também evocando Glauber Rocha, ?por fazer no passado do sertão, cenário épico de uma luta de classes?, o Libération louva o talento de Andrucha na demonstração de que ?os pobres cortadores de cana podem sempre dar um jeito na vida para oferecer uma parte de felicidade em meio à adversidade?.Por sua vez, o Le Figaro abre manchete para o filme em sua seção de arte e espetáculos: ?Waddington ? Poliandria no reino dos machos?. Depois de apresentar Regina ?como uma estrela do teatro adorada pelos brasileiros?, o jornal focaliza sua atuação com admiração indisfarçável: ?Naquele universo ingrato (o sertão), com a graça imperial de uma deusa primitiva que fecunda a terra e os homens, ela faz emergir e jorrar as forças da vida. Regina tem ?punch de uma Magnani? (estrela italiana dos anos 50, 60) e o sorriso de Fernandel (célebre cômico francês). Impossível não se deixar seduzir pelo lirismo generoso desse hino pagão à natureza, à terra e à mãe.?Praticamente idêntica é a opinião de Les Echos, o jornal do mundo da economia e finanças, que também não poupa elogios ao desempenho de Regina Casé: ?Uma atriz fabulosa, uma força da natureza que nunca derrapa ou hesita no seu desígnio de tornar a sua personagem, Darlene, cativante e fraterna.?

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