Florinda Bolkan abre Festival do Ceará

Uma prata da casa abre sexta-feira à noite o 10.º Cine Ceará - Eu não Conhecia Tururu, primeiro longa-metragem dirigido pela estrela da terra, Florinda Bolkan. Numa trama ficcional, mas pontuada por referências autobiográficas, Florinda conta a história de quatro irmãs que voltam a se encontrar depois de anos de separação. Sintomaticamente, ela faz o papel da mulher que viveu muitos anos na Itália e retorna para ver a família. Qualquer semelhança não é mera coincidência. Contracenam com Florinda, Maria Zilda Bethlem, Susana Gonçalves e Ingra Liberato. Comenta-se, nos bastidores, que o ambiente no set não foi dos melhores - teria passado do familiar ao belicoso sem transições. Resta ver se esse clima hostil influiu, ou não, no resultado do jogo. Tururu passa fora de concurso. Os longas que competem na Mostra Internacional de Novos Talentos - em geral a principal atração do festival cearense - são: Garage Olimpo, de Marcelo Bechis (Argentina), Glória, de Manuela Viegas (Portugal), Jeanne e o Garoto Formidável, de Jacques Mateneau (França), Un Paraíso Bajo las Estrellas, de Gerardo Chijona (Cuba), e O Dia da Caça de Alberto Graça (Brasil). Entre eles, dois são conhecidos: Garage Olimpo, que tem feito boa carreira internacional evocando os anos de chumbo na Argentina, e o thriller nacional O Dia da Caça, que já passou por algumas mostras e tem estréia marcada para São Paulo na sexta. O primeiro evoca o clima ora abertamente terrível, ora kafkiano, do tempo do regime militar argentino. A garagem, a que se refere o título, é simplesmente a fachada para uma câmara de tortura para onde eram levados os suspeitos de conspiração contra o regime. Clima sufocante, indigesto, para uma denúncia reiterada contra as ditaduras latino-americanas.No encerramento do festival, quinta-feira próxima haverá outra grande atração - Eu, Tu, Eles, de Andrucha Waddington, o mais festejado dos filmes brasileiros que participaram do recém-encerrado Festival de Cannes. Ganhou uma menção honrosa da seção Un Certain Regard, atribuída por um júri presidido pela atriz Jane Birkin. Mais que o prêmio, importante foi a recepção favorável do público europeu a essa história de uma mulher nordestina que vive em paz com seus três maridos. O papel principal é defendido pela global Regina Casé, que é esperada em Fortaleza.Também fora de concurso, o festival promove uma série de pré-estréias de filmes nacionais. Entre eles estão Estorvo, de Ruy Guerra, que passou por Cannes, mas não teve a mesma recepção agradável de Eu, Tu, Eles; Notícias de uma Guerra Particular, impactante mergulho no mundo do tráfico de drogas, assinado por João Moreira Salles e Kátia Lund; Cruz e Sousa, o Poeta do Desterro, imersão de Sylvio Back no universo simbolista do escritor catarinense, e Por trás do Pano, comédia romântica de Luiz Villaça.A série de pré-estréias poderia ser até mais interessante, não fossem duas defecções de peso - O Rap do Pequeno Príncipe contra as Almas Sebosas, de Paulo Caldas e Marcelo Luna, e Amélia, o esperado novo filme de Ana Carolina estavam no programa, mas foram cancelados. O motivo das desistências? Rap do Pequeno Príncipe teria compromissos agendados no Recife, onde foi rodado. Já para a ausência de Ana Carolina não há explicações. A não ser que ela tenha resolvido "poupar" o longa para festivais de maior prestígio, como o de Gramado, que será realizado em agosto.Na competição de curtas-metragens um fato a ser destacado é a ausência de representantes de São Paulo, que já foi o maior produtor nacional do formato. Entre os concorrentes, há cinco cariocas (De Janela Pro Cinema, Rota de Colisão, Dama da Noite, Os Outros e Tropel), dois gaúchos (Deus É Pai e O Outro), dois pernambucanos (Texas Hotel e O Pedido), um maranhense (São Luís Caleidoscópio), um paraibano (Passadouro), um paranaense (Aldeia) e um goiano (Bubula, o Cara Vermelha). Completam a programação cearense uma competição em vídeo e um seminário que funcionará como prévia ao 3.º Congresso do Cinema Brasileiro, que se realiza no fim do mês em Porto Alegre.

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