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Francesa Emmanuelle Bercot fala sobre filmes e mulheres

Ela dirigiu 'De Cabeça Erguida' e atuou em 'Meu Rei'

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

30 de setembro de 2016 | 03h00

Com apenas dois filmes no currículo, Maïwenn conseguiu o prodígio de ser duplamente premiada no Festival de Cannes, o maior do mundo – prêmio especial do júri, por Políssia; melhor atriz para Emmanuelle Bercot, por Meu Rei. O segundo está em cartaz na cidade. Um filme sobre a paixão, intenso, gritado. Quem gosta, gosta muito. Quem não gosta, se pergunta de onde vem esse prestígio de Maïwenn em Cannes? Emmanuelle Bercot riu de todas essas observações do repórter. A própria Emmanuelle esteve no Brasil, no ano passado, integrando a delegação do Festival Varilux de Cinema Francês, do qual Mon Roi foi um dos destaques em 2015. Como Maïwenn, Emmanuelle irritou as feministas de plantão.

Todas perguntaram sobre a importância de haver sido, em mais de 30 anos, a segunda mulher, em toda a história do Festival de Cannes, a dirigir o filme de abertura do ano passado – De Cabeça Erguida. De tanto ouvir a pergunta, Emmanuelle deu respostas que pareceram antipáticas. “A importância de ter sido a primeira diretora a inaugurar Cannes, desde o começo dos anos 1980, está muito mais na cabeça dos outros, ou das outras. Vivemos num mundo muito machista, e eu sou a favor de que seja contestado, mas espero que ninguém pense que La Tête Haute estava cumprindo alguma cota.”

Quando conversou com o repórter junto à piscina do Hotel Sofitel, em Copacabana, no Rio, Emmanuelle estava cansada. Podia-se ler seu pensamento – aí vem mais um. “Você abriu o Festival de Cannes como diretora...” – “Ah, não...” – “... ganhou também o prêmio de melhor atriz, e isso não só é inédito como talvez nunca ocorra de novo.” O fenômeno não foi haver inaugurado Cannes, mas o ‘e’. E haver sido melhor atriz no mesmo festival. Não existem muitos diretores, ou diretoras, capazes de tal façanha.

O rosto de Emmanuelle Bercot ilumina-se. Agora, sim, podemos conversar. Para uma atriz e diretora, como foi trabalhar num filme de outra atriz e diretora. “Maïwenn foi de uma franqueza brutal comigo. Disse que estava me escolhendo porque queria uma atriz capaz de criar a personagem como a via. Não particularmente bonita nem sexy. Uma mulher comum, cheia de dúvidas. No filme, chego a interpelar Vincent (Cassel), querendo saber o que ele viu em mim? Meu Rei é um filme sobre o amor, e mais que isso, a paixão. Por que a gente gosta de uma pessoa, em especial, e não de outra? Todo mundo se deve fazer essa pergunta ao iniciar um relacionamento – por que ele? Ela?” Uma questão, sem dúvida, intrigante – apaixonante. E por que Meu Rei é tão intenso, gritado? O repórter compara o filme a um psicodrama, aquele tipo de cena encenada (mas com cara de vivida) típico do cinema de John Cassavetes.

“A explicação mais simples é que Johnny (Cassavetes) era ator. Maïwenn, também. Em Cannes, um jornalista norte-americano perguntou se era assim que ela via os franceses... Não creio que seja uma questão de nacionalidade. Mas Maïwenn é assim. Seus filmes todos têm essa característica. Apesar disso, ela não faz cinema autobiográfico.” (Maïwenn é mãe de duas filhas, uma delas com o cineasta Luc Besson.) Essa espécie de urgência – o diálogo gritado – sugere improvisação... “Mas é só sugestão. Maïwenn escreve muito os filmes. Pede que a gente leia uma vez e crie a cena. E aí ela vai moldando nossa interpretação. É o diretor ou diretora que mais se liga no som, que conheço. Já a vi fechar os olhos ao seguir a cena, só para se concentrar no som, no ruído. Maïwenn tem uma frase ótima. Atores são muito inseguros para aceitar o silêncio. Precisam falar compulsivamente. O filme tem esse ritmo. Some as inseguranças dos atores com as de apaixonados e pronto... “Ça c’est Mon Roi!”

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