BAFTA/REUTERS
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‘Foi uma utopia’, diz Nicolas Becker sobre a montagem do filme O Som do Silêncio

O supervisor de som francês fala sobre o trabalho em equipe durante a criação do filme de Darius Mader e como conseguiu alcançar sons tão particulares no drama

Ana Lourenço, O Estado de S.Paulo

23 de abril de 2021 | 05h00

É estranho parar para pensar que o cinema surgiu sem o som. Só depois de muito tempo de filmes mudos é que o áudio se juntou ao visual e passou a entregar ao público ainda mais informações sobre a narrativa. No entanto, até hoje, existe uma ideia de que o som complementa o vídeo e não o contrário -  conceito que é totalmente quebrado no filme O Som de Silêncio, de Darius Mader, com supervisão de som de Nicolas Becker. 

Muito além do assunto principal ser a surdez, o estilo do longa-metragem é uma mistura entre realidade e ficção, o que exigiu trabalho conjunto entre todos seus elementos - câmera, som, luz, movimentos, roteiro - e muita pesquisa por parte da direção. De acordo com Becker, a coletividade é a razão pelo sucesso do filme. Mas fato é que, a qualidade da execução do som, que teve impacto fundamental na narrativa, foi feita pelas experiências do especialista em áudio francês.

Nicolas Becker já teve título de Foley Artist ou sonoplasta (profissional responsável por efeitos sonoros), designer de som, engenheiro de som e compositor. Além disso carrega em seu currículo filmes de sucesso como O Ódio de Mathieu Kassovitz, que ganhou o César, o Oscar francês, de Melhor Filme em 1995;  O Pianista, de Roman Polanski; Um Plano Complicado, de Jean-Pierre Jeunet; Gravidade, de Alfonso Cuarón; A Chegada, de Denis Villeneuve, que ganhou Oscar de Melhor Edição de Som em 2017; O Jardineiro Fiel, de Fernando Meirelles; 127 horas, de Danny Boyle; e muito mais.

Para o futuro, Becker tem planos de fazer um filme com a diretora de fotografia e atriz brasileira Carolina Costa. Mais uma de suas parcerias com profissionais brasileiros. “Eu tenho muitos amigos brasileiros que moravam em Paris e voltaram”, explica. Da amizade com a diretora de cinema Gabriela Greeb, surgiu a participação como criador de som no documentário Hilda Hilst Pede Contato. No mesmo ano, em 2018, ele fez a sonoplastia de Amazônia Groove, documentário de Bruno Murtinho sobre a cultura da região. Sua participação mais recente em obras cinematográficas brasileiras foi ano passado, quando ele compôs a trilha sonora de Casa de Antiguidades, drama de João Paulo Miranda Maria.

No presente, o especialista em aúdio afirma estar feliz de colher os louros de seu primeiro filme americano como supervisor de som, ‘O Som do Silêncio’. “O fato de que no Bafta ganhamos melhor som, mas também melhor edição é muito legal porque eu vejo que as pessoas entendem que não é sobre indivíduos, mas sim sobre o time que trabalhou de um jeito super colaborativo”, conta ele em entrevista para o Estadão. Confira, abaixo, a conversa na íntegra.

Oi, Nicolas. Muito obrigada por aceitar essa entrevista. 

Obrigado, eu. Estou um pouco norteado porque ultimamente tem sido três ou duas entrevistas todos os dias nos últimos três meses, mais ou menos, então tem sido uma maratona, sabe? Mas tudo bem porque ninguém quer falar de som, ninguém liga muito, então eu acho muito legal que dessa vez as pessoas queiram saber mais.

É verdade. Afinal, nesse filme o som é essencial e existe uma conversa entre a imagem e o som, coisa que não é muito comum, né? 

Em primeiro lugar tem essa importância do som, porque o assunto do filme é surdez. E eu acho que o fato de ter só um personagem principal também faz com que o filme fique super subjetivo e faça a gente explorar essa perspectiva. Darius é um diretor que adora explorar, sabe? Em poucos filmes eu tive esse nível de imersão. Realmente, como você falou, é algo super raro. Eu me sinto abençoado que Darius me convidou para participar; e faz sentido, porque eu já tinha experiência com filmes nos quais você entra dentro da cabeça do personagem.

Você também já foi sonoplasta, certo? 

Sim. Recentemente eu fiz algumas coisas para Oxygen (filme que será lançado em 12 de maio deste ano pela Netflix), mas hoje em dia eu faço uma vez por ano, não é tão comum. Em A Chegada eu fiz porque se você me propor qualquer filme de ficção científica, eu estarei feliz em ajudar. Desde criança eu sou apaixonado por 2001: Uma Odisseia No Espaço, Aliens, Blade Runner. Para mim era algo que eu via e falava: “quero fazer isso algum dia”.

Que interessante porque em filmes como esses, os barulhos são construídos, são irreais, mas em O Som do Silêncio, os sons são super reais. 

Eu diria que tem duas coisas que eu realmente gosto de trabalhar. A escola de documentários, onde você tem que fazer coisas super realistas - e por isso eu gosto tanto de trabalhar com a diretora inglesa Andrea Arnold. Fizemos, por exemplo, o filme Docinho da América. Ali você tem que sentir que é o agora, o real, orgânico e imprevisível. E o outro lado que eu adoro trabalhar, como fiz em Gravidade e A Chegada, é quando você tem que ser capaz de realmente criar coisas. Então você pensa: ‘ok, estamos no espaço, não tem nenhum som. Como colocamos áudio nisso?’. É muito legal porque é pura invenção, imaginação e eu amo isso. Então esses dois contrastes, sabe? De criar coisas que não existem ou tentar traduzir algo que é tão imprevisível e complexo como a vida. Eu não sou muito chegado nesses filmes do meio, que tentam ser ilustrativos.

Em O Som do Silêncio foi realmente um trabalho de equipe, né? 

É muito importante em um filme entender todos os seus tópicos e o objetivo do diretor, saber onde ele quer chegar. Em termos de storytelling e em termos de emoção, ou seja, em como ele quer que as pessoas se sintam com o filme. É sobre como você faz as coisas, como você trabalha com as pessoas. Gosto muito de locais onde eu trabalho de um jeito colaborativo.

E eu vi que vocês conversaram com pessoas com implantes para entender tudo... 

Sim, sim. O Darius preparou esse filme por 12 anos, ou seja pensou nesse filme por 12 anos. Ele é uma pessoa muito inteligente, e o irmão dele também é super esperto e é músico. Então quando eles vieram falar comigo, eles já sabiam tudo de tudo. Claro que, eles trocaram comigo as informações, e a gente conversou com pessoas que podiam ouvir e se tornaram surdas e elas explicaram mais essas questões. Eu também fiz muita pesquisa e como eu gosto de experimentar bastante - não gosto de fazer muitos processos no computador -, e também por conta da minha prática de foley, né, eu passei muito tempo recriando diferentes perspectivas. Então eu criei microfones, fiz testes, encontrei um estetoscópio e levei para a filmagem para gravar o Riz [Ahmed] e fazer esse som interno dele. 

E falando do aspecto físico, tem algo bem específico que é o fato de que Riz e Olivia [Cooke] realmente aprenderam a tocar música. Não era um playback. Eles estavam tocando de verdade. E isso foi muito importante no jeito que ele se movimenta. Você percebe que ele fica olhando mais as coisas, observando tudo. Sabíamos que ele tinha que ser super realista com a atuação, então a gente criou um ponto eletrônico para enviar pra ele um ruído e ele poder diferenciar os níveis de sons. Por isso ele tem essa performance incrível, porque realmente está acontecendo naquele momento.

Você também teve experiência com trabalhos debaixo d’água.

Sim, sim. Porque quando você está perdendo a audição, o som continua indo para o seu tecido, para sua cabeça. É muito parecido com quando vamos para debaixo d'água, porque você recebe vibrações e o cérebro transforma isso em som. Sabe, durante um bom período da minha vida eu estava criando muita biblioteca de sons para grandes supervisores de sons ou grandes designers de som. E eu tinha que achar sons para coisas diversas. Então por dez anos, meu trabalho era procurar sons reais, de uma forma muito divertida.

Já fui pra Amazônia gravar pássaros, debaixo da água, para o deserto, gravar o vento… Era minha vida normal. E isso te permite criar coisas  que são mais baseada em memórias subjetivas. Não é tanto algo como ‘ah, tem um gato, vou colocar um barulho de gato’, porque isso é bem ilustrativo. Pra mim é muito sobre o sentimento da coisa, não é sobre criar claridade nas coisas, mas também criar mistério e opacidade. É uma mistura. Às vezes você precisa dar informação, e às vezes você esconde informação.

E é perceptível isso. Porque a câmera trabalha muito com o áudio durante todo o filme.

Eu acho que uma coisa que é muito importante hoje em dia é que nos anos 60 você tinha essa geração de pessoas que queriam mudar o mundo de um jeito bem radical e eu acho que talvez, agora, ser radical é se aproximar de algo muito mais complexo. Como, por exemplo, criar diferença entre a realidade e a ficção.

Eu tive que assistir duas vezes. Uma na televisão e outra no computador, com fone de ouvido. 

Faz diferença mesmo. Eu espero que as pessoas também tenham a experiência de ver o filme no cinema. Logo depois de termos ganhado o Bafta, eles colocaram o filme no cinema em Londres. Então várias pessoas vão ter essa oportunidade lá. E é um filme que foi feito para o cinema, sabe? A mixagem, o conceito, é muito mais impressionante num cinema de verdade.

Em português o filme chama o Som do Silêncio e já vamos falar sobre isso, mas em inglês é Som do Metal. O nome se baseou no estilo musical do protagonista? 

Sim, total. Mas é muito mais complexo, porque o diretor explica que ‘Sound’ é a primeira parte do filme, porque você ainda tem som. A próxima é off (desligado em inglês; apenas com um f seria a proposição ‘de’), porque não tem som. E então é a parte do implante coclear que é metal. Mas claro que tem os significados de metal também, claro. 

Realmente existem essas partes bem demarcadas e tudo isso mudando de perspectiva. Às vezes dentro da cabeça dele e outras vezes fora.

Sim, porque na vida, somente quando você perde algumas coisas que você dá valor. Então às vezes é feito de um jeito para dizer ‘ok, se você está perdendo a audição, ou algo difícil está acontecendo na sua vida, você precisa aprender como ser resiliente e não ficar tentando recuperar algo que foi perdido’. Mas, em outras vezes é também para mostrar a plateia ‘ei, você é sortudo, você pode escutar, então aproveite esse momento. Tem tantas coisas lindas para serem escutadas o tempo todo! Então dê atenção’. 

Mas existe o silêncio também que é extremamente importante no filme. Só no final é o que? Uns três minutos de completo silêncio?

Sim. E essa era a ideia. Tem uma peça famosa de John Cage chamada 4 minutos e 33 segundos, na qual tem uma orquestra completa preparada para tocar e o maestro começa e vem o silêncio. E tem existe tanta tensão, as pessoas da platéia começam a conversar, alguns tossem, então é um jeito de entender que a música também pode ser uma intrusa. O som sempre está lá, a gente só precisa prestar atenção. Se você quiser entender música, você também precisa entender o que diz antes e depois, o que é o silêncio. É silêncio, realmente?

Genial. Mas esse não será o seu primeiro Oscar, né? E sim, já digo no futuro porque eu acredito que você vai vencer.

(risos) Realmente. Mas os outros eu era membro do time, eu não era o supervisor de som. E eu já fiz grandes filmes com essa função na França ou na Inglaterra, mas para ser nomeado ao Oscar, precisa ser um filme americano. Esse foi o meu primeiro filme americano como supervisor de som e eu sou muito sortudo porque está ganhando toda essa atenção. E eu estou muito feliz porque não é um grande filme com várias explosões. É muito mais interessante estar sendo nomeado com um filme independente, super específico e feito de uma maneira conjunta, sabe? E o fato de que no Bafta ganhamos melhor som, mas também melhor edição é muito legal porque eu vejo que as pessoas entendem que não é sobre indivíduos, mas sim sobre o time que trabalhou de um jeito super colaborativo. Foi realmente uma utopia, uma experiência mágica, daquelas que você procura por toda sua vida. Aconteceu comigo quatro ou cinco vezes e essa é a exata razão do porquê eu estou trabalhando, sabe? É a razão pela qual eu sou apaixonado em fazer filmes por tantos anos. E a coletividade é a razão do porque esses filmes foram tão bons.

E para finalizar me conta desse seu amor pelo Brasil. Vi que você tem vários amigos aqui e participou de vários filmes brasileiros.

Sim. Eu passei muito tempo no Brasil, sabe? Durante o filme de Gabriela Greeb. Tenho muitos amigos aí que moravam aqui em Paris e voltaram. Aliás, meu próximo trabalho deve ser com a Diretora de Fotografia brasileira Carolina Costa.

Então na próxima vez que você puder visitar, se tudo estiver melhor, a gente faz a entrevista ao vivo.

Combinado. Até lá.

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