"Fogueira", filme candidato de Israel ao Oscar

Candidato de Israel à indicação do Oscar de 2004 na categoria de melhor filme estrangeiro, Fogueira leva a assinatura de Joseph Cedar, diretor israelense nascido em Nova York. É bem interessante. Nos últimos anos, o cinema produzido por Israel tem-se reduzido quase exclusivamente aos filmes de Amos Gitai que passam em mostras e chegam ao circuito comercial. Gitai é um crítico duro da sociedade israelense e da condição feminina nessa sociedade. Joseph Cedar também chega para falar sobre mulheres. Elas são três - uma viúva judia e suas duas filhas, que habitam uma comunidade religiosa na Cisjordânia. Logo no começo, a mãe faz segredo de sua condição civil ao negociar o carro que o marido deixou e que está atirado a um canto, sem serventia. Ela tem motivos para isso. A condição de viúva a torna particularmente vulnerável na preconceituosa sociedade israelense de 1981, época em que se passa a ação. Essa condição inferior da mulher numa sociedade teocrática também se encontra, por exemplo, em Kadosh, de Amos Gitai, mas lá é enfocada do ponto de vista das esposas de judeus ortodoxos, submetidas à dura disciplina dos maridos tirânicos. Aqui, Cedar fala preferencialmente das mulheres entre elas e de como se relacionam com o mundo. O carro, naturalmente, não está lá por acaso. Tem valor simbólico que ajuda a discutir o papel das mulheres numa sociedade controlada pelos homens e na qual elas são cidadãs de segunda classe. A relação com as filhas é complicada. A mais velha se relaciona com um militar, a mais jovem está com os hormônios em ebulição, prestes a realizar o rito de passagem com seu primeiro amor de adolescência. As atrizes são boas (Micaela Eshet, a mãe; Maya Maron, a primogênita; Hani Furstenberg, a caçula) e o diretor soma à qualidade da interpretação a dele próprio como observador social. Pois para Cedar sua história não vale só pelas mulheres, mas como espelho no qual é possível refletir um país inteiro. Todas as turbulências políticas e sociais que atingiram Israel no começo dos anos 1980 de alguma forma aparecem na tela - por meio de diálogos ou ações. E há uma forte presença masculina nesta trama. É a de um solteirão cinqüentenário que oferece à protagonista a possibilidade de encontrar alguma felicidade, mesmo que haja um preço a pagar por isso - que é o de viver fora dos padrões aceitos convencionalmente. O resultado é atraente. Não por acaso, Fogueira chega aos cinemas brasileiros precedido da boa repercussão que obteve em vários eventos e festivais internacionais. Fogueira ganhou uma menção no Festival de Berlim do ano passado e levou o troféu da Fipresci (a Federação Internacional da Imprensa Cinematográfica) no Festival de Chicago. Em Israel, recebeu cinco prêmios da Israeli Film Academy, incluindo o de melhor filme do ano. Vale a pena conferir suas qualidades. Fogueira (Medurat Hashevet, Isr/2004, 96 min.). Dir. Joseph Cedar. 14 anos. Cotação: Bom

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