Merrick Morton/20th Century Fox via AP
Merrick Morton/20th Century Fox via AP

'Ford vs Ferrari' tem a sombra de John Ford, o cineasta

Quando os últimos tornam-se os primeiros, é tempo de, 'fordianamente', celebrar a grandeza dos derrotados

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

15 de novembro de 2019 | 06h00

Diante de um filme como Ford vs Ferrari, a primeira reação é tentar alinhá-lo com a América conservadora que colocou Donald Trump no poder. “Make America Great Again”. Que outro sentido poderia haver na história de um veterano empreendedor – Henry Ford II – que decide quebrar a invencibilidade italiana nas 24 horas de Le Mans? Logo no começo, Mr. Ford faz um discurso para os operários da fábrica que herdou do pai. Está todo mundo com a cabeça a prêmio. Só restarão os criativos, que souberem enfrentar os desafios do mercado (nos anos 1960!). Logo segue-se a história do piloto e do designer de carros que vão aceitar o desafio, construindo o modelo para vencer a prova de resistência de Le Mans – 24 horas no volante.

E aí sente-se a mão do diretor. James Mangold subverte o que parece ser o próprio discurso. Substituiu um Ford, Henry, por outro – John. O Homero das pradarias. O mestre do western. O que John Ford tem a ver com Le Mans. Nada ou tudo. Christian Bale, o piloto, e Matt Damon, o sócio na construção do bólido, partem para o soco. A mulher de Bale, Catriona Balfe, pega uma cadeira para assistir de camarote. Em O Aventureiro do Pacífico, de 1963, John Wayne e Lee Marvin também partem para o pau. Posto que agem como crianças, Elizabeth Allen dá a cada um deles um carrinho.

A luta é pela vitória, mas os motivos de Bale e Damon não são os mesmos do executivo a quem Henry Ford II dá a condução do programa. A vitória vem, claro, e não há nenhum spoiler. A novidade é que há um tapetão. Quando os últimos tornam-se os primeiros, é tempo de, “fordianamente”, celebrar a grandeza dos derrotados.

Para apreciar o filme, o espectador não precisa ter nenhuma dessas referências. A história sustenta-se, mas está tudo lá. A relação pai-filho, de Bale com seu garoto, tão cara a Mangold, que já abordou o assunto em Logan e Os Indomáveis, também com Bale. No ano em que parece que Joaquin Phoenix, por Coringa, vencerá o Oscar – mas é preciso esperar pelas indicações –, Bale poderia ser o único a tirar-lhe o prêmio. Por que não? E, curiosidade, outro recente grande filme sobre automobilismo – Rush, de Ron Howard sobre a rivalidade de James Hunt e Niki Lauda – também deve tudo a Ford, sendo a versão quatro rodas de O Homem Que Matou o Facínora.

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