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'Força Maior' traz relações gélidas que revelam calor de ressentimentos

Filme estreia nesta semana nas salas brasileiras

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

05 Março 2015 | 03h00

Prêmio do Júri na mostra Un Certain Regard de Cannes e indicado pela Suécia para concorrer ao Oscar de filme estrangeiro, Força Maior, de Ruben Östlund, mostra excepcional vitalidade em seu diagnóstico da moderna família ocidental.

A história é a de um casal e dois filhos que passam férias numa estação de esqui francesa. Logo na chegada, como a mulher diz a uma amiga, será ocasião para o pai se dedicar um pouco a ela e ao casal de filhos, pois vive ocupado, trabalha demais. Logo o espectador verá que essa convivência se dará, sim, ao longo de alguns dias, mas não sem problemas. E mesmo com um questionamento de ordem maior: o papel de provedor e protetor atribuído por tradição ao pai segue intacto no mundo contemporâneo? Ou mudou, como mudaram outras relações? 

Idealmente, o filme deveria se chamar Avalanche, pois é durante uma queda de neve (talvez controlada, para dar emoção aos hóspedes) que tudo se precipita. Literalmente. De qualquer forma, natural ou simulada, a avalanche é assustadora. As pessoas não têm tempo para reagir diante de uma impressão de ameaça evidente e seguem seu instinto de sobrevivência. Depois terão de viver com isso e enfrentar as consequências. 

O filme é sobre isso: quanto se paga por um impulso de momento, mas que pode funcionar como retrato cruel da personalidade do protagonista. Tem algo do lendário Lord Jim, de Joseph Conrad, em que um ato de covardia precisa ser resgatado em uma segunda chance, caso esta apareça. 

Força Maior trabalha no registro gélido próprio à sua ambientação. As paisagens nevadas dos Alpes são, decerto, deslumbrantes. Mas estão lá por sua função narrativa, ao mostrar o homem perdido numa imensidão que o transcende e esmaga. Ou simplesmente o anula. As relações humanas são igualmente frias, porém revelando o calor de ressentimentos antigos logo abaixo da linha de superfície. Não por acaso, lembramos de Ingmar Bergman e sua radiografia da crueldade do casal, em diversas ocasiões (Cenas de um Casamento, Morangos Silvestres e um pouco em toda a sua obra). Há crueldade na maneira como esses ressentimentos são expressos de modo a humilhar publicamente o parceiro. Mas há também a piedade humana na maneira como os laços podem ser reatados. Um belo e inquietante filme. 

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