Florinda Bolkan fala sobre seu filme

Com mais de 50 filmes no currículo, alguns delesdirigidos por mestres como Luchino Visconti e Vittoriode Sica, a atriz cearense Florinda Bolkan agora buscareconhecimento atrás das câmeras. Eu Não ConheciaTururu, seu longa-metragem de estréia na direção, foiexibido na 28º edição do Festival deGramado. "Estou colocando o meu filme no mundo.Agora ele é dono das próprias pernas´´, disse Florinda,pouco antes da projeção que lotou o Palácio dosFestivais.A atriz que vive na Itália desde 1967 retorna às origensao dirigir essa comédia de costumes. A história dafamília de classe média alta que se reúne para ocasamento de uma das irmãs é ambientada no Ceará.Acumulando as funções de diretora, roteirista eprotagonista, Florinda interpreta uma escritora quechega da Itália, onde acaba de lançar um livro desucesso. "Mas, por mais que a história lembre algumasde minhas experiências, não se trata de umaautobiografia´´, contou, puxando um leve sotaqueitaliano.Enfocando o universo feminino, o filme parte de umreencontro para trazer à tona os conflitos, as frustraçõese os sonhos das personagens. Nos papéis das irmãsestão Ingra Liberato, Suzana Gonçalves e Maria ZildaBethlem, com quem Florinda se desentendeu duranteas filmagens. "É um assunto superado. O que importa éque o filme saiu´´, contou a diretora, que espera lançá-lono circuito comercial em São Paulo até novembro. Leia,a seguir os principais trechos da entrevista.O que a motivou a dirigir o seu primeiro longa?O ator se vê tantas vezes atrás das câmeras,principalmente quando entra em choque com a visão dodiretor. Todo ator já teve vontade de fazer uma cena deuma forma diferente. Alguns brigam no set e outros secalam e esperam a chance de um dia fazer o seu filme.Este foi o meu caso. De repente, fiquei com vontade defazer tudo do meu jeito.O título é vago. Como nasceu a idéia?Tururu é uma pequena cidade perto de onde eu nasci,Uruburatama, no Ceará. Tururu era um ponto depassagem que, de um dia para outro, se tornouimportante. E eu me lembro de ter visto isso como umproblema, já que eu não conhecia Tururu. A partir dessalembrança, escolhi o título, ainda que ele não tenha nadaa ver com o contexto. Nem rodei em Tururu. A cidadesó aparece no filme quando a história está prestes atermina, quando as irmãs vão embora. Optei por umavisão onírica da felicidade em Tururu, já que a cidade éuma resposta ao desejo de cada uma delas.Morando na Europa há tanto tempo, por que vocêdecidiu rodar seu longa no Brasil. Seria um resgate desuas raízes?Sem dúvida. Decidi buscar a minha raiz, aquela maisprofunda. Mas sem desconsiderar o meu olharcosmopolita, por ter viajado o mundo inteiro. Posso vero claramente as mudanças no Ceará de hoje. Aspessoas de fora tendem a ver o Ceará como um Estadoarcaico e miserável. Mas as coisas não são mais assim.As minhas amigas que ficaram lá evoluíram. Elas viajam,compram o que querem, se vestem bem. Então eu quismostrar esse Ceará que vai muito bem obrigado.Até que ponto você se inspirou nos grandes cineastasque a dirigiram ao longo da carreira, como LuchinoVisconti e Vittorio de Sica?Com Luchino aprendi a admirar a música clássica,elemento que eu aproveito no meu filme. A forma deintroduzir a música no longa como um todo com certezaeu tirei dele. De Vittoria eu tirei essa tendência dealiviar a dor com o riso. Eu aprendi com ele a não levaro drama até o esgotamento. Porque, do contrário, a vidafica chata demais.Por ser uma atriz de reputação internacional, vocêpensa em levar o filme para a Europa?Fiz o filme para o mundo. Não tenho medo do mercadoeuropeu, mas admito que tenho receio de que osestrangeiros não entendam a minha mensagem. Por issoconto principalmente com o público brasileiro. Se elenão entender, é pouco provável que os outrosentendam. Não acho que será difícil vender a produçãono exterior, levando em conta a minha trajetória, masprefiro esperar a repercussão no Brasil. Mas jáconsegui colocar o filme em festivais. Em setembro, porexemplo, estarei em San Sebastian.É verdade que você se desentendeu com Maria Zildaantes das filmagens?Ela teve um sério atrito com a produção. Maria Zildateve um comportamento pretensioso, como se fosseuma Julia Roberts. Mas eu preferi não me envolver, jáque o meu filme era mais importante do que tudo.O desentendimento não interferiu no resultado?Eu esperava um clima diferente durante as filmagens,mas tenho de admitir que Maria Zilda teve um ótimodesempenho. Apesar de ela ter despontado como aovelha negra na produção.

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