"Final Fantasy" marca avanço da tecnologia

Conta a lenda que o próprio Michelangelo, impressionado com a magnificência do seu Davi, golpeou com o cinzel a estátua que acabara de esculpir, dizendo: Parla. Criar representações perfeitas do humano sempre foi o sonho dos artistas. Dos cientistas, também e não foi por acaso que se chegou há pouco à clonagem, primeiro de animais, que a de homens ainda está complicada. Há um equivalente da clonagem nas telas. Ficou mais fácil criar homens e mulheres no computador, com tecnologia digital de ponta. Só não está sendo fácil dotá-los de alma. É o que prova Final Fantasy.Como história, a animação que estréia amanhã não é ruim. É mesmo uma bonita história de amor, embora esbarre na falta de verossimilhança de muitas cenas ou episódios que compõem a narrativa. O problema é a dupla principal. Ops, mas eles nem existem... São criações da nova tecnologia digital, que já permite criar figuras inteiramente no computador. Com Toy Story, a notável criação da Pixar, o público e os críticos celebraram o desenvolvimento tecnológico aplicado a uma história humorada e inteligente sobre brinquedos. Entram agora em cena representações do homem, da mulher.Você vai se impressionar com as rugas ao redor dos olhos e da boca da bonequinha de luxo virtual. Ela se chama Aki, aliás Dra. Aki Ross, e tem sonhos premonitórios que a apontam como salvadora da humanidade, num futuro em que fantasmas do espaço invadiram a Terra e ameaçam a sobrevivência do planeta (e dos homens). Vamos comemorar com os produtores. A computação gráfica já permite criar personagens que se assemelham a seres humanos. Só ainda não consegue dar-lhes expressão. Bem, você pode argumentar que Sylvester Stallone é humano (sic) e um monstro de inexpressividade. O problema é: vão criar um Actor´s Studio virtual para matricular nele a Aki e o Capitão de Final Fantasy?Com atores de carne e osso, seria melhor, mas aí não haveria o estranhamento que essa animação ultratecnicista provoca no espectador. Não haveria a novidade que faz de Final Fantasy um evento na história do cinema, quando é só o degrau mais recente da escalada de Hollywood nos efeitos especiais que dominam a produção massificada, essa mesmo que o cinema americano despeja semanalmente nas telas de todo o mundo, sem nenhum compromisso com o bom e velho humanismo. Quem quer ver gente na tela? Alguns talvez queiram e, para isso, sempre há algum filme iraniano em cartaz. Mas o barato, agora, é o personagem que só existe no computador. A fantasia final chegou.Não é muito animadora, embora seja, reconheça-se, tecnicamente prodigiosa. A animadora brasileira que participou do projeto explica como é possível escanear uma figura no computador, a partir de um modelo real, e depois ´vesti-la´, no sentido de lhe dar textura. A ficha técnica de Final Fantasy impressiona pela quantidade de supervisores de layout, de personagens, criaturas, movimentos, cenários, adereços. O mago que coordena toda essa equipe é o produtor e diretor Hironobu Sakaguchi. Se a tecnologia vingar e surgirem novas fantasias finais, quem sabe Hollywood não resolve o problema de tornar esses bonecos virtuais (porque gente não são, mesmo) mais verdadeiros? Ou, quem sabe, não descobriremos um dia que isso é coisa velha e que Arnold, Sylvester, todos esses heróis, meio robóticos e sem expressão, há tempos já instalaram a fantasia final?

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