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'Foxcatcher', com 5 indicações ao Oscar, estreia no Brasil

Diretor diz que versão do caso Du Pont não pretende ser conclusiva

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

22 Janeiro 2015 | 03h00

Em outubro, quando Foxcatcher – Uma História Que Chocou o Mundo passou na Mostra de São Paulo, o Estado cravou as apostas de seu repórter – não apenas haveria indicações para o Oscar de melhor ator (Steve Carell) como também para filme, diretor e ator coadjuvante. Foxcatcher só não foi indicado para filme. Concorre a ator, diretor, ator coadjuvante, roteiro original e maquiagem. Carell, o diretor e roteirista Bennett Miller e Mark Ruffalo, que faz o irmão de Channing Tatum. 

O filme que estreia nesta quinta-feira, 22, se inspira numa história real. Em 1997, o milionário norte-americano John Eleuthere Du Pont, integrante de uma das mais tradicionais famílias da Pensilvânia (e dos EUA), foi condenado pelo assassinato de Dave Schultz, campeão olímpico de luta livre que fazia parte da equipe que ele criara – Foxcatcher – para resgatar, como dizia, os ‘valores mais puros da América’.

Ornitólogo – autor de diversos livros sobre pássaros –, filatelista e treinador esportivo, Du Pont começou a apresentar um comportamento paranoico, mas a fortuna, e o escudo da família, o blindaram até ele matar. Preso, permaneceu na cadeia até a morte, em 2010. Vivendo à sombra da mãe idosa, Du Pont foi um edipiano que muito possivelmente reprimia sua homossexualidade – e ela o levava a se cercar de todos aqueles jovens atletas de corpo perfeito. Ele atraiu os irmãos Schultz com a promessa de oferecer-lhes as melhores condições para que Mark, o lutador, e David, seu irmão treinador, pudessem aspirar ao ouro olímpico. Deu tudo errado. Du Pont tornou-se agressivo, autoritário e disparou contra David, matando-o.

A história atraiu o diretor Miller por combinar elementos de dois longas que fez antes – em Capote, inspirado no período em que o escritor Truman Capote acompanhou o julgamento que resultou na sua obra-prima de não ficção, A Sangue Frio, ele abordou a pena de morte; em O Homem Que Mudou o Jogo, contou a história de um revolucionário do esporte, que usou as estatísticas para, como diz o título, virar o jogo. O esporte, a pena de morte, a homossexualidade, tudo levava Miller a Foxcatcher. Em Cannes, no ano passado, onde o filme concorreu – e ganhou o prêmio de direção, mas ele ainda não sabia ao conversar com o repórter –, Miller explicou que a história, apesar de toda a mídia que teve na época, não é muito conhecida. O que ele fez foi juntar os pedaços conhecidos e dar a sua versão.

“Não creio que se possa dizer que as coisas foram exatamente assim. Ninguém sabe. Posso apenas arriscar e tentar ser acurado, mas ninguém consegue entrar na cabeça do outro. Já tinha ouvido falar em Du Pont, claro, mas nunca como um projeto. Há oito anos (agora quase nove – a entrevista foi em maio passado), alguém me deu um recorte de jornal dizendo que poderia ser interessante. O repórter lembrava o caso, e a cobertura da grande imprensa era toda baseada no fato de um dos homens mais ricos dos EUA ter sido condenado por assassinato, e num caso em que, mesmo não havendo dúvida de seu envolvimento, os motivos nunca foram muito claros. Isso, sim, me interessou. Como o projeto tardou, pois eu simplesmente não conseguia o dinheiro, tive tempo de (re)construir a trama e os itinerários dos personagens. Para mim, sempre foi uma história de pais e filhos, mais que de homossexualidade reprimida.”

E ele revela – “Desde que comecei a me envolver, nunca pensei em outro ator. Achava que Channing (Tatum) tinha o physique du rôle e o temperamento para fazer o papel. Steve (Carell) também se impôs, mas eu confesso que me deu mais trabalho convencê-lo, embora o desafio não fosse tirar Steve da sua zona de conforto. Ele realmente tinha necessidade de saber o que não podia lhe dizer, sobre as motivações profundas do crime. Pensei nele por causa de O Rei da Comédia, meu melhor (Martin) Scorsese. E não por causa de Robert De Niro, mas pelo próprio Jerry Lewis. Havia um Jerry Lewis antes e há outro depois. Nunca consegui vê-lo da mesma forma depois daquele filme. Felizmente, Steve entrou na minha viagem.”

O júri de Cannes, presidido pela cineasta Jane Campion, impressionou-se menos que a Academia de Hollywood com a transformação física de Steve Carell. Isso sempre conta pontos no Oscar, mas este ano tem um que se transforma mais que ele – Eddie Redmayne, o Stephen Hawking de A Teoria de Tudo. Carell desconversava, em Cannes. “Seria uma honra, mas tem muito chão pela frente.” Sobre o nariz postiço e demais transformações físicas, contou: “Eram três horas diárias de maquiagem. Usava esse tempo para tentar entrar na mente de Du Pont. Me via mudando e tentava decifrá-lo, mas ele permaneceu um enigma. Foi perturbador.” / L.C.M.

Cada uma das 5 indicações para o Oscar é merecida

Por Luiz Zanin Oricchio

Mark Shultz ganhou a medalha de ouro na Olimpíada de Los Angeles, em 1984, e deseja repetir o feito em Seul, em 1988. Treina com seu irmão, David, também medalhista. David, além de coach de alto nível, era também uma espécie de figura paterna para o irmão mais novo, imaturo e dependente. Para bagunçar esse equilíbrio fraterno entra em cena o magnata John du Pont, que se oferece para treinar e oferecer suporte financeiro a Mark. Foxcatcher – Uma História Que Chocou o Mundo, de Bennett Miller, descreve esse fato real, que, de fato, provocou comoção em seu tempo.

Du Pont é interpretado de maneira impressionante por Steve Carell.

John definia-se como um homem de mil e uma qualidades, além do fato, este real, de ser muitíssimo rico. Dizia-se escritor, ornitólogo, filatelista e, num dado momento, entende que pode ser treinador de luta greco-romana em nível de competição olímpica. Quem iria desmenti-lo? Poderoso, funda em sua propriedade, Foxcatcher (daí o título do filme), um time de lutadores de ponta que deverá honrar a bandeira americana na competição na Coreia.

Seu discurso é interessante. Um misto da ideologia do vencedor a qualquer custo, típica dos EUA, com tom nacionalista um tanto cavernícola. Discurso Tea Party aplicado ao esporte. Ecoa palavras que devem fazer algum sentido, e talvez muito sentido, para os ouvidos de jovens atletas em busca de dinheiro e sucesso. De qualquer forma, Du Pont dispõe do melhor argumento possível – a fortuna que lhe permite pagar bolsas milionárias aos protegidos. Estes passam a morar em chalés da propriedade e a treinar no próprio ginásio de Du Pont. Tanta proteção é paga na moeda da fidelidade absoluta ao mentor. Desse modo ele se define: treinador, mas, mais que isso, mentor, uma espécie de líder espiritual e psicológico daqueles garotos.

Se a interpretação de Carell impressiona, as de Channing Tatum como Mark Schultz, e Mark Ruffalo como David, não ficam atrás. Carrel afina seu personagem como alguém naturalmente superior aos outros. Sente que as pessoas existem para servi-lo e aos seus anseios. Um discreto tom insano passa por sua postura corporal e, sobretudo, por seu olhar.

Tatum compõe um lutador que abriga uma personalidade frágil no corpo forte. Parece sempre a ponto de implodir. E Ruffalo faz de modo marcante o irmão compassivo, esteio do carente Mark.

Daí se vê que, mais que relato sobre bastidores do esporte (há disso, também), Foxcatcher é um filme sobre o embate psicológico entre os personagens. Por um lado, os dois irmãos – de temperamentos diferentes –, vindos da pobreza e dispostos a segurar com as duas mãos as chances que a vida oferece. Por outro, o milionário, acostumado a manipular e impor seus desejos. Cabe lembrar que o nome de sua propriedade – Foxcatcher – evoca a “nobre” caça à raposa, esporte preferido da aristocracia europeia. Du Pont é um predador, cujas presas raramente estão à vista.

Bennett Miller filma Foxcatcher como Capote e O Homem Que Mudou o Jogo, dois dos seus filmes já lançados no Brasil. Minucioso, trabalha no levantamento obsessivo dos detalhes que, a seu ver, emprestam verossimilhança à narrativa. É uma opção. Não surta com teorias nem parte para explicações psicológicas que poderiam ser mais ou menos convincentes. Limita-se a apresentar fatos de maneira objetiva, como deveria fazer uma narrativa jornalística.

Com essas qualidades, Foxcatcher mereceu cinco indicações para o Oscar: direção (Bennett Miller), ator (Steve Carell), ator coadjuvante (Mark Ruffalo), roteiro original e maquiagem. Carell e Ruffalo talvez sejam boas apostas. Mas pegam pesos pesados pela frente. / L.Z.O.

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