Florinda, do Ceará para a Itália, e de volta

Perguntaram, certa vez, a VittorioDe Sica por que havia escolhido Florinda Bolkan para o papel daoperária de Amargo Despertar. Com tantas atrizes italianastalentosas, por que recorrer a uma brasileira? Ele foi sucinto:"Porque ela tem olhos de quem conheceu a fome."A cearenseFlorinda Bulcão, que se tornou internacionalmente conhecida comoBolkan, nunca passou fome na vida. Nascida em Uruburetama, naregião serrana do Ceará, essa filha de poeta e político sempreteve o conforto da família e fartura à mesa. "Mas eu via amiséria dos outros todo dia; foi uma experiência que memarcou." Florinda fala com a reportagem no Hotel Ceasar Park, emSão Paulo. Garante que tem conhecimento de causa para fazerfilme sobre o sertão nordestino. Preferiu colocar na tela ocosmopolitismo de Fortaleza. Seu longa de estréia na direção -outro já está a caminho - chama-se Eu Não Conhecia Tururu.Estreou há dez dias em São Paulo. Está em uma sala, apenas: oEspaço Unibanco 5. Fala sobre família e carências afetivas, pormeio de mulheres que põem na tela a nova face urbana deFortaleza. "Encontro hoje lá mulheres exatamente iguais àquelascom quem convivo em Roma; não há mais aquele provincianismo dosanos 1960, na época em que comecei minha carreira." E que carreira! A ex-aeromoça da Varig falava tão bemdiversas línguas que passou a ser usada nos vôos internacionais.Uma troca de escala, de última hora, salvou-a de morrer numacidente, no Peru. Florinda desistiu de ser aeromoça e,aconselhada pela amiga Regina Rosemburgo, mais tarde Lecléry,foi morar em Paris e, depois, em Roma.Em Ischia conheceu umjovem e belo ator austríaco, Helmut Berger, protegido de um dosmaiores diretores de cinema do mundo. Em pouco tempo, Florindaestava freqüentando a casa de Luchino Visconti. "Saíamos de lápara dançar a noite toda." Foi Visconti quem descobriu, nela, aatriz. Propôs-lhe um teste para um papel em Os DeusesMalditos, sua ópera antinazista.Florinda se lembra até hoje,a foto está em seu site. Ela está nua diante do espelho e, umpouco atrás, o homem que a olha é Visconti. "Fiquei tímidadiante do espelho, mas ele disse que não seria jamais uma atrizse tivesse vergonha de expor meu corpo; o corpo do ator é seuinstrumento de trabalho." Currículo - Fala com entusiasmo sobre Visconti, o grandeartista. Aprendeu a conviver com suas contradições. "Ele tinhao coração na esquerda, adorava o povo, mas nunca abriu mão deviver como o aristocrata que era, desde o berço." Com De Sica,a experiência foi diversa, mas igualmente marcante. "Aocontrário de Visconti, a origem dele era humilde e De Sicasempre permaneceu fiel a ela, mesmo depois que virou um grandeator e diretor. O que ele gostava mesmo era de colocar pessoashumildes na tela."Só os filmes com esses dois diretores jáornamentariam com honra o currículo de qualquer atriz, mas houveoutros. Dividindo a cena com Gian-Maria Volontè, protagonizouInvestigação sobre um Cidadão acima de Qualquer Suspeita e ofilme de Elio Petri ganhou o Oscar de melhor produçãoestrangeira. Abriu as portas de Hollywood para Florinda e elafilmou com astros como Omar Sharif e Kirk Douglas.Os melhoresfilmes, porém, continuaram sendo feitos na Itália. Por dois,dirigidos pelo ator Enrico Maria Salerno, Anônimo Veneziano eCaros Pais, ganhou em dois anos seguidos, 1972 e 73, o prêmioDavid di Donatello, o Oscar do cinema italiano. Virou mito naItália, chamada de La Bolkan, com a mesma reverência que ositalianos têm diante de suas deusas: La Loren, La Cardinale, LaLollobrigida. "Fui adotada por eles e também adotei a Itália, porquea gente só gosta de quem gosta de nós." Mas nunca abriu mão dabrasilidade. "Nesse sentido, sou como um homem que tem a mulhere a amante." Continuou vindo ao Brasil. Construiu uma casa noCeará, em Quixadá, de frente para o mar. Tem outras casas emRoma e em Bracciano. Filma preferencialmente na Europa.NoBrasil, depois de muitos projetos frustrados, fez Bela Donna, sob a direção de Fábio Barreto, "mas o filme não ficou bom",reconhece. Acumulando as funções de atriz e diretora fez agoraEu Não Conhecia Tururu. Apesar dos defeitos, o filme revelauma sensibilidade feminina não negligenciável. Por meio dahistória de quatro irmãs e seus homens - amantes, maridos,amigos gays -, Florinda diz coisas importantes sobre anecessidade de amor das pessoas, das mulheres principalmente, esobre a diversidade sexual. Como a personagem que interpreta é uma cearense quevolta da Itália com uma namorada, a associação é automática. Ofilme só pode ser autobiográfico. Não é: "Tem coisas queocorreram comigo, com pessoas amigas minhas, mas eu não souaquela personagem."Nunca fez segredo de suas preferênciassexuais, mas também nunca vestiu a camiseta da militâncialésbica. A condessa Marina Cicogna, que produzia filmes, foiinfluência fundamental em sua vida, mas há que prestar atenção àresposta que deu a uma jornalista norte-americana que lheperguntou se era homossexual. "Tem dias em que gosto de homens,tem outros em que quero variar, fugindo ao feijão com arroz." Hora certa - O cinema não era uma meta a ser alcançada.Ocorreu meio por acaso. "A Regina (Rosemburgo) sim, queria seratriz." Mas foi ela quem virou estrela. "Foi uma questão deestar na hora certa com as pessoas certas."Tudo ocorreurapidamente. Num momento, ela era uma jovem insegura, que viviafazendo planos que não levava adiante e não sabia o que queriada vida. No seguinte, Visconti despiu-a de sua insegurançadiante da câmera e provou que a garota de Uruburetama podia sermaravilhosa. Foi o que ela escreveu numa carta ao grande diretor, pouco antes da morte dele. Em reconhecimento ao apoio que tevedo cineasta, Florinda escreveu para Visconti: "Para mim, vocêfoi, você é, único." Seu tipo físico, a beleza morena, agreste, chamava aatenção dos cineastas. Logo no primeiro ano, fez cinco filmes.Mal desvestia uma personagem e já estava na pele de outra. Tudomuito rápido para alguém que, como ela chegou a dizer um dia, sóqueria ficar sem fazer nada. Adquiriu a fama de guerreira semdeixar de ser uma mulher doce.Eu Não Conhecia Tururu, comomuita coisa em sua vida, não foi uma obra planejada. Começou afazer anotações, a escrever. O racconto, como define, foitomando a forma de roteiro. Fez um filme sobre mulheresconvencida de que a mulher conhece melhor do que o homem a almafeminina. "A gente vê o tempo todo homens contando históriasdeles e mostrando como imaginam que as mulheres sejam. Não somosassim." E acrescenta: "Uma mulher sabe melhor as dores, asalegrias, as desilusões e os desesperos das outras mulheres. Agente se conhece e também tem as irmãs, as amigas para espelhara complexidade e a diversidade do universo feminino." Asmulheres do filme são várias. Vivem em função do amor. "É danatureza da mulher: o homem é caçador, a mulher é a presa."Eventualmente, certas mulheres são caçadoras. A personagem queela interpreta, por exemplo. E certos homens são as presas, comoDodô, o costureiro gay que Fernando Alves Pinto interpreta.Florinda pode espelhar-se e espelhar as amigas nas mulheres doseu filme, mas admite que Dodô é seu personagem mais querido. Éuma súmula de muitos gays que conheceu. Gente sensível,talentosa, cujos sonhos foram destroçados pela realidade. Diz afrase mais impactante de toda a entrevista: "Pasolini não foiassassinado só em Ostia; nas praias do Ceará, também."Serviço - Eu Não Conhecia Tururu. Comédia de costumes. Direçãode Florinda Bolkan. Brasil/2000. Duração: 100 minutos.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.