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Fragilizados, Vingadores precisam resolver diferenças em ‘A Era de Ultron’

Filme estreia nesta quinta-feira, 23

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

23 de abril de 2015 | 03h00

Há uma guerra de estúdios, Marvel e DC Comics, que se estabeleceram em Hollywood e comandam as franquias de sucesso. Você pode ficar falando de seus executivos e até dos super-heróis que atraem multidões aos cinemas. Não é o mais relevante. É bom substituirmos essa discussão por uma outra, sobre os ‘autores’. Christopher Nolan, JJ Abrams, Zack Snyder, Joss Whedon. Esse último é o diretor de Os Vingadores e de Vingadores – Era de Ultron. O segundo filme é ainda melhor que o primeiro.

Tudo é superlativo em Era de Ultron. É o filme mais longo da Marvel – 160 min – e também tem o maior número de efeitos. São 3.200 efeitos visuais contra 2.500 de Capitão América – Soldado Invernal. Isso corresponde a 20 efeitos por minuto, ou um a cada três segundos. De novo não é o mais importante, exceto, talvez, no começo. Era de Ultron rivaliza com Velozes e Furiosos 7 no que se refere à cena inicial. Alfred Hitchcock, na entrevista que deu a François Truffaut – e virou o livro Hitchcock Truffaut, ou O Cinema Segundo Alfred Hitchcock –, conta ao discípulo que desistiu de algumas histórias porque elas começavam num nível muito intenso e lhe parecia difícil, senão impossível, manter o espectador ligado, na mesma voltagem, o filme todo.

Jason Statham entra para arrebentar na primeira cena de Velozes e Furiosos 7. Era de Ultron também decola em plena batalha – os vingadores, todos os super-heróis da galáxia Marvel, atacam a fortaleza em que o vilão Van Strucker realiza experimentos e descobrem sua ... vulnerabilidade. Que mundo é esse em que até os super-heróis estão ficando frágeis? Os críticos reclamam, falam em cinema de fórmula, na repetição do que faz sucesso (e no acréscimo de explosões, tiros, naves, robôs). Mas o que Christopher Nolan, JJ Abrams e Joss Whedon estão fazendo é outra coisa. Os vingadores podem ter superpoderes, mas não conseguem resolver nem aspectos práticos das próprias vidas.

Bruce Banner, cujo alter ego é o poderoso Hulk, atrapalha-se todo com a viúva negra Natacha e não consegue dar conta dos sentimentos que sente por ela (e são recíprocos). Banner e Tony Stark, o Homem de Ferro, brigam e se agridem, um desconfiando do outro, e o mesmo ocorre entre Stark/Homem de Ferro e Steve Rogers/Capitão América. Motivo de piada, ao longo de todo o filme, é o machado de Thor, que nenhum outro super-herói consegue levantar, exceto o Visão. Todos esses super-homens e supermulheres se revelam presas fáceis para os gêmeos Maximoff e, no limite, é a consciência de Pietro e Wanda – ele chegará ao limite do sacrifício –, que vai permitir que todos se unam contra o maléfico Ultron. Só quando todos superarem suas diferenças e pegarem juntos – a união faz a força –, os vingadores vão ‘triunfar’.

É que, na realidade, e mesmo que entre eles exista até um alienígena (Thor), são demasiado humanos, dotados de sentimentos, de responsabilidade, de culpa. Os gêmeos não perdoam o Homem de Ferro porque as bombas de Tony Stark destruíram sua família. O Homem de Ferro tem um plano para a paz, mas é o que os fragiliza ainda mais. Quando ele decide agir pelo grupo, dá tudo errado – e Ultron se fortalece. Ultron também cria uma geração de robôs para ‘aprimorar’ o mundo. Ultron é tão megalômano quanto Stark/Homem de Ferro, mas a cria de Ultron vai se revelar a suprema consciência. Thor é o primeiro a perceber isso. Paul Bettany é Visão. Tinha de ser ele, o albino de O Código Da Vinci, o anjo caído de Legião. Bettany tem um rosto belo e harmonioso e a mais modulada das vozes. Reflete sobre tudo – vida e morte, finito e infinito, bem e mal. Vira o ‘centro’ do novo filme

Nessa pauleira toda, no infinitamente grande, Joss Whedon busca o ‘pequeno’. Já era o que Stanley Kubrick fazia em 2001, Uma Odisseia no Espaço, confrontando o macro e o microuniverso. Existem momentos em que a ação para e Banner e Natacha, e Banner e Stark falam. São todos bons, ótimos atores. Injetam drama na aventura. O mais ‘normal’, na falta de uma palavra melhor, dos vingadores é Jeremy Renner, como o Arqueiro. Ele tem uma ‘família’. É o que falta aos outros, mesmo que componham outra espécie de família. Joss Whedon criou um blockbuster com ‘camadas’. Há muito que usufruir em Era de Ultron, para além dos 3.200 efeitos.

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