Fotógrafo carioca dá o tom à tristeza americana

Uma das razões para as excelentes críticas que o filme Ghost World, de Terry Zwigoff, vem recebendo nos Estados Unidos, onde estreou no dia 20, é a fotografia do carioca Affonso Beato. Parceiro de Glauber Rocha, Jim McBride e Pedro Almodóvar nas fases mais maduras de suas carreiras, Beato assessora agora Zwigoff a encontrar as cores tristes e dessaturadas da vida suburbana americana e tema reinstaurado após o sucesso de Beleza Americana e Felicidade."Beato exercita um fascinante imaginário caseiro - com as cores saturadas e a integridade deslavada de um filme super-8 num formato de 35 mm", escreveu o crítico do matutino de economia The Wall Street Journal. O fotógrafo também foi elogiado pelo jornal Los Angeles Times e pela revista Time, que chama um plano das ruas da cidade de Los Angeles povoadas de fast food de uma das imagens "mais sugestivas e depressivas" do filme.Ghost World representa a estréia de Zwigoff no mundo dos longas-metragens de ficção. Mas quem já é familiarizado com esse nome sabe que o diretor americano é o criador do cult documentário Crumb, rodado em 1994, e que narrava a história do cartunista malucão Robert Crumb. Em Ghost World, Zwigoff, que também é cartunista, vale-se do comic book homônimo do underground Daniel Clowes (que também co-assina o roteiro) para criar a história de duas amigas adolescentes e protótipos da alienação que acompanha a idade: Enid (numa grande interpretação de Thora Birch, que foi a filha de Kevin Spacey em Beleza Americana e agora desponta como a nova Christina Ricci do pedaço) e Rebecca (Scarlett Johansson, filha de Kristin Scott Thomas em O Encantador de Cavalos). Recém-graduadas no colégio, ambas tentam encontrar empregos para se manter num apartamento só delas. Rebecca consegue um bico como caixa numa cafeteria, mas Enid ficou de "recuperação" e precisa fazer um curso de verão de educação artística. Depois de passar um trote num quarentão solitário, Seymour (Steven Buscemi), que procura uma namorada pelos classificados dos jornais, Enid acaba se afeiçoando por esse homem, obcecado em colecionar raros discos de vinil de jazz e country. Tudo isso se passa numa Los Angeles bem retrô, ou, como Beato chama, "bem pop triste"."Para compor um pouco dessa atmosfera da arquitetura americana plastificada, recorro muito às cores primárias, com uma saturação específica e que retrata bem essa cultura desalentadora de shopping center", explica Beato, por telefone, do Rio, onde ele se encontra rodando alguns comerciais e em conversas para fotografar o novo filme de Carlos Diegues, Deus É Brasileiro. "Estudei o comic book de Clowes, que é muito bonito e todo sombrio, com azuis acizentados, ou seja, um expressionismo bem sóbrio, mas decidi ficar um pouco longe daquele universo." Beato, que já conhecia (e tinha curtido muito) o documentário Crumb, foi uma das três alternativas de diretor de fotografia oferecidas pela produtora Lianne Halfon (o ator John Malkovich também é produtor do filme) a Zwigoff. "Lianne é minha amiga e me colocou numa lista que também incluía Vilmos Zsigmond", explica Beato sobre o fotógrafo de Contatos Imediatos do Terceiro Grau. "A minha entrevista foi por telefone e, para minha surpresa, fui o escolhido." Apesar de um clima triste, Beato considera Ghost World um filme otimista e classifica Zwigoff como um diretor humanista. Outro projeto que Beato finalizou este ano foi a comédia A View from the Top, dirigida por Bruno Barreto e estrelada por Gwyneth Paltrow. O filme, que está sendo montado nos EUA, tem estréia prevista para março de 2002. "É o segundo trabalho que faço com Bruno (os dois trabalharam juntos em Além da Paixão) e foi uma experiência excelente", explica. "O filme é engraçado, o primeiro teste foi muito bom e Bruno conseguiu arrancar uma grande interpretação de Gwyneth que, aliás, é uma tremenda profissional." No fim das filmagens, Beato foi presentado por Gwyneth com uma camiseta da seleção brasileira.Às vésperas de assinar com Diegues para rodar Deus É Brasileiro, Beato também fotografou no Rio algumas campanhas publicitárias, entre elas a de uma marca de tintura para cabelos, dirigida por Andrucha Waddington. O recém-lançado DVD do show de Caetano Veloso também contou com a participação de Beato.Indagado se sabia a última sobre Almodóvar, Beato disse que, às voltas com discussões com a equipe de Diegues, não teve tempo de ler sobre a acusação de que a produção do cineasta espanhol teria matado quatro touros durante as filmagens de seu novo filme, Hable con Ella. Beato acredita ter sido pouco provável. "O que não falta ao Pedro é piedade", diz. "O cara, além de sensível, foi muito sofredor. Ser gay na época de Franco, período de uma repressão enorme, não foi fácil para ele. E Pedro é muito piedoso."Depois de ter rodado os três últimos filmes de Almodóvar - Flor de Meu Segredo, Carne Trêmula e Tudo sobre Minha Mãe -, Beato não assinou para mais uma parceria. É o espanhol Javier Aguirresarobe quem agora trabalha com Almodóvar (o último trabalho de Aguirresarobe, The Others, dirigido por Alejandro Amenábar e estrelado por Nicole Kidman, acabou de ser selecionado para o Festival de Veneza). "Não fui convidado, mas também nem acho que estava interessado por causa do esquema da produção", explica Beato. "É inegável que Pedro me ajudou muito, que impulsionou minha carreira. Mas, depois de vencer o Oscar, todas as portas do mundo cinematográfico foram abertas para Pedro, que preferiu voltar ao tempo de seus primeiros filmes e fazê-lo com recursos caseiros, o que não me interessava." Beato, entretanto, deverá trabalhar com Almodóvar na estréia do cineasta em Hollywood - talvez o próximo projeto do espanhol.

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