Frágil suspense de "Casa de Vidro"

As rachaduras em A Casa de Vidro começam na piscadela que dão para a gente (ou pelo menos para quem sabe que em inglês "glass" é vidro). Na casa de Malibu, onde ocorre a maior parte da ação, mora uma família de sobrenome Glass e a construção tem janelas em vez de paredes. Mais fendas quando surge na tela um lugar-comum habitualmente suspeito: a cena que não tem nada a ver. Trata-se de uma seqüência de filme de terror que a protagonista, uma adolescente chamada Ruby, está vendo. Talvez tenham mostrado isso para deixar o público por alguns minutos sem prever o que vai acontecer em seguida. Ou seja, os outros 100 minutos de A Casa de Vidro, absolutamente previsíveis como um quebra-cabeças de duas peças. Ruby (a ótima Leelee Sobieski, tão boa atriz quanto Kirsten Dunst no recente Gostosa Loucura) e seu irmão Rhett perdem os pais num acidente de carro e o advogado da família (Bruce Dern) os informa que serão cuidados pelo casal Glass, amigos dos pais. Os adolescentes vão para Malibu morar na espetacular casa à beira-mar de Erin (Diane Lane) e Terry Glass (Stellan Skarsgard). Parece que chegaram ao paraíso, desde a limusine em que fazem a viagem às pirâmides de videogames que acolhem o garoto. É verdade que têm de dividir um quarto, mas praticamente todos os seus desejos juvenis são atendidos, do iMac ao delivery de pizza. Como esperado, as coisas começam a dar errado. Os Glass não são bem o que parecem (ele é um vigarista, ela é uma drogada), e, conforme Ruby vai descobrindo, Terry é muito interessado pela filha adotiva: pelo seu corpo de 16 anos e pelos US$ 4 milhões que tem de herança. Recorrer a Erin não adianta, pois esta é uma médica que vive se injetando pelos sofás de design escandinavo. E, como se vê, o casal planejou (?) o golpe todo. Poderia ser um thriller angustiante e eficaz, mas não é. É o tipo de filme em que os diálogos cruciais são entreouvidos pelas personagens que coincidentemente estão no lugar certo e na hora certa, em que sempre alguém vira no momento que não deve virar ou em que os adultos sempre são indignos de confiança, porque são maus ou trapalhões. Assim, não há vidraceiro que consiga recompor os cacos do roteiro que, pelo que foi noticiado, teve uma versão final a muitas e muitas mãos.

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