França celebra herdeira de Catherine Deneuve

Na definição de Claude Chabrol, a beleza incendiária de Emmanuelle Béart deve-se à combinação irresistível de "rosto de anjo e corpo de prostituta´´. Aos 35 anos e com 16 filmes no currículo, vários deles rodados com diretores de prestígio como Chabrol, Claude Berri, Jacques Rivette e Ettore Scola, a atriz não se contenta em ser a atual musa do cinema francês. Unindo beleza exuberante e talento dramático, ela se considera a herdeira do cinema de Catherine Deneuve."Não somos parecidas fisicamente, mas quero seguir os passos de Deneuve. Envelhecer nas telas, fazendo papéis extraordinários aos 30, 40 ou 50 anos´´, disse a atriz em entrevista à Agência Estado, concedida em Acapulco, no México, durante o 5.º Festival de Cinema Francês. "Ainda que Deneuve seja um mito, ela faz questão de manter os pés na terra, expondo sempre que pode uma faceta de mulher do dia-a-dia. Eu também sou assim."Com vestido estampado justo e de cara limpa, exceto por um brilho nos lábios - considerados os mais sensuais do cinema francês -, Béart falou da vida pessoal, da carreira, da experiência hollywoodiana (em Missão Impossível, ao lado de Tom Cruise) e dos filmes inéditos. Em As Três Irmãs, drama familiar que estréia em São Paulo no dia 19, ela interpreta uma filha que não se entende bem com o pai. Sua personagem em Les Destinées Sentimentales, ainda sem previsão de estréia no Brasil, é uma heroína romântica do início do século 20."Enquanto a produção de Les Destinées caprichou no meu guarda-roupa, abusando dos trajes épicos pomposos, a de Três Irmãs me deixou propositadamente sem graça. Nunca estive tão desleixada´´, comentou a atriz, que iniciou a carreira aos 18 anos, quase a contragosto. "Acabava de sair da escola e não sabia o que fazer da vida. Fiz um teste por acaso e dois meses depois estava trabalhando. Já me senti culpada por isso, sabendo que tanta gente batalha e não consegue. Então me esforço para merecer tudo o que me aconteceu.´´Como você escolhe os papéis, sabendo que os diretores podem escalá-la pensando inicialmente em sua beleza?Não sei ver a diferença entre o exterior e o interior de uma pessoa. Há uma bela citação, do ator Louis Jouvet, que diz: "Aos 20 anos, nós temos o rosto que os nossos pais nos deram, mas, aos 40, nosso rosto passa a refletir a nossa alma". E, como eu caminho para os 40, minha aparência espelha cada vez mais o que eu sinto. E os diretores devem se interessar por isso também. Pelo menos, eu espero que sim.Para aceitar um papel eu preciso me apaixonar por ele. É uma decisão emocional, carnal, de puro desejo. Em Les Destinées Sentimentales (de Olivier Assayas) fui atraída pela visão moderna do diretor sobre um romance clássico (de Jacques Chardonne). Aceitei o papel de As Três Irmãs (de Danièle Thompson) pela possibilidade de interpretar uma heroína do dia-a-dia, alguém mais próximo de mim.Como você concilia a carreira de atriz com o trabalho para a Christian Dior (ela é um dos rostos da divisão de maquiagem da marca) e com campanhas sociais (ela foi embaixatriz da Unicef e hoje atua em campanha pelos direitos dos imigrantes na França)?Sou mulher, mãe e atriz, mas não esqueço das minhas obrigações como cidadã. Todas essas facetas me ajudam a redirecionar a minha atenção constantemente. Como tenho uma vida privilegiada, sinto-me obrigada por vezes a olhar para os outros. E quando vejo coisas que me incomodam, tenho vontade de fazer algo. Gostaria de ter mais tempo para me dedicar a outras campanhas. Os problemas sociais dizem respeito a todos.Fora das telas, você não sustenta o glamour de uma estrela de cinema, principalmente se comparada às atrizes de Hollywood...Não tenho energia para gastar com a minha imagem, trabalhando uma atitude de estrela, por exemplo. O cinema é meu trabalho. Só isso. No fundo, sou tímida. Só sei representar em um set de filmagem. Fora, sinto-me ridícula. Talvez esse meu desprezo pelo glamour se deva ao fato de eu ter uma vida pessoal extremamente satisfatória. Tenho dois filhos (Nelly, com o ator Daniel Auteuil, e Johan, com David Moreau, seu atual companheiro) e adoro passar dias sem sair da casa, cozinhando para a família.As atrizes européias parecem levar vantagem sobre as americanas. Têm a possibilidade de envelhecer trabalhando, mesmo quando não são mais beldades. Concorda?Sim. Temos a sorte de ter um dos cinemas mais vivos e dinâmicos do mundo, que oferece excelentes papéis femininos. Embora seja uma indústria pequena comparada à dos EUA, ela oferece papéis para as atrizes de todas as idades. Hoje há jovens fazendo sucesso, como Elodie Bouchez. Mas a geração anterior, a minha, a de Juliette Binoche, a de Sandrine Bonnaire, a de Isabelle Adjani, continua ativa. Assim como atrizes mais veteranas, como Isabelle Huppert e, obviamente, Catherine Deneuve. É bom saber que nosso telefone não deixa de tocar quando nossa pele começa a perder o brilho.Foi isso que a desiludiu em Hollywood? Não quis tentar carreira nos EUA depois de ´Missão Impossível´?A minha incursão no cinema americano não foi um projeto de carreira. Foi resultado simplesmente de uma curiosidade. A produção desembarcou no meu país e me fez o convite. E quando uma janela se abre, eu tenho o hábito de olhar para ver a paisagem. Então me perguntei, "por que não"? Mas depois não senti motivação para continuar trabalhando em produções americanas. Nossa maneira de pensar é muito diferente. Nos EUA, eu teria de reaprender a arte de fazer cinema. E, para dizer a verdade, sinto-me velha para isso...

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