Don Peterson
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Fotos de documentário sobre Billie Holiday são restauradas por profissional brasileira

Marina Amaral trabalha na equipe do diretor James Erskine colorindo imagens da intérprete para documentário

Eliana Silva de Souza, O Estado de S.Paulo

17 de fevereiro de 2021 | 05h00

Existem aqueles artistas que marcaram sua trajetória não apenas pelo trabalho de excelência realizado, mas também por transmitirem algo a mais com suas performances e pela vida que levaram. Entre tantos nomes que se enquadram na observação, certamente Billie Holiday transbordou sentimentos em suas interpretações, permanecendo como um dos grandes nomes do jazz. Muito já se falou sobre ela, mas nunca é demais poder entrar em contato com sua arte e ter detalhes de sua vida e de sua carreira musical. Ainda sem data para estrear, o documentário Billie será mais uma oportunidade de conhecer a intérprete, que colocava a alma em suas interpretações. 

Nesse novo olhar sobre a diva americana, o diretor James Erskine agregou a sua equipe a brasileira Marina Amaral, especialista em colorizar fotografias antigas. Reconhecida por seus trabalhos na área, como foi o caso do Faces of Auschwitz (Rostos de Auschwitz), projeto anterior desenvolvido em parceria com o museu Auschwitz-Birkenau, da Polônia, e que devolveu cores às vítimas do Holocausto. O convite para participar do documentário foi feito a ela em 2018. “Eu estava em Londres para lançar meu primeiro livro e me chamaram para uma reunião, me apresentaram todo o projeto, que estava em pós-produção, e me explicaram que precisariam de alguém para fazer a colorização das fotos”, conta Marina, explicando que também supervisionou esse processo nos vídeos.

A mineira de Belo Horizonte nem pensou muito para aceitar o novo trabalho, embarcando de corpo e alma, pronta para conhecer a fundo Billie Holiday. “O diretor me contou toda a história da Billie, que eu não conhecia muito bem até aquele momento, e combinamos logo de cara que faria essa parceria e, de 2018 até o finalzinho de 2019, eu passei esse tempo inteiro trabalhando no filme”, revela Marina, que conversou, por telefone, com o Estadão, sobre esse mais recente projeto e de como desenvolve seu trabalho de colorização.

Ao ver o resultado de colocar cores em fotos de Billie Holiday, algumas questões surgem, afinal, como é possível colorir objetos, adereços, de outra época se não se tem referência visual sobre tais? E a jovem Marina, de 26 anos, explica que não é apenas “brincar de colorir”, trata-se de se aprofundar na história da personagem e dos anos em que viveu. Foi um período de verdadeira imersão na vida da cantora, que contou, como sempre faz a profissional, com a parceria de alguns historiadores. Nada podia ser feito aleatoriamente, mas sim, com profundidade, aproximando ao máximo as imagens da realidade que se vivia na época.

Usando apenas Photoshop, Marina se debruçou sobre cada uma das cerca de 120 fotos escolhidas para integrar o documentário. Ela mesma participou dessa seleção de algumas, em um trabalho de curadoria, avaliando cada uma das imagens para saber se haveria possibilidade de restauro. “Eu fiz todas elas, uma por uma, mas também tinham os vídeos, mas como é uma técnica muito diferente da minha, eu não sou especializada na colorização de vídeos, nessa parte eu atuei mais como uma diretora artística, eu supervisionei o processo, escolhi as cores básicas que seriam usadas, e meio que defini a atmosfera que a gente estava buscando, trabalhei em conjunto com o estúdio na Índia, que coloriu de fato os vídeos”, diz. 

Autodidata, Marina Amaral revela que esse processo de colorização das fotos de Billie Holiday exigiu muita pesquisa histórica, pois não há muita foto colorida da cantora. “Mais do que ter essa avaliação histórica, precisei fazer escolhas artísticas, isso em relação a cores da maquiagem, da roupa, então, eu tive bastante liberdade exatamente por não ter muita referência para eu seguir”, explica a colorista, que precisou fazer essa combinação entre pesquisa histórica e liberdade para realizar seu objetivo.

Marina confessa ser avessa à ideia de utilizar novos recursos existentes no mercado, como programas com inteligência artificial, que colorem as fotos automaticamente. Para ela, essa alternativa é até um desrespeito, pois não leva em consideração o contexto histórico. “Então eu faço tudo manualmente mesmo”, enfatiza ela. E conta que, dependendo da foto, em um retrato comum, pode levar de uma a duas horas para fazer, no entanto, uma mais complexa, chega a terminar em semanas. “Tenho todo esse cuidado para garantir que o resultado final seja o mais realista possível e que a pessoa vai olhar a imagem e vai sentir que aquela foto em questão foi tirada naquela época de fato.” Ao admirar uma fotografia em preto e branco, a colorista diz que consegue respeitar o fotógrafo e aspectos artísticos daquela imagem no formato original. “Mas quando eu vejo a foto colorida, é uma coisa completamente diferente, eu tenho reações emocionais que não tenho com foto sem cores.”

Recentemente, Marina recebeu o diagnóstico de autismo, fato que a ajudou a entender sua “obsessão pelo trabalho” que escolheu fazer. “Fiquei envolvida de uma forma muito intensa e agora sei que isso se deve ao autismo também. Eu acho que foi uma combinação de fatores que fez com que minha carreira virasse o que virou e hoje eu possa trabalhar com isso.” 

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