França inaugura 58.ª edição do Festival de Cannes

O 58.º Festival Internacional de Cinema de Cannes foi aberto hoje com "Lemming", do francês Dominik Moll, um bom drama psicológico que revela velhas angústias num contexto moderno. Nascido na Alemanha em 1962 mas francês para todos os efeitos, Moll é um cineasta parcimonioso que deixa passar um período de cerca de cinco anos entre um filme e outro (esta é a terceira produção em 11 anos depois de "Intimité", de 1994 e "Harry, un ami qui vous veut du bien", muito bem recebida em Cannes em 2000), e que é fiel a um certo tipo de cinema: o que descreve um mundo perfeito no qual se insinuam pouco a pouco as angústias modernas.Aqui o mundo perfeito é o de Alain (o ator-fetiche de Moll, Laurent Lucas), engenheiro de informática com um bom trabalho, uma jovem esposa, Bénédicte (Charlotte Gainsbourg) a quem ama, e uma casa nova que é um ninho de felicidade no qual se insinua um estranho acidente: um encanamento entupido pelo corpo de um lemming, um roedor escandinavo, surgido misteriosamente numa tranqüila cidade de província francesa. Daqui por diante, todo o mecanismo no qual se baseia a felicidade de Alain desmorona.Seu chefe (André Dussollier) e sua esposa (Charlotte Rampling), convidados para um jantar em sua casa, protagonizam uma briga conjugal e insultam seus anfitriões; no dia seguinte, a mulher tenta seduzir a Alain e 24 horas mais tarde se suicida em sua casa, depois de revelar a Bénédicte a tentativa frustrada de infidelidade.O clima de pesadelo se torna cada vez mais angustiante com Alain, que perde todo o contato com a realidade, enquanto que sua mulher se identifica com a defunta e planeja uma vingança post-mortem para ela.Mundo de pesadelosAjudado por seu habitual co-roteirista Gilles Marchand, Moll cria um mundo de pesadelos no qual nem os personagens nem o espectador estão seguros do que vêem ou ouvem, e onde vão sendo destruídos um a um os arquétipos da felicidade moderna, que voltam a recuperar seu papel de frágil fachada no final do filme.Moll é mestre em reverter sutilmente as regras de um gênero (neste caso, o de fantasmas), sem nunca abandonar o realismo da vida cotidiana, além de contar com um quarteto extraordinário de atores (sobretudo Dussollier e Rampling), que o ajudam a fazer um filme que cativará por igual público e crítica.

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