‘Ford vs Ferrari’, com Matt Damon e Christian Bale, fala de amizade e sonho

Filme dirigido por James Mangold, o mesmo de 'Logan', mostra embate entre ‘artistas’ e corporações; veja o trailer

Mariane Morisawa, Especial para O Estado de S. Paulo

15 de novembro de 2019 | 06h00

LOS ANGELES — Christian Bale é fã de esportes em geral e, sendo galês, costumava assistir às corridas de Formula 1 – tanto que ele começa a entrevista sobre Ford vs Ferrari, que se passa no mundo do automobilismo, falando de sua admiração por Ayrton Senna e perguntando quem são seus herdeiros no Brasil. Fica abismado ao saber que não há pilotos brasileiros hoje na Formula 1. “Como assim, tem de ter algum!”, diz em entrevista ao Estado.

“Assistir às corridas era um momento de me conectar com meu pai”, conta o ator, que parou de seguir a Formula 1 ao se mudar para os Estados Unidos. “Aí comecei a ver corrida de motocicleta e a andar de moto, mas parei depois de um acidente.” 

Seu companheiro de elenco, Matt Damon, ao contrário, nunca foi de acompanhar corridas. “Mas não acho que o filme seja só para fãs de automobilismo”, diz o ator americano. “Eu não sou e fiquei muito emocionado com o roteiro.”

O filme dirigido por James Mangold (Garota Interrompida, Os Indomáveis) aborda a lendária 24 Horas de Le Mans. Damon é Carroll Shelby, o primeiro americano a ganhar a prova, que é obrigado a deixar o automobilismo por causa de problemas de saúde e começa a construir carros em parceria com o piloto e mecânico inglês Ken Miles (Bale). 

Quando a Ford começa a ficar para trás, nos anos 1960, com seus carros pouco sexy, seu diretor de marketing, Lee Iacocca (Jon Bernthal), convence o presidente Henry Ford II (Tracy Letts) a entrar no ramo das corridas. Primeiro, eles tentam comprar a Ferrari, sendo passados para trás pela Fiat. Depois, resolvem montar seu próprio time, contratando Shelby para construir um carro capaz de bater a Ferrari. 

Mas Ken Miles, rebelde que fala o que pensa e não se conforma com a estrutura corporativa, não é o garoto-propaganda ideal, mesmo sendo o melhor piloto. “Levei meu filho de 8 anos para assistir ao filme, e ele ficou revoltado com a injustiça de não quererem que Ken pilotasse o carro”, conta Bernthal. “Ele era o melhor piloto e conhecia o carro como ninguém. Acho que isso fala muito sobre a rigidez da cultura corporativa daquele tempo, e também de um mundo dominado por homens brancos.”

Josh Lucas, que faz o diretor de corridas da companhia, Leo Beebe, principal opositor de Ken, diz que a resistência a Miles, aberto, emotivo, sempre de camiseta e jeans, vinha da noção do que era ser um homem na época. “Para aqueles caras, Miles representava a direção errada para os Estados Unidos. Ele era uma ameaça à sua identidade. Então tem tudo a ver com o que se passa hoje.”

Shelby e Miles eram como água e vinho, em termos de personalidade – e, de certa forma, os atores que os interpretam também. “Christian tem uma volatilidade inata, enquanto Matt tem um jeito tranquilo, quase zen”, diz Mangold, que prefere em geral escolher atores com estilos e energias diferentes. A dinâmica dos dois personagens estava bem estabelecida no roteiro, segundo Matt Damon. “Foi muito fácil colocar em pé esse relacionamento.”

Para James Mangold, que também não é fã de corridas de automóvel, o filme oferecia uma oportunidade única em termos de visual, por causa da beleza e do dinamismo dos carros em velocidade. E ele tentou fazer o máximo sem efeitos especiais. “Porque é melhor para os atores se eles estiverem em lugares de verdade e não em estúdio. Não é a mesma coisa dirigir com o vento e a areia na cara e com o sol mudando de lugar conforme eles fazem a curva, ou cercado de tela verde”, diz o diretor. 

Mas foram outras coisas que fizeram com que se interessasse pelo projeto. Não é difícil traçar um paralelo entre a luta de Shelby e Miles para fazer sua arte, um carro de corrida perfeito, para uma grande corporação, e a jornada de um diretor ou ator para conseguir fazer suas obras em Hollywood. “Esse foi o grande atrativo para mim”, confessa o cineasta. “Reconheço um certo paralelo com minha vida. Eu também convenci empresas a fazerem grandes investimentos em minhas empreitadas artísticas, sem garantia de retorno para eles. Quando mostram fé em você, é preciso entregar. Apesar de não haver praticamente risco de morrer dirigindo um filme, você pode desaparecer se não tiver sucesso. Então até me identifico com Shelby e Miles na questão da mortalidade.” 

Matt Damon conta que muito se conversou sobre isso no set do filme. “A dinâmica em Hollywood é muito similar.” Segundo Bale, é preciso aprender a navegar essa dinâmica. “Você precisa estar pronto para a barganha”, diz. “Fazer cinema custa muito dinheiro, mesmo os de orçamento baixo. As pessoas hipotecam suas casas pela segunda vez para fazer filmes. Há muita coisa em jogo. Você aprende a transformar a frustração em motivação, porque não somos bebês querendo brincar e destruir tudo.” 

Para Tracy Letts, que também é dramaturgo, um artista americano passa muito tempo vendendo. “É capitalismo”, afirma. “Quando minhas peças são montadas na Europa, a maior parte do dinheiro vem de subsídios do governo. Nos Estados Unidos, temos de aprender a jogar dentro da estrutura.”

Ford vs Ferrari é um dos últimos filmes produzidos pela Fox antes da compra pela Disney. Ninguém sabe se a Disney vai continuar apostando em produções como esta, ou se optará apenas por financiar longas de propriedades Marvel, como X-Men, e continuações, como Avatar

O diretor e os atores tinham plena consciência de como é raro ver um filme desses feito hoje em dia. “Este roteiro estava rodando fazia tempo, mas ninguém queria financiar”, afirma Bale. “Finalmente, o estúdio se dispôs a se arriscar, colocando a quantidade de dinheiro necessária para um filme de automobilismo que, no fundo, é sobre sonhadores, desajustados e amizades.” 

‘Compartilho da preocupação de Scorsese’, diz diretor James Mangold

James Mangold dirigiu Wolverine: Imortal e Logan, mas concorda – em parte – com as críticas que Martin Scorsese fez aos domínios dos blockbusters. Scorsese chegou a dizer que os filmes da Marvel nem eram cinema. “Acredito que seu artigo no The New York Times foi bem mais claro do que sua fala. E eu compartilho sua preocupação”, afirmou Mangold. 

O diretor de Ford vs Ferrari só acha que as críticas não deveriam ser dirigidas apenas ao cinema baseado em quadrinhos. “A maioria das comédias, comédias românticas, aventuras, filmes infantis, animações parece ter sido feita num laboratório”, disse ele.

Para James Mangold, nem todo filme aspira ser Cidadão Kane. “E Marty sabe disso, porque é capaz de falar com a mesma paixão de O Monstro da Lagoa Negra ou A Bolha Assassina quanto de Renoir.” 

A real discussão, segundo Mangold, tem a ver com a presença nas telas. “Sempre houve filmes ruins ou que só queriam dinheiro. Mas eles não dominavam tudo. A questão é que agora eles ocupam todas as telas, ao ponto de alguém como Martin Scorsese estrear um longa que vai ficar apenas 30 dias nos cinemas nos Estados Unidos, e depois as pessoas vão ter de assistir na TV’’, diz o diretor.

Veja o trailer de Ford vs Ferrari:

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'Ford vs Ferrari' tem a sombra de John Ford, o cineasta

Quando os últimos tornam-se os primeiros, é tempo de, 'fordianamente', celebrar a grandeza dos derrotados

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

15 de novembro de 2019 | 06h00

Diante de um filme como Ford vs Ferrari, a primeira reação é tentar alinhá-lo com a América conservadora que colocou Donald Trump no poder. “Make America Great Again”. Que outro sentido poderia haver na história de um veterano empreendedor – Henry Ford II – que decide quebrar a invencibilidade italiana nas 24 horas de Le Mans? Logo no começo, Mr. Ford faz um discurso para os operários da fábrica que herdou do pai. Está todo mundo com a cabeça a prêmio. Só restarão os criativos, que souberem enfrentar os desafios do mercado (nos anos 1960!). Logo segue-se a história do piloto e do designer de carros que vão aceitar o desafio, construindo o modelo para vencer a prova de resistência de Le Mans – 24 horas no volante.

E aí sente-se a mão do diretor. James Mangold subverte o que parece ser o próprio discurso. Substituiu um Ford, Henry, por outro – John. O Homero das pradarias. O mestre do western. O que John Ford tem a ver com Le Mans. Nada ou tudo. Christian Bale, o piloto, e Matt Damon, o sócio na construção do bólido, partem para o soco. A mulher de Bale, Catriona Balfe, pega uma cadeira para assistir de camarote. Em O Aventureiro do Pacífico, de 1963, John Wayne e Lee Marvin também partem para o pau. Posto que agem como crianças, Elizabeth Allen dá a cada um deles um carrinho.

A luta é pela vitória, mas os motivos de Bale e Damon não são os mesmos do executivo a quem Henry Ford II dá a condução do programa. A vitória vem, claro, e não há nenhum spoiler. A novidade é que há um tapetão. Quando os últimos tornam-se os primeiros, é tempo de, “fordianamente”, celebrar a grandeza dos derrotados.

Para apreciar o filme, o espectador não precisa ter nenhuma dessas referências. A história sustenta-se, mas está tudo lá. A relação pai-filho, de Bale com seu garoto, tão cara a Mangold, que já abordou o assunto em Logan e Os Indomáveis, também com Bale. No ano em que parece que Joaquin Phoenix, por Coringa, vencerá o Oscar – mas é preciso esperar pelas indicações –, Bale poderia ser o único a tirar-lhe o prêmio. Por que não? E, curiosidade, outro recente grande filme sobre automobilismo – Rush, de Ron Howard sobre a rivalidade de James Hunt e Niki Lauda – também deve tudo a Ford, sendo a versão quatro rodas de O Homem Que Matou o Facínora.

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Presente em 'Ford vs Ferrari', corrida de Le Mans é ‘menina dos olhos’ de montadoras

Vale tudo para vencer corrida com duração de 24 horas, que surgiu em 1923 com inconformismo de três franceses

Almir Leite, O Estado de S. Paulo

15 de novembro de 2019 | 06h00

Os amantes do automobilismo convergem em muitas coisas. Mas há uma divergência de décadas, que, parece, será eterna, quando o tema é a corrida mais charmosa do mundo. Os mais jovens defendem o GP de Mônaco de F-1. Os “antigos” nem discutem. Para eles, não há nada igual às 24 Horas de Le Mans.

Seja como for, o fato incontestável é que a maratona sobre quatro rodas que teve sua primeira edição em 1923 faz parte da “alma’’ do automobilismo de competição.

A prova existe por causa do inconformismo de três franceses – Georges Faroux, Charles Durand e o jornalista Emile Coquile – com a pouca resistência dos carros de rua da época. Então, com apoio do Automóvel Clube local, foi proposto então o desafio: uma prova de resistência (endurance, em francês) como o objetivo de mostrar que os carros aguentavam o tranco. Nascia, assim, as 24 Horas de Le Mans.

A origem da prova é a melhor explicação para o empenho da indústria automobilística em fazer sucesso nela. Le Mans serve como laboratório, como base de desenvolvimento. Carro que vence as 24 horas é eficiente, confiável. Ganhar Le Mans significa sucesso de vendas para a marca – com seus outros modelos. Montes e montes de dólares no caixa. Pode tirar uma empresa do buraco.

Por isso, é comum que fábricas tenham suas “divisões Le Mans’’, destinadas a desenvolver o melhor conjunto carro/motor para fazer sucesso na pista de 13,6 km do Circuit de La Sarthe, nas cercanias de Le Mans, cidade a 209 km de Paris.

Vale tudo para isso. Gastar milhões em desenvolvimento, contratar os melhores profissionais de engenharia e técnicos a peso de ouro, pagar fortunas para ter os principais pilotos e, dizem, até falcatruas, sabotagens e aliciamento de pessoas.

Fábricas marcaram época em Le Mans. Entre elas Porsche, BMW, Audi, Bentley, Jaguar, Toyota (vencedora das duas últimas edições). E, claro, Ferrari e Ford (como demonstrado no novo filme de James Mangold, Ford vs Ferrari).

Para o público, é uma experiência marcante acompanhar a maratona, às vezes sob sol, noutras sob chuva, com frio, calor – e em muitas ocasiões tudo isso no mesmo pacote. 

Le Mans tem disputas, heróis, vilões, dramas e, às vezes, até tragédias, como de 1955, quando 84 pessoas morreram em consequência de um acidente entre dois carros na reta principal do circuito, o pior da história do automobilismo – naquela época, assistia-se as provas quase dentro da pista e um dos carros voou em chamas sob os espectadores. Assim, quem quiser, e/ou puder, já pode se programar para a próxima Le Mans. A largada da 88.ª edição será em 13 de junho de 2020, um sábado.

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