Florinda Bolkan ajuda a escolher melhores filmes da Mostra

Seu filme mais recente já tem três anos e Florinda Bolkan não tem muito apreço por Cattive Inclinazione, de Mirta Valenti. O filme conta a história de um assassinato com vários suspeitos. O diretor é gay. "O problema não é este; o imperdoável é ser banal, o que ele é, e o filme também." Talvez o conceito de banalidade de Florinda seja baseado no alto grau de exigência de quem chegou ao cinema pela mão de Luchino Visconti e, depois, trabalhou com outros grandes - Elio Petri, Vittorio De Sica. Com Petri, ela fez Investigação sobre Um Cidadão acima de Qualquer Suspeita, que venceu o Oscar de melhor filme estrangeiro de 1970 e virou um marco do cinema político italiano da época. Florinda veio a São Paulo com dupla missão - para homenagear Petri na retrospectiva da 30.ª Mostra e, como jurada, para participar da escolha do filme, ou dos filmes, que receberão o troféu criado por Tomie Ohtake, Bandeira Paulista. Idade indefinível - na certidão está escrito que nasceu em 1941, em Uruburetama, no Ceará -, Florinda continua tão bela como quando o repórter a entrevistou, em 1993. Estava na cidade para lançar seu livro sobre culinária, que se chama justamente À Mesa com Florinda. Ela continua apreciando os prazeres da boa mesa? "Adoro cozinhar. Em casa, faço a comida. Só quando estou no Ceará deixo que façam para mim, mas aí é a comida caseira, da minha infância." Florinda está imersa em plena maratona da Mostra. Desde domingo, está assistindo a uma média de três filmes por dia, para dar conta dos 14 que foram selecionados pelo público e que precisam ser assistidos até amanhã, já que quinta-feira à noite ocorre a premiação e o júri precisa ter tempo para deliberar. O ritmo é puxado, mas ela gosta - "Estou vendo filmes a que talvez não tivesse chance de assistir", explica. Ela já participou de muitos júris. Qual foi o mais recente? Qual o filme que premiou? Não adianta perguntar. Florinda é péssima para datas, nomes. Antigamente, tinha Marina (a condessa Marina Cicogna, que a introduziu no cinema) para lembrá-la. Agora tem Anna (a princesa Anna Chigi) para assessorá-la. Ambas são sócias num empreendimento que está afastando Florinda do cinema. Florinda e Anna possuem esta casa no campo, distante 50 km de Roma. Instalaram um haras para criar cavalos de salto. Florinda é louca por cavalos, por selas. Esteve há pouco em Santa Fé, no Texas, e comprou duas, maravilhosas. Os cavalos fazem parte de sua infância, no Ceará. O pai tinha dois, nos quais a menina Florinda gostava de cavalgar, naquele tempo em que nem sabia que conquistaria o mundo. Uma condessa, agora uma princesa. Como é possível que uma cearense do sertão se sinta tão à vontade entre a nobreza européia? "Mas eu comecei com Luchino (Visconti), que era um aristocrata!", Florinda exclama. A princesa acrescenta - "Ela tem bom gosto." A entrevista está sendo realizada no lounge da Mostra, no sexto andar do Shopping Frei Caneca, deserto nesta hora da tarde. Como quem quer entrar na conversa, está ali a cachorrinha, branca, peluda, que Florinda trouxe da Itália. É o seu xodó. Foi batizada por Anna. "Que nome você quer dar?", perguntou Florinda. "O daquela cangaceira", respondeu Anna. Maria Bonita? Não, Carlota Joaquina. Florinda estoura numa gargalhada gostosa. Rainha, cangaceira, é tudo a mesma coisa e a piada é tanto melhor porque quem a diz é uma princesa de verdade Carlota Joaquina tem crachá próprio (com direito a foto!) para entrar nas sessões do júri, já que Florinda tem pena de deixá-la sozinha, no hotel. Que filme Florinda pretende premiar? "Um que seja empegnato (engajado intelectualmente, socialmente, politicamente). Que seja novo e me surpreenda", ela diz. O que é a vida para Florinda, que foi tão longe? Ela cita Belanera, uma cantora que faz sucesso atualmente na Itália. "La vita é extraordinária", canta Belanera. Florinda concorda. E acrescenta sua receita - viver um dia de cada vez. Carpe Diem, como dizia Robin Williams em Sociedade dos Poetas Mortos.

Agencia Estado,

01 Novembro 2006 | 11h57

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