França domina estréias da semana

No recente Fórum Mundial doAudiovisual, realizado em Porto Alegre, a França foi mostradacomo exemplo de resistência possível à dominação de Hollywood.No ano passado, os filmes franceses ocuparam mais de 40% domercado nacional. Os franceses gostam de se ver na tela, mas háuma série de decisões políticas que dão respaldo a esse gosto.Três novos filmes franceses somam-se aos que já estão em cartaz.É rara essa presença ostensiva da França, numa mesma semana.Entre os que continuam está o ótimo O Gosto dos Outros, deAgns Jouï. Entre as novidades, O Fabuloso Destino de AméliePoulain, de Jean-Paul Jeunet, que poderá ser o representantefrancês no Oscar, competindo com outros possíveis indicados: oitaliano O Quarto do Filho, de Nanni Moretti, que estréiadia 15, e o brasileiro Abril Despedaçado, de Walter Salles,dia 22.Amélie arrebentou nas bilheterias da França. Virou manianacional e, com quase 8 milhões de espectadores, contribuiubastante para o sucesso do cinema francês nas telas do país em2001. O resultado obtido por Robert Guédiguian com A CidadeEstá Tranqüila foi bem mais modesto. O filme, que estréia amanhã, ficou entre 200 mil e 300 mil espectadores.Quando vir A Cidade você vai ver que é muito bom. É um filmedifícil pelo simples fato de colocar o espectador diante doespelho, mostrando a vida como é, na expectativa de que opúblico indignado tome consciência de sua situação e sintavontade de mudar essa realidade. Amélie maquia a realidade comrecursos publicitários e nisso vai toda a diferença.A reportagem esmiúça os dois filmes. Não há porque negarcerto valor a Amélie. É até curioso que as mulheres seidentifiquem mais com a heroína representada por Audrey Tautou.Nas sessões especiais do filme, foram elas que se encantaram como trabalho de Jeunet. Em Porto Alegre, Guédiguian destacou osignificado da resistência francesa a Hollywood. Com exceção daÍndia, a França é hoje o país que, em todo o mundo, possuinúmeros mais favoráveis para ostentar no campo da atividadecinematográfica. No Brasil, a participação do produto nacionalno mercado fica abaixo dos 10%, mas já chegou, nos anos 70, aquase 50%. Vários fatores contribuíram para isso.O preço do ingresso era mais barato e os filmesbrasileiros eram vistos pelo público popular. Faziam sucesso naperiferia. Hoje, não há cinemas na periferia nem nas pequenascidades. Existem as salas nos shoppings das grandes cidades e,aí, o interesse do público está voltado para o produtohollywoodiano, que chega cercado de uma carga publicitária quetorna necessário, vital mesmo, ver a última barbaridade servidacom o invólucro dos efeitos especiais. Por mais que a Françapossa ser um exemplo, as lições que tem a oferecer não seresumem só à ostentação dos números.Não há um só cinema francês, como não existe um sócinema brasileiro. Há filmes franceses e brasileiros. Os queestão em cartaz oferecem um espectro variado. Além das produçõesrecentes, estreadas ou por estrear - a relação inclui Faz deConta Que não Estou Aqui, também interessante, de OlivierJahan -, há uma ampla retrospectiva de Jean-Luc Godard, com 15filmes do mais revolucionário dos autores surgidos no cinema dosanos 60, incluindo o mais recente, O Elogio do Amor, no qualele faz um ataque virulento à máquina de Hollywood. A ressalva éimportante. Xuxa e os Duendes já ultrapassou os números deXuxa Popstar. É importante que isso ocorra, mas é poucoprovável que algum crítico ou espectador mais engajado vá acharque a salvação do cinema nacional deva vir da rainha dosbaixinhos.Em primeiro lugar, não devem haver filmes salvadores decoisa alguma. Filmes devem expor a diversidade da produçãocultural. São formas de afirmação da nossa identidade.Amélie fez mais sucesso do que A Cidade Está Tranqüilana França e, mesmo que venha a receber o Oscar, não será nuncatão estimulante quanto o filme de Guédiguian. O mesmo ocorre noBrasil com Xuxa e os Duendes. O sucesso de público não deveser o único e talvez não seja o melhor modo de aferir osignificado de um filme. Xuxa e Amélie podem ser bonspara o mercado, mas A Cidade Está Tranqüila e AbrilDespedaçado, que ainda está por estrear, são com certezamelhores para o cinema.

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